Nikkeis se manifestam contra fala do presidente

O presidente Jair Bolsonaro voltou a provocar reações na comunidade nikkei ao se manifestar sobre a jornalista Thais Oyama, autora do livro “Tormenta: O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos”, chamando-a de “essa japonesa que eu não sei o que faz no Brasil”. Para Kiyoshi Harada, um dos mais conceituados juristas brasileiros, “ainda que a jornalista tivesse excedido no exercício de liberdade de expressão, não se justifica, com todas as vênias, essa agressão verbal”. O escritor André Kondo usou as redes sociais para falar que, “assim como aquela japonesa, sou brasileiro também”

Presidente Bolsonaro ataca a jornalista Thaís Oyama*

*Kiyoshi Harada

Em uma live no Facebook, no dia 16 último, o Senhor presidente criticou pela enésima vez a mídia brasileira afirmando que a imprensa “tem medo da verdade”. “A nossa imprensa tem medo da verdade. Deturpam o tempo todo. Quando não conseguem deturpar mentem descaradamente”.

Que a nossa mídia não é competente e confiável todos nós o sabemos. Frequentemente ela traz notícias incompletas, falhas, lacunosas e, às vezes, não verdadeiras como, por exemplo, a fuga do Carlos Ghosn que estaria em regime de prisão domiciliar, sob vigilância de uma empresa particular contratada pela Nissan, e que ante a ameaça do senhor Carlos Ghosn de denunciar a violação de direitos humanos a Nissan teria suspendido o monitoramento que permitiu a sua fuga do Japão. Com um pequenino esforço mental é possível inferir a incoerência da notícia veiculada. O preso, qualquer que seja o seu regime prisional, e em qualquer país do mundo não pode reclamar contra a vigilância que é exercida. Cidadão preso significa que está sob a custódia do Estado. No Brasil o monitoramente é feito por meio de uma tornozeleira eletrônica. Na verdade, o senhor Carlos Ghosn, como esclarece o comunicado oficial da Ministra da Justiça do Japão, Senhora MORI Masako,  estava em regime de liberdade sob fiança com o compromisso de não sair do país, o que é bem diferente da versão dada pela mídia brasileira. E naquele país, compromisso assumido é algo muito sério!

Portanto, o jornalismo no Brasil padece certamente  de defeitos sérios. Por isso, o exercício da profissão de jornalista deixou de ser privativo dos diplomados nesse ramo científico.

Entretanto, o que não é compreensível, nem aceitável é a violenta reação do Senhor presidente em relação à  jornalista Thaís Oyama, uma brasileira nata, que escreveu o livro “Tormenta: O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos”. O título sugere tratar-se de um livro de cunho jornalístico.

Ainda que a jornalista tivesse se excedido no exercício da liberdade de expressão não se justifica, com todas as vênias, a agressão verbal perpetrada pelo Senhor presidente da República que declarou em alto e bom som: “E esse livro dessa japonesa, que eu nem sei o que faz no Brasil, que faz agora contra o Brasil”. Sabe muito bem o Senhor presidente que ela está  no Brasil porque aqui ela nasceu. E eventual crítica ao governante não pode ser considerada agir contra o Brasil.

Não conheço o livro, nem a sua autora, mas se contiver  algo que possa ser qualificado como crime contra a honra o remédio seria o acionamento de mecanismos legais tendentes à perseguição criminal ou à reparação do dano moral, nunca partir para uma agressão verbal destemperada, desproporcional e com veementes indícios de idéias  preconceituosas que extravasa a fronteira das partes antagônicas.

A  irreverência do Senhor presidente, que mal consegue disfarçar o seu  espírito beligerante e preconceituoso, ofende toda a comunidade nipo-brasileira que vem atuando com zelo e competência  em todos os setores da atividade humana, dando a sua contribuição para o desenvolvimento e fortalecimento da inteligência nacional. E fere, também, as regras da diplomacia ao dar um sentido pejorativo à origem étnica da jornalista ligada a um país que mantém relações de amizade com o Brasil.

Semelhante ofensa foi perpetrada por um presidente norte-americano contra o Senador Daniel Inouye, um herói da Segunda Guerra que foi chamado de o “japonês” durante uma conversa informal do Senhor presidente que não atentou para o fato de o microfone estar ligado. O Senador Inouye foi à tribuna do Senado e condenou com veemência a fala do presidente americano.  Posteriormente houve pedido de desculpas por parte do Senhor presidente da República.

A única diferença é que lá a ofensa resultou de um descuido; aqui a ofensa foi perpetrada conscientemente e dirigido ao público em geral. Se foi uma imitação do exemplo norte-americano ela ficou pela metade!

*Tópico destacado da coluna semanal “Em poucas palavras” veiculada na mídia.

**Kiyoshi Harada é jurista e professor

 

‘Dessa japonesa, que não sei o que faz no Brasil’

*André Kondo

Querido presidente, gostaria de explicar o que essa japonesa e mais de dois milhões de japoneses estão fazendo no Brasil. Estão sendo brasileiros. Estão trabalhando para a construção de uma sociedade multiculturalmente unida, mas que, vez ou outra, é contestada. Sabe de uma coisa que eu amo no Brasil? O rosto desse país. O brasileiro tem o rosto do mundo, de todos os povos. Então, essa japonesa só está sendo mais um rosto brasileiro, como o de todos os que vieram para cá de outras nações, de outros continentes, sejam da Ásia, da África, da Oceania, da Europa ou de outras partes das Américas. Incluindo, claro, quem já vivia aqui muito antes de todos, as grandes nações indígenas. Eu os vi na Amazônia, sorridentes, acenando das margens do Rio Madeira, do Rio Amazonas, das margens… da nossa sociedade. Seguindo o seu questionamento, não deveriam eles perguntar o que estamos fazendo aqui, ao invés de sorrir e acenar para um barco “estrangeiro” navegando em seus rios?

Muitos dizem, ora, por que o “mimimi”? A mulher não é japonesa, afinal? Sim, ela é japonesa. Eu sou japonês. E são japoneses todos os que admiram o Japão. Não é uma questão de ter olhos puxados. Eu também admiro o Brasil. Nasci no Brasil e, assim como aquela japonesa, sou brasileiro também.

Não foi essa a parte que me entristeceu em sua fala. Tenho certeza de que, para muitos, assim como eu, ser chamado de japonês é um enorme elogio. A ofensa está na segunda parte, no questionamento de um direito de ser brasileiro como qualquer outro, de amar esse país como a maioria de nós ama.

Viajei por mais de 60 países. Quando me viam como japonês, todos teciam muitos elogios sobre o Japão. No princípio, hesitava em dizer que era brasileiro, temendo ouvir críticas. Quando tomei coragem e disse: “sou brasileiro”, a reação foi a melhor que um ser humano pode ter diante de outro: um sorriso. Falaram bastante de futebol, de carnaval, mas tudo isso e outras coisas eram acompanhadas pela palavra: alegria.

Sabe, em meu livro para crianças, “O pequeno samurai”, escrevi sobre um menino que imigrou do Japão ao Brasil, e que, ao chegar aqui, descobriu que todos os sorrisos são iguais.

Então, gostaria de compartilhar um pequeno trecho desse livro, que representa, para mim, a beleza do que é poder viver em um país em que todos os povos podem se tornar um: brasileiro.

 

Diante do templo havia um belo jardim. Eu disse ao vovô que aquele jardim era muito mais bonito do que o do papai. Vovô me fez uma pergunta estranha:

– Qual é a coisa mais bonita deste jardim?

Na verdade, a pergunta não seria tão estranha não fosse o jeito misterioso do vovô quando perguntou. Olhei para cada detalhe do jardim com muita atenção. Era difícil escolher apenas uma coisa no meio de tantas coisas bonitas.

O jardim tinha uma cascata linda, a água corria sobre uma pedra lisinha, caindo devagarzinho sobre um pequeno lago. Ao lado da cascata tinha um pinheirinho podado com muito cuidado, que ficava perfeito ao lado da cascata. Era realmente difícil escolher, mas respondi:

– A cascata, vovô. A cascata é a coisa mais bonita deste jardim.

– Por que você escolheu a cascata, Yuji-chan?

– Não sei explicar, vovô… Acho que é por causa da forma como a água cai. Parece seda líquida!

– Então, não seria a água a coisa mais bonita do jardim? Se não houvesse água, não haveria cascata.

Era verdade. Como vovô era esperto.

– Então é a água, vovô.

– Mas se não existisse a pedra por onde a água está correndo…

Às vezes, vovô era muito misterioso…

– Vovô, então eu não sei. A pergunta ficou muito difícil. Qual é a coisa mais bonita deste jardim? – perguntei.

Vovô sorriu e respondeu:

– A coisa mais bonita deste jardim é o próprio jardim. Yuji-chan, quando você compara uma coisa com outra, dizendo que uma é melhor que a outra, acaba não admirando o todo, deixando de aproveitar tudo o que poderia. Cada coisa é bonita e importante por si mesma, mas apenas quando se junta a outra é que a beleza se torna incomparável.

Olhei para o jardim e vi que era verdade. Eram todas as coisas juntas que faziam aquele jardim tão bonito. O engraçado é que depois que deixei de comparar as coisas, tudo ficou mais bonito: cada árvore, cada pedra, cada passarinho, cada coisa era mesmo especial, e quando tudo isso se juntava, tornava-se perfeito! Vovô era esperto mesmo!

Quando chegamos ao alto do monte, vovô e eu tínhamos a impressão de poder ver todo o Japão. Era muito bonito ver tudo lá de cima: montanhas, cidades, lagos… Havia o mar que parecia não ter fim. Realmente, o mundo era muito grande.

Vovô me pediu que abrisse os braços, e eu abri. Olhei para o Japão lá embaixo. Minha terra era muito bonita!

– Agora, Yuji-chan… você pode abraçar o Japão.

– Espera um pouquinho, vovô – eu disse, abrindo ainda mais os braços.

– O que está fazendo? – vovô perguntou.

– Estou abrindo mais os braços, para abraçar o mundo também…

(O Pequeno Samurai, André Kondo, FTD, trecho do capítulo 3)

 Sobre a foto: Estádio de Yokohama, final da Copa de 2002.

 

*André Kondo é escritor

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