PANDEMIA: Atletas de diferentes modalidades contam o que fazem para manter a forma na quarentena

(Arquivo pessoal)

Se para uma pessoa “comum”, isto é, avessa à prática de esportes, a quarentena já tem sido estressante, que dirá, então, um atleta. Trocar o corre corre de treinos, viagens e competições pela rotina do quarto, cozinha e sala pode ser mais extenuante do que conquistar o tão cobiçado lugar no pódio. E aí cada um tem que se virar como pode para se manter em forma para quando as competições forem retomadas. De lives a treinamentos em casa, o importante mesmo é manter o corpo e cabeça em atividade.
É o caso, por exemplo, dos sumotoris. No último dia 9, o londrinense Rui Júnior, vice-campeão mundial na

O sumotori paranaense Rui Júnior organizou um treino via Instagram (arquivo pessoal)

categoria peso pesado – título conquistado no 23º Campeonato Mundial realizado em outubro do ano passado, na cidade de Sakai, na província de Osaka, no Japão – comandou uma live com a participação de alguns dos principais nomes da modalidade – Takahiro Higuchi, Fernanda Rojas Pellegrini, Diego Froner, Wellington Bezerra, Adiecson Gross Bobsin, Luciana Watanabe, Diogo Uehara, Alex Nakaya, Daniel Guedes, Camila Fukushima e Leandro Monma – das regionais São Paulo, Sudoeste, ABC, Santo Amaro, Nova Central, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e Salto (Norte).
“Foi mais um treino para apresentar os exercícios básicos do sumô ao público”, explica Wellington Bezerra, lembrando que, em função da quarentena, cada um está treinando em sua própria casa. “No momento não há como contar com um parceiro de treino no que diz respeito aos combates, mas para manter o condicionamento físico meu treinamento consiste em exercícios calistênicos e de sumô”, conta Bezerra, afirmando que treina cerca de uma hora e meia todos os dias. “Sempre no período noturno por causa dos compromissos profissionais”, ressalta ele, acrescentando que, devido à pandemia do Covid-19, e assim como os Jogos Olímpicos deste ano, diversos campeonatos de sumô que estavam agendados para 2020 tiveram que ser cancelados ou postergados para o segundo semestre.
Entre eles, destaques para os tradicionais regionais, seletivas, Campeonato Paulista, o Campeonato Sul-Americano – que seria realizado em agosto, em Pirapó (Paraguai), em conjunto com as festividades que celebrariam os 60 anos da imigração japonesa na cidade –, e por fim, o Campeonato Mundial, que seria realizado em setembro, em Krotoszyn, na Polônia, e foi adiado para 2021.

Wellington Bezerra (em pé, ao fundo), com equipe e dirigentes de sumô no Bom Retiro (arquivo pessoal)

Treinamento online – Wellington Bezerra acredita que, enquanto este cenário pandêmico se prolongar, será um período de adaptação para todas as modalidades esportivas e o meio digital pode ser uma importante ferramenta nesta fase. “As ferramentas de vídeo-conferência estão em alta e tem nos proporcionado a oportunidade de participar de treinos em conjunto com equipes de outros países e na semana passada iniciamos um grupo semanal recorrente de treinamentos online. Treinar em conjunto motiva os atletas, aproxima e é uma maneira de manter a ‘chama’ acesa”, diz.
A pandemia também atrapalhou os planos da mesa-tenista Jéssica Yamada. Atualmente no FME Concórdia, de Santa Catarina, a atleta, de 30 anos, planejava disputar este ano o Campeonato Mundial por Equipes, que seria realizado em março, na Coreia do Sul, e em abril a agenda previa a disputa dos play offs na Suécia, onde representava o club BTK Storfors.

A mesa-tenista Jéssica Yamada com o pai, Marcos Yamada (arquivo pessoal)

Sonho – Segunda melhor atleta do país no ranking mundial feminino (é a 145ª colocada), Jessica encontrou uma motivação a mais para treinar. Duas semanas antes de ser decretada a quarentena em São Paulo, ela e o marido, o também mesa-tenista Cazuo Matsumoto, abriram a Match Point table tennis, um antigo sonho da atleta. Localizada próxima à estação Praça da Árvore do metrô, o clube contava com 57 alunos antes de fechar temporariamente suas portas.
Agora, ela e o marido usam o local de vez em quando para treinar com as portas fechadas. “Claro que não é com a mesma intensidade, mas já ajuda a não perder tanto o ritmo”, explica, acrescentando que, além das competições já canceladas, o calendário prevê outras até o final do ano, “mas ninguém sabe ainda se realmente vai ter algum evento nesse ano”.
“O mundial passou para setembro, mas temos que esperar pra ver”, diz ela, destacando que o momento é difícil para todos. “Estava me preparando para as Olimpíadas de Tóquio e tínhamos acabado de abrir o clube, mas continuo muito animada e firme para quando chegar a data das Olimpíadas estar firme e preparada para enfrentar minhas adversárias”, comenta, afirmando que, quando as competições forem reiniciadas, “todos estarão em condições de igualdade”. “Só estamos esperando essa pandemia passar para voltar com força total”, conta Jéssica, que daqui para frente espera que as pessoas mudem o seu jeito de olhar o mundo.

Retrocesso – “Espero que todos possam dar mais valor às pessoas, que tratem o meio ambiente com mais respeito, que possamos cuidar melhor do nosso planeta. Enfim, espero um mundo melhor, com mais amor e respeito”, diz ela, garantindo que as mudanças já começaram. “Apesar da pandemia, estamos vendo muitos atos de solidariedade e ajuda entre as pessoas, acho isso muito positivo”, concluiu.
Para o seu pai, o ex-técnico da seleção brasileira e hoje empresário e comentarista, Marcos Yamada, com os clubes fechados, atletas parados, corte de verbas e sem nenhuma competição oficial, ou seja mesa-tenistas sem conseguir manter a programação anual, em especial para as Olimpiadas 2020, a modalidade sofreu um de seus piores baques em toda a sua história. “Uma derrota para o tênis de mesa brasileiro, tanto na parte técnica, como física, mental e essa quebra de ritmo, resulta num retrocesso para o esporte em geral”, afirma Yamada, explicando que essa parada, obrigatória, interrompeu um ciclo olímpico.
“Foi uma regressão total. Todo o planejamento foi para o lixo. Se nas Olimpíadas de 2020 os atletas chegariam num nível 9, para 2021 vão para o nível 6 por causa da quebra do ritmo”, diz ele, destacando que dois dos brasileiros mais bem ranqueados, Hugo Calderano (6º) e Vitor Ishiy (58º) estão treinando todos os dias. “Porém, só treinar não mantém ritmo de competições”, ressalva.

O professor de karatê Akira Saito treina durante a quarentena: “Tivemos que adaptar os treinamentos” (arquivo pessoal)

Karatê – Renshi-Shihan (mestre) 5º Dan Karate-do Goju-ryu, campeão Mundial de Karate-do Goju-ryu em 2013, Kyoshi 7º Dan Shibu e Kenbu estilo Shoko-ryu e proprietário da Saito Academy, Akira Saito acredita que todos tiveram que se adaptar, “não somente nos aspectos de higienização e cuidados uns com os outros, mas também com as questões de isolamento social e com as novas rotinas em casa, seja em família ou sozinhos”.
“Tivemos que adaptar todos os treinamentos, os nossos (família) e também dos alunos. Cada um teve um problema, seja a adaptação aos novos horários, local inapropriado, falta de espaço, mas no final está dando certo. Mantemos uma forma de treinamento por vídeos que são enviados periodicamente, ensinando e também corrigindo. Propomos desafios para manter além da disciplina, mas também a motivação. O exercício físico é importante para manter o corpo forte e também a mente saudável, livre de pensamentos negativos e não produtivos”, explica, lembrando que não está mais competindo no Karate-do, “mas meu irmão Horácio e alunos tiveram que adaptar todos os seus treinos que são necessários, não apenas para manter a forma física, mas também não ter perda de rendimento e principalmente manter a condição psicológica inabalada”.

Reconstrução – “Quem compete sabe que todos os treinamentos giram em torno de periodização, sempre se calcula o ápice de seu treinamento para a data da competição e quando acontece de não se ter certeza em relação às datas futuras, é importante ter foco e disciplina para não deixar o treinamento e o redimento cair, pois isso pode comprometer todo um planejamento, às vezes de anos”, conta Akira, destacando que, a exemplo de outros esportes, também no karatê os campeonatos/eventos do primeiro semestre, entre estaduais e nacionais, foram adiados e sem definição de nova data.
Segundo ele, no segundo semestre, eventos internacionais como o Sul-Americano de Karate-do Goju-kai e o Seminário com o Saiko-Shihan Yamaguchi Goshi – que viria do Japão em outubro – também foram adiados.” Até mesmo o mundial do nosso estilo (Goju-kai) que estava previsto para o ano que vem, foi adiado para 2022, já que a Olimpíada foi transferida deste ano para o ano que vem”, diz Akira Saito, para quem “temos que ter mais pensamento de reconstrução do que perspectivas em relação ao futuro, já que é um evento sem precedentes e o futuro precisará ser escrito de uma forma ou de outra”.

Valores – “Esperamos que com isso, o ser humano aprenda com o ocorrido e que alguns valores (talvez esquecidos) tenham uma maior atenção”, observa, acrescentando que, “o que vai permanecer é a cautela, seja com você ou com o próximo”. “Desejo mesmo que o que permaneça, mesmo estando com aqueles que gostamos depois de acabar a quarentena, seja o amor e aquela vontade de estar junto com a sensação de que o instante pode ser único”, destaca.

(Arquivo pessoal)
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