‘Pretendo multiplicar tudo o que o Japão me oferecer nestes dias’, diz André Kondo

Claudia Nakazato, André, Jairo, Fernanda Gushiken, cônsul Noguchi, cônsul Nakamura e Fernando

A pedido do Jornal Nippak, o escritor André Kondo, que embarcou no último dia 2 para o Japão – ao lado de Fernanda Gushiken – para participar do “Programa de Convite ao Japão para os Descendentes de Japoneses da América Latina e Caribe” do Ministério dos Negócios Estrangeiros do Governo Japonês, escreveu um artigo falando um pouco sobre o que espera desta missão, que teve inícío nesta segunda-feira.

 

O grupo já iniciou missão em solo japonês

Escrevo este texto enquanto o avião sobrevoa o Sul da China, em direção ao Japão, após um longo voo que teve início ainda em São Paulo, na América do Sul, cruzando o Norte da África, algumas ilhas mediterrâneas da Europa, o Oriente Médio, o Subcontinente Indiano e o Sudeste da Ásia. De um lado ao extremo oposto, do oeste para o leste, do sul para o norte, o avião sobrevoou povos das mais diversas regiões, muitas delas citadas no livro em meu colo neste instante, o Diplomatic Blue Book, redigido pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros do Japão (MOFA).

Talvez, observar à distância a vida de milhões de pessoas espalhadas neste imenso mapa de fronteiras traçadas por tantos povos tenha, finalmente, despertado em mim a noção de que estou a caminho de uma importante missão. Quando este texto for publicado no jornal, já terei participado de algumas reuniões, palestras e visitas especialmente organizadas pelo MOFA, representando o Brasil com outros cinco nipo-brasileiros, e interagindo com mais oito nikkeis representantes de outras partes da América Latina e do Caribe. Em momento oportuno, divulgarei a experiência com detalhes, mas, por ora, o que tenho são apenas impressões do que me aguarda como Gaimusho Kenshusei, bolsista do MOFA.

Após receber orientações da cônsul para Assuntos Políticos, Reiko Nakamura, bem como do ex-bolsista, Fernando Matsumoto, e participar de um jantar na residência do cônsul geral, Yasushi Noguchi, pude observar o cuidado com que fomos preparados para essa viagem. Mas, afinal, qual o interesse do Governo do Japão em convidar jovens nikkeis para encontros com altas autoridades japonesas?

Creio que a resposta esteja nos desafios da diplomacia japonesa, em um mundo que demanda ações proativas em busca de um entendimento global que nos leve a uma maior justiça econômica e social, com a preservação dos valores humanos que poderiam enfim trazer a paz mundial.

Pode soar, de fato, pretensioso de minha parte dizer que estou a caminho de participar de tal missão, mas quero acreditar que esta é a razão maior de eu ter merecido esta honra, por indicação do Consulado Geral do Japão em São Paulo, com este convite do MOFA.

De acordo com informações do próprio MOFA, há razões preocupantes que podem complicar e até ameaçar os valores essenciais para a manutenção da ordem internacional, pautados pela liberdade, os direitos humanos, o respeito às leis e à democracia. As mudanças no balanço do poder, a diversificação e complexidade dos tratados, com problemas como o protecionismo, a escalada do terrorismo e do extremismo, bem como o preocupante crescimento em pautas globais nas questões sobre as mudanças climáticas,  o desenvolvimento de armas nucleares, os refugiados e, sobretudo, a pobreza, que ameaça a sobrevivência e a dignidade das pessoas, gerando problemas sociais que impactam a segurança da humanidade.

Há alguns anos, no início deste século, eu já havia cruzado, como mochileiro, quase a mesma rota que agora percorro no céu, só que por terra e em sentido inverso, tendo como destino o Brasil. Pude observar mais de perto as questões que a pobreza carrega, de tal forma dolorosa, que tendemos a fugir delas, e de tal forma recorrente, que passamos a ignorá-las. Afinal, o que eu poderia fazer? Dar um dólar a um pedinte nas ruas de Nova Délhi resolveria o problema da fome mundial? O que eu, apenas um dentre tantos que aí estão, poderia fazer?

Talvez essa seja a questão que muitos se fazem para responder com um “nada”, não sou “ninguém”. Eu sou um escritor, não um político, não um ativista, não alguém que tenha as soluções nas mãos, porém, eu tenho a palavra que não pode se calar. E é por meio dela que eu tentarei responder a essa questão, de forma a afirmar que eu sou sim apenas um, mas apenas um dentre tantos que ainda não desistiram de acreditar na possibilidade de um mundo mais justo para todos.

Naquela época em que viajei como mochileiro, deparei-me com algumas placas, em países tão diversos, desde a Ásia até a América Central, informando que esta ou aquela obra havia sido patrocinada pelo Governo do Japão, muitos por intermédio da JICA. Aquilo me intrigava. Afinal, por que um país daria dinheiro a outro para construir algo que nunca utilizaria? Por que um país investiria em uma pessoa como eu, arcando com custos de passagens e estadia, apenas para que esta conhecesse sobre questões diplomáticas de ordem mundial?

Talvez porque o Japão seja um país que aprendeu duramente a lição de uma empreitada bélica, único país do mundo destruído pelas terríveis bombas atômicas. O Japão é apenas um país, dentre tantos outros em um único mundo. Cada um de nós é uma única pessoa, que se junta a outras para formar uma única nação, que, acaso se unissem de verdade, tornariam-se uma humanidade única. O Japão é uma nação que tem a consciência de que a segurança nacional não depende apenas de um país, mas de todos. Por isso investe tanto, porque sabe que apenas com a melhoria das condições sociais do mundo é que a paz poderá ter uma chance.

Enquanto não nos conscientizarmos de nosso papel, por mais mínimo que seja, enquanto não acreditarmos que podemos contribuir para um mundo melhor, não haverá a possibilidade de nos tornar verdadeiramente humanos, alcançando a consciência de uma cidadania plena.

Daqui a poucas horas, chegarei ao Japão. Se estou pronto para esta missão? Já estava no momento em que minha mãe, minha irmã, minha família e amigos me ajudaram a preparar as minhas malas, no momento em que o país de meus ancestrais me convidou para esse retorno. Talvez eu seja apenas uma pessoa, mas, em meu retorno ao Brasil, pretendo multiplicar tudo o que o Japão me oferecer nestes dias, para que mais pessoas possam se beneficiar das lições deste pais em prol de uma sociedade melhor.

Para quem quiser saber mais sobre o assunto, postarei as impressões dessa experiência em minhas redes sociais: Facebook, www.fb.com/andrekondo e

Instagram, www.instagram.com/andre.kondo.

 

André Kondo – Escritor e bolsista Gaimusho Kenshusei 2020

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