NIPPAK RURAL: Plantio Direto, de Mauá da Serra para o Mundo

(Reprodução)

Sistema desenvolvido por Herbert Bartz e disseminado pelos produtores nikkeis de Mauá da Serra, no Paraná, é um dos principais fatores de sustentabilidade e produtividade da agricultura brasileira

Quem diria que a união entre os descendentes de dois grupos de imigrantes deixaria um enorme legado para a agricultura brasileira. Essa é a origem do Sistema de Plantio Direto (SPD), técnica que surgiu na década de 1970 e hoje é considerada um dos principais fatores de produtividade da agricultura brasileira. Tudo começou com o produtor Herbert Bartz, de Rolândia, no Paraná, que se aliou posteriormente com os produtores nikkeis de Mauá da Serra e dos Campos Gerais, no Paraná, na aplicação de uma técnica de combate à erosão do solo de a partir do semear sobre a palhada. Essa parceria mudaria para sempre os rumos da agricultura brasileira. Atualmente, o cultivo pode ser feito também sobre outras culturas e até sobre vegetação nativa.
Hoje o Sistema Plantio Direto é amplamente praticado pelo país e é uma das principais marcas de sustentabilidade da agricultura brasileira perante o mundo. Durante a realização do 4º Diálogo Brasil-Japão, realizado pela Fiesp no ano passado, a ministra Teresa Cristina chegou a mencionar o Sistema de Plantio Direto na palha como parte do Programa de Agricultura de Baixa Emissão de Carbono (Plano ABC). Esse programa governamental promove a adoção de diversas tecnologias de produção sustentável que contribuam para os compromissos de redução da emissão de gases de efeito estufa e uso racional do solo. A ministra tem divulgado a técnica para outros países como a Índia, e já firmou parceria com a Alemanha para o intercâmbio e desenvolvimento de diversas técnicas, dentre elas o Sistema de Plantio Direto.
Mas o que é Plantio Direto? De acordo com o Sr. Higashi Hibara, responsável pelo Museu do Plantio Direto, no Paraná, o sistema e plantio direto corresponde à técnica de lançamento de semente no solo com a profundidade e umidade adequada para uma boa germinação com o menor revolvimento possível da cultura anterior.
Mas a ampliação do enfoque de “plantio direto” para “Sistema Plantio Direto (SPD)” ocorreu pela percepção de que a viabilização do sistema de produção agrícola não estava vinculada única e exclusivamente ao abandono do preparo de solo, mas sim à associação desta prática à rotação e à consorciação de culturas e à cobertura permanente do solo com plantas que gerem ganhos econômicos e com resíduos vegetais (palhada).

Hoje o sistema é amplamente praticado pelo país (divulgação)

“Em razão dessa evidência, no Brasil, o Sistema do Plantio Direto passou a ser entendido como uma forma de gestão da terra fundamentada na diversificação de espécies, na mobilização de solo apenas na linha ou cova de semeadura, na manutenção permanente da cobertura do solo e na minimização do intervalo entre colheita e semeadura, objetivando estabelecer o processo contínuo colher-semear”, explica o Sr. Hibara.
Dentre as vantagens e desvantagens do sistema, segundo o técnico, estão a menor demanda pelo uso de máquinas e equipamentos, menor força de trabalho e menos energia fóssil (petróleo) favorecendo a atividade biológica do solo e o controle biológico de pragas, doenças e plantas daninhas. Além disso, o SPD praticamente elimina a erosão, melhora o uso de fertilizantes, aumenta a floculação e a agregação do solo e reduz a decomposição da matéria orgânica, estabelecendo sincronismo entre a disponibilidade de nutrientes e o crescimento das formas de vida presentes no solo e inúmeras outras vantagens.
Apesar destes pontos fortes, o sistema pode exigir o aumento do investimento e dispêndio com custo de herbicidas. “Além disso, frequentemente é necessário o uso de máquinas especificas para o sistema. Ocorre ainda a diminuição da produção caso a infestação de ervas daninhas aumente. Isto pode ser percebido já que essas ervas concorrem com a cultura em desenvolvimento, consumindo nutrientes e espaço”, alerta o especialista no assunto. Por isso, a seu ver, é fundamental o investimento permanente em conhecimento e em pessoal técnico especializado em utilização de herbicidas, trato de ervas daninhas, equipamentos, etc.

Contexto Histórico – No ano de 1973 o Sr. Candido Uemura soube da existência do Plantio Direto na Inglaterra, através de uma revista chamada “Dirigente Rural” e se interessou pela informação. Conversando com seu irmão mais velho, Yukimitsu Uemura, descobriu que ele havia ouvido falar de um produtor em Rolândia, município localizado a 75 km de Mauá da Serra, no Paraná, que já estava experimentando a técnica.
A informação chegou a Yukimitsu por seu sobrinho, Issei Sakamoto. Ele, que na época trabalhava com venda de máquinas para beneficiamento de café e cereais, e havia conhecido a lavoura de Hebert Bartz durante uma visita. E assim convidou Sr. Yukimitsu, que tinha os mesmos problemas de erosão que o Sr. Bartz, e tentava controla-los por esse novo sistema de plantio. No ano seguinte, o produtor já adquiriu uma máquina e fez o primeiro plantio em Mauá da Serra com a cultura do trigo e no mesmo ano, em novembro, o primeiro plantio de soja..
No decorrer do ano, os produtores de Mauá da Serra foram aderindo à prática sob o conhecimento praticado na propriedade do Sr. Yukimitsu Uemura, iniciando em massa o uso do sistema do plantio direto. Em pouco tempo, em quase a totalidade das áreas o método de plantio já era utilizado porque tinha um controle de erosão melhor que os outros métodos. Ou seja, o sistema foi o resultado de uma parceria ocasional entre imigrantes japoneses e alemães e hoje traz frutos que transcende as fronteira brasileiras
Segundo o Sr. Higashi, basicamente todos os produtores da região de Maua da Serra aderiram ao sistema a cultura de soja, milho e trigo são as principais. Tanto que os resultados da produtividade agrícola na região são comparados aos obtidos nos Estados Unidos.

A técnica – Inicialmente considerada tecnologia para grandes produtores, o Sistema de Plantio Direto é objeto de campanhas em pequenas propriedades visando a adequação e adoção em vários estados. As primeiras experiências relacionadas com a pequena propriedade ocorreram a partir de 1984 no Paraná, quando a Área de Engenharia Agrícola do IAPAR (Instituto Agronômico do Paraná) lançou um protótipo de semeadora-adubadora com uso de tração animal – a “/ Gralha Azul” – desenvolvida pelos Engenheiros Agrônomos Ruy Casão Jr., Augusto G. de Araújo e Rui S. Yamaoka.
Na seqüência, objetivando estudar a viabilidade do plantio direto em solos de baixa aptidão agrícola, o IAPAR implantou, sob orientação dos eng. Agrônomos Gustavo Merten e Ademir Calegari e do eng. Agrícola Augusto G. de Araújo uma rede de ensaios temáticos em distintas regiões climáticas do Paraná, para avaliar sistemas de preparo do solo com tração animal e o uso de plantas de cobertura do solo no verão e inverno, em rotação com as culturas de feijão e milho.
Um dos aspectos do sistema que deve ser considerado é que ele requer uso de herbicidas específicos para deixar a área livre de ervas daninhas para a semeadura, que no sistema convencional não seria utilizado. “Mas o plantio direto melhora o aproveitamento dos fertilizantes químicos que deixam de ser levados pela erosão. Portanto utiliza-se mais herbicidas e menos fertilizantes, porem a qualidade do solo melhora a produtividade”, esclarece o Sr. Higashi Hibara.
Outro aspecto é quanto a principal diferença entre o sistema de plantio direto e o convencional, que é a forma da semeadura. Portanto o maior investimento será em uma plantadeira adequada para o plantio na palha e de um pulverizador mais moderno.
De acordo com o Sr Higashi Hibara, qualquer solo pode aplicar o sistema. Mas é possível que haja algumas dificuldades na implementação nos solos mais argilosos pois a compactação dificultava o plantio. O uso do sistema permite a segunda cultura de verão devido ao ganho de tempo na colheita e no plantio, como no plantio do milho-safrinha. É possível obter mais informações nos institutos oficiais (EMATER, EMBRAPA, IAPAR, FEBRAPDP), em livros, na internet e instituições de ensino.
Uma das razões para o sistema ter se popularizado tanto na região, foi o apoio e participação das cooperativas que participavam na disseminação do plantio direto enumerando as diversas vantagens que o sistema proporcionava através de “dias de campo” e organizando visita em propriedades onde o sistema já estava implementado. Hoje o sistema de plantio direto está disseminado nacionalmente não havendo necessidade de incentivos para a adoção do sistema, finaliza o responsável pelo Museu do Plantio Direto, uma espécie de templo de conhecimento do sistema para ajudar as futuras gerações de produtores.

Museu foi inaugurado em 2012 e guarda as primeiras máquinas e implementos agrícolas usados no sistema que mudou a região (divulgação)

Museu do Plantio Direto – O museu do Plantio Direto guarda um extenso acervo histórico além de preservar as primeiras máquinas utilizadas no sistema do plantio direto.
Há fotos, relatos, publicações e palestras inclusive com o idealizador do sistema de plantio direto no Brasil, Hebert Bartz, que visam contar a história desde o começo, em que se destaca a perseverança da colônia japonesa,   primordial para resolver o problema da erosão que o sistema convencional causava, revolucionando a agricultura no Brasil. Trata-se do único museu do mundo especifico sobre o tema.
O contato para visitas ao museu pode ser feito pelo telefone (43) 3464-1920 ou através do facebook Museu do Plantio Direto ou pelo WhatsApp (43) 99921-7979 Sergio / (43) 99955-7452 Beto. Já foram realizadas diversas visitas por instituições de ensino do mundo todo, inclusive estrangeiros (franceses, alemães, italianos, paraguaios, suíços, cubanos, japoneses) interessados em conhecer a história do plantio direto.
https://www.facebook.com/MuseuDoPlantioDireto/

Mariuza Rodrigues. E-mail:   mariuzarodrigues2020@outlook.com.br.

BRASIL E ESTADOS, SUPERFÍCIE SOB PLANTIO DIRETO (ha)

Brasil 32.878.660
Rondônia 236.594
Acre 7.711
Amazonas 10.02
Roraima 31.727
Pará 293.616
Amapá 3.171
Tocantins 554.124
Maranhão 1.115.513
Piauí 682.375
Ceará 19.631
Rio Grande do Norte 3.832
Paraíba 5.398
Pernambuco 16.363
Alagoas 12.421
Sergipe 7.279
Bahia 1.453.416
Minas Gerais 1.863.303
Espírito Santo 16.953
Rio de Janeiro 10.766
São Paulo 1.003.031
Paraná 4.859.075
Santa Catarina 999.485
Rio Grande do Sul 6.027.019
Mato Grosso do Sul 2.343.274
Mato Grosso 8.101.143
Goiás 3.125.168
Distrito Federal 76.252

Fonte: IBGE, 2017 adaptado por Fuentes Llanillo, R.; Soares Jr., D. & Telles, T. S., 2018.

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