Para Condecorados de Outono do governo japonês, sentimento é de gratidão

(Jiro Mochizuki)

No dia 18 de fevereiro, o Espaço Multiuso do Bunkyo (Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e de Assistência Social), no bairro da Liberdade, em São Paulo, foi palco de um evento cercado de grande significado para a comunidade nikkei. Foi a realização da Cerimônia de Homenagem aos Condecorados de Outono do 1º Ano da Era Reiwa (jurisdição do Consulado Geral do Japão em São Paulo).
Foram condecorados Masato Ninomiya, de 70 anos, Professor Doutor na Faculdade de Direito e na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas na Universidade de São Paulo e presidente do Ciate (Centro de Informação e Apoio ao Trabalhador no Exterior (Ciate), agraciado com a Ordem do Tesouro Sagrado, Raios de Ouro com Laço; Rubens Ricupero, 82 anos , jurista, historiador, diplomata e ex-ministro, agraciado com o Grande Cordão da Ordem do Sol Nascente; Roberto Rodrigues, 77 anos, ex-miistro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, agraciado com a   Ordem do Sol Nascente, Estrela de Ouro e Prata; Luiz Carlos Trabuco Cappi, 68 anos, presidente do Conselho de Administração do Bradesco, com a Ordem do Sol Nascente, Raios de Ouro com Laço; Kiyoshi Harada, 78 anos, jurista, com a Ordem do Sol Nascente, Raios de Ouro com Laço; e Pedro Yano, 86 anos, ex-presidente da Associação Cultural e Desportiva Nikkei de São Miguel Paulista, ex-presidente da Associação Brasileira de Taiko e atual presidente da Federação de Sakura e Ipê, com a Ordem do Sol Nascente, Raios de Ouro e Prata.

Como de praxe, os homenageados receberam suas comendas em cerimônia realizada à tarde na Residência Oficial do Cônsul Geral do Japão em São Paulo, no bairro do Morumbi (zona Sul de São Paulo).
À noite, foi a vez de 33 entidades – lideradas pelo chamado “Godantai” – Bunkyo, Enkyo, Câmara de Comércio e Indústria Japonesa do Brasil, Kenren e Aliança Cultural Brasil-Japão – promoverem uma recepção aos homenageados. O evento, que reuniu cerca de 200 pessoas, contou com a presença do cônsul adjunto do Consulado Geral do Japão em São Paulo, Akira Kusunoki e de representantes das entidades co-promotoras, além de familiares.

O presidente do Bunkyo, Renato Ishikawa “Brilho diferenciado” (Jiro Mochizuki)

Brilho – Em seu discurso, o presidente do Bunkyo, Renato Ishikawa, disse que os homenageados são personalidades que representam os elos “desse intercâmbio multifacetado entre os dois países”. E mencionou alguns aspectos dos currículos de cada um.
Ao concluir sua fala, Ishikawa destacou que, nesse cenário do intercâmbio, as condecorações concedidas aos cidadãos do Japão e de outros países constituem-se numa tradição das mais significativas de reconhecimento do governo japonês e do imperador do Japão.
“O Museu Histórico da Imigração Japonesa no Brasil possui em seu acervo grande número de medalhas e condecorações do governo japonês, recebidas pelos imigrantes e doadas pelos netos e bisnetos. A maioria delas está gasta pela ação do tempo e pela terra vermelha das frentes de colonização”, observou Ishikawa, acrescentando que “esses objetos são uma preciosidade especial na história do Museu e revela o profundo significado para a existência de cada um dos conderados”. “Ou seja, mais do que uma simples medalha, ela deu brilho e o diferenciou dos demais pelo reconhecimento de um país ao seu esforço e dedicação”.
E assinalou: “Creio que ainda hoje, nem mesmo este mundo midiático e globalizado foi capaz de ofuscar o brilho e a emoção de ser contemplado com esta condecoração”.
Já o cônsul adjunto Akira Kusunoki lembrou que em 2020 celebra-se os 125 Anos do Estabelecimento das Relações Diplomáticas entre o Japão e o Brasil. “Acredito que a construção e a manutenção das relações de amizade entre os dois países ao longo dos ano foi possível, primeiramente, graças aos seis condecorados na data de hoje, e a todos que vieram envidando esforõs em seu cotidiano”.

Sakura e taiko – Coube a Pedro Yano abrir a série de discursos dos homenageados. E destacou que o sentimento era de gratidão. “Gratidão aos antepassados de todas as etnias”, frisou, “e gratidão à Corte Imperial do Japão”. “Ao mesmo agradeço os nossos pioneiros e todos os associados que ajudam a formar este grupo para que possamos dar continuidade a nossa cultura tão rica, que é a cultura nipônica”, disse, explicando que, no caso do wadaiko, contou com ajuda da província de Fukuoka e da Associção Fukuoka do Brasil, além de várias entidades que contribuíram para concretizar a ampliação da difusão do ensino do wadaiko no Brasil. E no caso do Parque do Carmo, destacou a contribuição dos pioneiros que conseguiram trazer mudas para o Brasil e climatizar as variedades que todos os anos enfeitam o bosque do Parque do Carmo, na zona Leste de São Paulo, onde desde 1978 acontece a famosa Festa das Cerejeiras.

Emoção – Em um discurso bastante emocionado, Masato Ninomiya também agradeceu. Agradeceu ao governo japonês “por ter me concedido bolsa de estudo durante quase dez anos e que me permitiu obter o título de Mestre e Doutor em Direito e que me possibilitou, mais tarde, quando de volta ao Brasil, prestar concurso na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, onde leciono há 36 anos”. Agradeceu à Universidade de Tóquio, “onde estudei, e todas as universidades onde lecionei – porque lecionando aprendi muitas coisas”. Agradeceu às pessoas que o ajudaram no Bunkyo, no Museu Histórico da Imigração Japonesa do Brasil e no Ciate; e agradeceu à família, “especialmente a minha esposa, Dona Sônia [Regina Longhi Ninomiya], e os filhos”. “Agradecido porque, se pude trabalhar para a comunidade, fui um grande ausente na minha casa. Mas graças a minha esposa, Dona Sônia, os meus filhos foram criados, ela cuidou da minha mãe, enfim, tudo o que sou, devo aos aos outros, devo ao Brasil, devo ao Japão, devo a Universidade de São Paulo, que me treinou na oratória e que me treinou na elaboração de textos. E se fui intérprete, se fui tradutor, devo às escolas onde estudei”, destacou Ninomiya que, ao Jornal Nippak, dedicou sua condecoração aos familiares, aos professores “e todos os amigos que colaboraram nesta empreitada”.
E só lamentou a ausência dos pais. “Se eles estivessem vivos imagino o quanto eles não ficariam orgulhosos, assim como alguns professores que me orientaram”, disse Ninomiya.

Gaimusho – Kiyoshi Harada também iniciou sua fala expressando seu “profundo agradecimento” ao governo do Japão, “na pessoa do cônsul geral adjunto Akira Kusunoki”. “Sabemos todos nós que ninguém consegue alcançar seus objetivos sem a ajuda das pessoas que nos cercam, por isso, quero agradecer nesta noite as pessoas que contribuíram para que eu pudesse galgar os elevados postos da hierarquia no exercicio da profissão e buscar também a ascensão social no meio da comunidade nipo-brasileira”.
E assim agradeceu, “sobretudo”, à esposa Felicia Harada, “companheira inseparável em todos os momentos”; aos filhos, Marcelo e Maristela, à nora Raquel, ao genro Fernando, e aos “queridissimos netos”, Felipe, Luiz, Melisa e Maya, “que com seus sorrisos encantadores me animam a continuar na luta diária”.
Agradeceu também “os companheiros de várias jornadas, como os companheiros do Instituto de Advogados de São Paulo, a mais velha instituição jurídica do país, os companheios da OAB, confreiras e confrades das três academias a que pertenço; membros do Conselho Superior de Direito da Federação do Comércio do Estado de São Paulo, membros do Conselho Superior e Estudos Jurídicos e Legislativos da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo; aos lideres comunitários, principalmente aos diretores, ex-diretores e também conselheiros do Bunkyo, onde também milito até hoje”.
E agradeceu, especialmente, “aos meus companheiros da Associação Latino-Americana de Ex-Bolsistas do Ministério dos Negocios Estrangeiros do Japão, que tive a honra de presidir por dois anos, e também aos companheiros ex-bolsistas do Brasil, com os quais eu tenho uma amizade mais profunda por estar convivendo quase que semanalmente”.
Ao Jornal Nippak, Harada disse que a “Ordem do Sol Nascente, Raios de Ouro com Laço, é, sem dúvida nenhuma, uma honraria inédita, inusitada e que toca no fundo do meu coração, no fundo da minha alma porque partiu do governo de um país de que são originários os meus humildes pais, que para cá vieram como imigrantes”. “Daí a nossa imensa satisfação, o nosso orgulho de termos conquistado essa honraria sem igual”, destacou.

Arigatô – “Abusando” do japonês, Luiz Carlos Trabuco Cappi afirmou que “este é um dos reconhecimentos mais importantes, e um dos mais carinhosos com que já fui agraciado ao longo da minha vida profisisonal”. “É também, creio, uma expressão da profunda amizade que me liga, desde a infância, à comunidade japonesa e seus descendentes”. Comunidade que teve o “privilégio de conhecer em Marília, interior de São Paulo, onde nasceu e onde iniciou sua carreira no Bradesco. “Assim incorporou em seu vocabulário expressões como ‘sugoi’ “que tanto se identifica com esse momento que estou vivendo aqui, que significa ‘muito bom’, ‘vamos nessa’”, disse, lembrando que, ao iniciar suas atividades em Marília, “o Bradesco acolheu e foi acolhido pelos imigrantes japoneses”. “O nosso gerente, Riokichi, tinha como missão principal atender os japoneses em sua língua natal, facilitando a integração entre nós. Como nos dizia Riokichi san, ‘Ganbatte Kudasai’, ou seja, faça o seu melhor, dê o máximo sempre. Até hoje recorro a esse pensamento ao me deparar com nossos desafios pessoais ou profisisonais”, explicou Cappi, que finalizou seu discurso com um “Gambarê, Nippon” e “Arigatô Gozaimasu”, acenando duas bandeirinhas – do Japão e do Brasil – que trazia consigo no bolso.

Honra – Já Roberto Rodrigues destacou três palavras em seu discurso: honra, gratidão e alegria. “É uma honra enorme, até por uma razão singela. Eu admiro e respeito o povo japonês desde que eu era muito menino, quando morava no interior, ainda na roça, quando meus pais sempre falavam o quanto o Japão era um país extraordinário e maravilhoso. No meu imaginário, o povo japonês era muito organizado, muito respeitoso, muito admirado. Quando eu sai da roça e comecei a conhecer japoneses na Faculdade e depois no Japão, todo aquele imaginário virou realidade. O Japão é um país maravilhoso e que tem uma profunda admiração e respeito pela natureza. É uma honra tão grande que é dificil até caracterizar. Essa palavra, honra, que parece comum e é repetida sistematicamente, mas não há outra para traduzir o sentimento que tenho neste momento. Estou profundamente honrado e agradecido”, destacou.
“Gratidão porque cheguei até aqui obviamente trazido pelas mãos, pelos corações e pelo afeto de grandes amigos, e alegria imensa que, se puderem, imaginem cada um de vocês como uma flor de sakura durante a florada das cerejeiras”, observou Rodrigues, que fez um agradecimento especial à esposa, Carla Rosana de Freitas.
E por fim, Rubens Ricupero destacou sua admiração pela mobilização da comunidade japonesa, a mesma que já o havia impressionado por ocasião da Cerimônia e Jantar em Comemoração à Entronização do Imperador do Japão realizada em outubro do ano passado no Círculo Militar de São Paulo.

Japan House – “Isto não é comum às outras etnias e mostra, de uma certa forma, um pouco a razão do êxito do Japão, da sua coesão entre governo e população, entre os dirigentes e aqueles que constituem o povo japonês, portadores da sua cultura, das suas tradições, de seus valores”, disse Ricupero, que, como descendentes de imigrantes – de italianos – “admiro muito, e até com uma certa ponta de inveja, essa capacidade que a comunidade japonesa tem, depois de tantos anos, de mais de 100 anos do início da imigração, de manter viva essa chama da comunidade e sua ligação com a pátria-mãe e, sobretudo, de manter ativa a presença cultural no seio da comunidade brasileira”.
Segundo ele, de alguns anos para cá tem estado mais próximo do Japão e do seu povo “graças ao convite muito honroso que recebi do ex-cônsul geral [Takahiro] Nakamae e da prmeira presidente executiva da Japan House São Paulo, Ângela Hirata, para que eu me tornasse presidente honorário da Japan House”. “Devo confessar que no início fiquei um pouco surpreso porque não possuía nenhuma ligação particular com o Japão, eu não servi o Japão, não tive esse privilégio – apesar de ter tido oportunidade de estar lá várias vezes – mas não possuia nenhum vínculo de maneira especial. Agora, para mim, isso tem sido uma oportunidade extraordinária de enriquecimento pessoal. Desde que eu me juntei à equipe da Japan House, pude crescentemente me sentir cativado por estas qualidades do povo japonês”, destacou Ricupero, lembrando que, em dois anos e dez meses de existência, a Japan House registrou mais de 2 milhões de visitantes.

Mangás – “E a Japan House representa justamente o reconhecimento do caráter de metrópole de São Paulo porque é a única entidade de um pais estrangeiro que soube dar esse nivel a sua representação cultural, procurando trazer o que ela tem realmente de mais inovador”, disse Ricupero, afirmando que o Japão é um país que consegue, ao mesmo tempo, manter a sua tradição de cultura milenar e estar na vanguarda das tecnologias de ponta.
“Um país que consegue manter a riqueza da sua tradição em artes, em poesia, em teatro e, ao memso tempo consegue fascinar os adolescentes com todos os tipos de invenção moderna, desde os mangás até todo tipo de manifestação que atinge esse público, que é o mais difiícil de todos, que é esse público de 15, 16 anos”, finalizou Ricupero.

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