Nikkeis do continente americano fazem estágio na província de Fukushima

Os dois participantes do programa, Levi Sato (esquerda) e Agata Sayuri Murakami (segunda à direita), com membros da Associação Fukushima Kenjin do Brasil
Os dois participantes do programa, Levi Sato (esquerda) e Agata Sayuri Murakami (segunda à direita), com membros da Associação Fukushima Kenjin do Brasil

Ideia é fazer com que os participantes se tornem ponte entre a província e seus países de origem e divulguem informações sobre a reconstrução de Fukushima

 

Comemoração do centenário de fundação da Associação Fukushima Kenjin do Brasil, em 2017
Comemoração do centenário de fundação da Associação Fukushima Kenjin do Brasil, em 2017

Entre 22 e 31 de janeiro, a prefeitura provincial de Fukushima realizará, conjuntamente, dois projetos com a participação de seis nikkeis da América Latina e três da América do Norte, todos membros de associações da província: o “Estágio para Nikkeis da América Latina” e o “Estágio para Nikkeis da América do Norte”.

Durante o estágio, está prevista a realização do “Projeto para Promoção de Cooperação entre as Comunidades Nikkeis da América Latina e Governos Locais”, a cargo do Ministério de Assuntos Internos e Comunicações do Japão. Dois membros do grupo seinenbu da Associação Fukushima Kenjin do Brasil visitarão o Japão e a expectativa é de que, futuramente, se tornem a ponte entre a província de Fukushima e o Brasil.
O estágio é realizado todos os anos pela província de Fukushima, com o objetivo de educar descendentes que possam contribuir para as boas relações e o desenvolvimento entre seus países de origem e a província, e para que compreendam a cultura e a história da província natal de seus antepassados, por meio do intercâmbio com moradores locais e de excursões.
Os países participantes do programa na América Latina são: Brasil, Argentina, Peru, República Dominicana, Bolívia, Paraguai e México. Da América do Norte, são: Estados Unidos e Canadá.
Desta vez, os dois participantes brasileiros que visitarão o Japão serão Levi Sato (32 anos, sansei) e Agata Sayuri Murakami (22 anos, gosei). Será a primeira vez que visitarão a província natal de seus antepassados.
O grupo chegará ao Japão no dia 22. No dia seguinte, após visita ao Museu da Migração Japonesa ao Exterior da Jica (Japan International Cooperation Agency) e ao Palácio Imperial, seguirão para Fukushima. Estão previstas atividades como contato com moradores locais por meio de homestay, visita a prefeitura provincial, a atrações naturais e culturais, estudo do projeto de reconstrução e revitalização de Fukushima, entre outras.

“Queria conhecer minhas raízes”
_ Levi Sato

“Ouvi do meu pai a história da família e me tornei membro da associação porque queria conhecer minhas raízes”. Levi Sato tornou-se membro da Associação Fukushima Kenjin do Brasil no ano passado. Dedicou-se com empenho às atividades da entidade e, neste ano, tornou-se líder do grupo seinenbu.
Na época, ele conhecia pouco sobre a província de Fukushima: “Eu e todos os que conheço tinham essa imagem forte da tragédia [do terremoto]”. Ele disse que quer experienciar atrativos da província por meio da cultura e locais turísticos, assim como a culinária local, a música e a dança.
Levi também quer conhecer a história de seus antepassados. Ouviu do pai sobre parentes que ainda moram no Japão e revelou: “Se tiver a oportunidade, gostaria de conhecê-los”.
Um dos desafios da entidade é a redução de associados. O grupo seinenbu conta com cerca de 30 pessoas. Por isso, nos últimos anos a associação passou a aceitar a inscrição de não-descendentes e descendentes de outras províncias do Japão.
Para atrair mais associados, Sato fala de seus planos: “Quero promover mais eventos voltados para os jovens. Se por meio do estágio eu tiver ideias para revitalizar a associação, quero colocá-las em prática”.

“Quero aprender vários pratos típicos”
_ Agata Sayuri Murakami

Agata Sayuri Murakami é de uma família antiga local: “Meu trisavô imigrou no Kasato Maru”. A avó, o pai e a tia participam das atividades da associação e a própria Agata começou a participar aos dez anos, na filial de Guarulhos.
“Nunca fui ao Japão e não consigo nem imaginar como é a paisagem em Fukushima. Por isso, estou ansiosa para conhecer”, disse, com expectativa. Ela quer conhecer os supermercados e as lojas de conveniência que viu em novelas japonesas.
Agata tem interesse principalmente pela culinária e participa com frequência dessas atividades na associação. Dos pratos típicos de Fukushima, ela conhece apenas o Kitakata Lámen, mas afirmou, sorridente: “Gostaria de introduzir outros pratos da província, se aprender como preparar”.
Seu interesse não se limita apenas à culinária da província, mas pela culinária japonesa em geral: “Vou experimentar o café da manhã e o lámen de outras regiões, para criar novas receitas, assim como aqueles que participaram do estágio antes de mim”, revelou.
Agata também tem grande interesse pela área que estuda, a Veterinária: “Gostaria de conhecer mais sobre produtos e serviços relacionados a saúde dos animais de estimação, para que sejam úteis em minha profissão”, diz, contando sobre sua expectativa quanto ao estágio.

reconstrução e a revitalização
Estagiários vão conhecer situação atual da província de Fukushima

Na edição deste estágio, os participantes vão conhecer a situação atual de Fukushima, que está se recuperando aos poucos do Grande Terremoto do Leste do Japão, para que divulguem informações em seus países de origem.
Fukushima localiza-se ao sul da região de Tohoku e possui a terceira maior área do país, atrás de Hokkaido e Iwate.
Com magnitude 9.0, o Grande Terremoto do Leste do Japão que atingiu o país em 11 de março de 2011 causou danos devastadores e, até dezembro de 2019, contabilizou 4.109 mortos, incluindo o tsunami. Até o momento, 42 mil pessoas ainda continuam desabrigadas.
O tsunami causou um acidente nuclear que liberou grandes quantidades de material radioativo, quando houve o derretimento dos reatores da usina Fukushima Daiichi da Tepco.
Visando a recuperação ambiental, a província de Fukushima implementou um programa de descontaminação para reduzir a radiação. Como resultado, a quantidade de material radioativo no ar da cidade de Fukushima após o terremoto, que era de cerca de 2.74 µSv (microsieverts, em abril de 2011), foi reduzida drasticamente para 0.13 µSv (em dezembro de 2019).
Além da realização de exames de saúde entre a população, auxílio para instalações de moradia, recuperação da infraestrutura, promoção da indústria, entre outras medidas, o governo provincial está enfatizando a divulgação de informações sobre a reconstrução da província tanto nacional quanto internacionalmente, visando a recuperação do turismo na região.

 

A história da Associação Fukushima Kenjin do Brasil
Troca de gerações enquanto mantém a tradição

Associados e estagiários conversam sobre o projeto deste ano
Associados e estagiários conversam sobre o projeto deste ano

Em 1908, 77 pessoas da província de Fukushima imigraram para o Brasil no navio Kasato Maru. Nove anos depois, em 25 de outubro de 1917, a Associação Fukushima Kenjin do Brasil seria fundada pelo primeiro presidente, Takashi Watanabe e alguns compatriotas. No início, o objetivo era promover a confraternização e auxiliar os associados, procurando por emprego e dando suporte.
O busto de Hideo Noguchi, o “grande herói local” que esteve em Campinas antes da guerra para o tratamento da febre amarela, foi instalado em 1967, na comemoração aos 50 anos de fundação da associação. No mesmo ano, foi adquirido o escritório da associação e, em 1986, a sede foi finalizada, com auxílio da prefeitura provincial.
Atualmente, estão em atividade a sede e quatro filiais, contabilizando cerca de 200 associados. A partir do ano passado, ex-bolsistas provinciais e ex-estagiários assumiram cargos administrativos, a começar pela presidente, Marina Yumi Imai. A troca de geração também avança, com o grupo seinenbu organizando e colaborando ativamente em eventos.
Para proteger as raízes – A
associação atual, que tem
como núcleo a geração nissei, trabalha para manter as raízes dos provincianos de Fukushima. A presidente Imai disse: “Estamos mudando o foco de nossas atividades. Antes o local reunia pessoas que nasceram em Fukushima, mas agora estamos trabalhando para divulgar a cultura da província”.
Tendo como principais atividades promover a confraternização entre os associados e a divulgação de sua cultura, nos últimos anos tem havido eventos para apresentar a culinária local, como o Kitakata Lámen Matsuri, além de bazares beneficentes e atividades com jogos de tabuleiro promovidas pelo seinenbu.
Todos os anos, em julho, a associação participa do Festival do Japão, o maior evento de cultura japonesa no mundo. No ano passado, a entidade comercializou três mil porções de Kitakata Lámen.
A entidade também participa de atividades de cooperação com outras associações provinciais que possuem um número reduzido de membros. Em novembro do ano passado, organizaram a “Feira de Gastronomia e Artesanato” com a participação das associações provinciais de Tóquio, Gunma, Fukushima e Shiga. Todos os anos, a entidade também participa do “Undokai do grupo Tohoku-Hokkaido”, organizado pelas associações de Hokkaido e das seis províncias da região de Tohoku (Aomori, Iwate, Miyagi, Akita, Yamagata e Fukushima).
Ainda, a entidade participa de eventos em filiais próximas da cidade de São Paulo e planeja interagir ativamente com associados de outras localidades.
Como parte das comemorações do centenário de fundação da associação, o seinenbu produziu e vendeu chaveiros, ecobags de Akabeko e camisetas, participando ativamente de novos projetos.
Projetos de intercâmbio com a
província natal – O sistema de
bolsas provinciais de Fukushima teve início em 1965. Este projeto visa o intercâmbio de descendentes de provincianos de Fukushima para que contribuam para a economia, educação, relações internacionais e trocas culturais.
Após o Grande Terremoto do Leste do Japão, a bolsa foi interrompida por três anos, sendo retomada em 2014. A província de Fukushima recebeu até então 203 intercambistas.
O Estágio para Nikkeis da América Latina é realizado todos os anos e visa formar pessoas para que se tornem a ponte entre a província e seus países de origem. No passado, também já foi realizado treinamento técnico.
Em 2017, o governador provincial Masao Uchibori e uma delegação de 18 pessoas vieram ao Brasil para a cerimônia de centenário da fundação da Associação Fukushima Kenjin do Brasil. O intercâmbio entre província e entidade continua até hoje.

Presidentes da Associação Fukushima Kenjin do Brasil

1º presidente Takashi Watanabe
2º presidente Kiyomi Murai
3º presidente Moriji Anze
4º presidente Shigeo Ishikawa
5º presidente Hiroji Yamamoto
6º presidente Masataka Yoshida
7º presidente Asamitsu Kusano
8º presidente Kesaji Mogi
9º presidente Kichishiro Endo
10º presidente Jamil Akio Ono
11º presidente Toshihisa Hasunuma
12º presidente Ryuzo Watanabe
13º presidente Yoshio Ooyama
14º presidente Hitoshi Sakurai
15º presidente Tomoshiro Kojima
16º presidente Hachiro Nagayama
17º presidente Marina Yumi Imai

Nova presidente nissei Cheia de motivação

Assumindo o cargo de presidente no ano passado, Marina Yumi Imai (45 anos, nissei) era líder do seinenbu desde 2007

Nessa época, ela pensou em fazer o estágio e trazer o encanto da província para os jovens do grupo, participando do Estágio para Nikkeis da América Latina em 2014. Ela relata a impressão da época: “Vi o local reconstruído em apenas três anos e achei incrível. Fiquei impressionada com o auxílio que a prefeitura provincial presta a seus moradores”.
Em 2017, ela foi ao Japão para participar da 3ª Reunião de Kenjinkais do Exterior. Conheceu associações provinciais de outros países e mantém contato até hoje.
Baseando-se em sua experiência até então, ela estuda organizar palestras sobre a reconstrução de Fukushima. Também planeja um evento com o diretor Futoshi Sato, que produziu o documentário “FUKUSHIMA”, sobre o Grande Terremoto do Leste do Japão e que foi exibido no Brasil no ano passado.


A Associação Fukushima Kenjin do Brasil recebe inscrições para novos associados, mesmo que não seja descendente de um provinciano, mas tenha interesse em saber mais sobre a província de Fukushima. Para mais informações: o telefone da Associação Fukushima Kenjin do Brasil é (11) 3208-8499 e o e-mail: fukushima_kenjin_brsp@yahoo.co.jp

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