Neta de Unpei Hirano sonha conhecer a terra de seu avô

Janaína mostra a certidão de nascimento de José Shimba (Aldo Shiguti)

A trajetória de Unpei Hirano no Brasil acaba de ganhar mais um capítulo. Janaína Shimba, neta do fundador da Colônia Hirano, em Cafelândia, quer tornar pública suas origens com o sonho de conhecer a terra natal de seu avô, que nasceu na província de Shizuoka. “Hoje me arrependo muito de não ter contado essa história antes”, diz Janaína, filha de José Shimba – único filho de Unpei Hirano e Isano Nakagawa – e dona Ceres Leitão da Silva (segunda esposa de José Shimba), com quem teve outras duas filhas, Jurema e Jaqueline Shimba. Da primeira união, com Izilda de Queiroz, nasceu Rejane Shimba, portanto, mais velha que Janaína.
Uma história que ela conhece apenas de livros, como “A Mata das Ilusões”, de Masao Daigo, e do pouco que seus pais lhe contaram antes de falecerem – José Shimba faleceu em 16 de fevereiro de 1987 e dona Ceres em 9 de setembro de 2007.

Árvore genealógica da família Unpei Hirano (reprodução)

Segundo ela, que também entrou em contato com o ex-presidente da Associação Cultural, Agrícola e Esportiva Hirano de Cafelândia, Fabio Yamashita, já no bairro da Liberdade, onde nasceu e morou por um bom tempo – a mãe tinha um salão de beleza na Rua Condessa de São Joaquim – o pai, tímido e receoso de assumir “alguma dívida” deixada por Hirano, não costumava alardear em público que era filho de um dos 5 intérpretes enviados ao Brasil para trabalhar no serviço de preparação para admissão dos primeiros imigrantes japoneses.
A mãe, sem ascendência japonesa, ainda chegou a levá-la para ver o busto do avô famoso que ficava na Praça Unpei Hirano, no Cambuci (zona Sul de São Paulo) e que por duas vezes teve o monumento subtraído.
Foi uma tia, Satiko, que contou-lhe a história. Até então, ela explica sabia quem tinha sido o avô, mas não tinha noção de sua importância para a história da imigração japonesa. E também lembra bem pouco das conversas que tinha com a avó, dona Isano, que quase não falava português.
Agora, explica, quer preservar a história para as novas gerações da família. Uma história que ela considera triste pelo sofrimento dos colonos, mas que deve ser passada para a frente. “Meu avô foi um grande líder e, apesar de todos os problemas e de ter morrido cedo – com apenas 34 anos de idade – conseguiu alcançar seu objetivo”, diz Janaína, que, espírita, teve um “estalo” de contar sua verdadeira história numa das conversas que teve com seu falecido pai.
“Perguntava por que está tão dificil obter o visto para ir ao Japão e fui aconselhada a não omitir informações”, explica Janaina, lembrando que não obteve sucesso nas duas vezes que deu entrada no visto – a primeira foi em 2018, no ano que a comunidade celebrou os 110 Anos da Imigração Japonesa no Brasil.

Cafelândia – Além de conseguir tirar o visto, para Janaína ser reconhecida como neta de Unpei Hirano deve ter também outros significados, como nos eventos dedicados a Unpei Hirano, que nunca teve participação de nenhum parente, apesar dos esforços da Associação Cultural Agrícola e Esportiva de Hirano de Cafelândia. Uma das prioridades tão logo passe a pandemia, será dar entrada no visto pela terceira vez. “Agora, sem omitir informações”, diz Janaína, que é casada com o professor de karatê Djair e mora atualmente na zona Norte de São Paulo. A outra será visitar a Colônia Hirano pela primeira vez.

Em 2018, princesa Mako depositou flores no monumento em homenagem aos pioneiros da Colônia Hirano

Em 2018, princesa Mako visitou o cemitério da Colônia Hirano (arquivo)

Fundada por Unpei Hirano, a Colônia Hirano, localizada em Cafelândia (SP), realizou, em 2019, Cerimônia Memorial aos 100 Anos de Falecimento de Unpei Hirano. Na ocasião, o evento contou com a participação do cônsul geral do Japão em São Paulo, Yasushi Noguchi, que retorna para o Japão no próximo dia 28.
Em 2018, como parte das comemorações dos 110 Anos da Imigração Japonesa no Brasil, Sua Alteza Imperial, a princesa Mako depositou flores no monumento erigido aos pioneiros colonizadores da Colônia Hirano.
Segundo o ex-presidente da Associação Cultural, Agrícola e Esportiva Hirano de Cafelândia, Fábio Yamashita, no aniversário de 80 anos da Colônia Hirano, em 1995, um dos membros da colônia fez contato com a família de Hikohei – irmão de Unpei Hirano, que, com a morte de Unpei, em 1919, registrou José Shimba como se fosse seu filho – para que participasse das festividades. Infelizmente, sem sucesso.
Em 2015 o próprio Fabio Yamashita chegou a manter contato com um primo de Janaina, mas novamente não teve sucesso. “Montei uma página no Facebook da Associação Hirano com o objetivo de compartilhar e ao mesmo tempo divulgar a história da nossa Colônia – resgatar alguns contatos perdidos de moradores antigos era outro objetivo” conta Fábio, lembrando que foi através desta página do Face que a Janaina entrou em contato por e-mail com a associação. “Foi uma grata surpresa”, explicou Yamashita, que contou um pouco sobre a história de Unpei Hirano.
Filho de Kenzo e Naka Shinba, Unpei Shimba já jovem adulto foi empossado (adotado) por uma tia de Tenryu, Shizuoka, passando a assinar Unpei Hirano.
Na Fazenda Guatapará, conheceu a jovem Isano Nakagawa de 17 anos de idade que havia chegado no 2º navio de imigrantes em 1910 (Ryojun Maru) e que também foi encaminhada com a família à Guatapará.
Apesar de não terem oficializado o casamento, viveram juntos e em 1917 (já na Colônia Hirano) tiveram o único filho que deram o nome de José.
Com a morte de Unpei em 1919, seu irmão Hikohei Shinba que também estava na colônia, acolheu a viúva e sobrinho a pedido de Unpei.
Hikohei acabou se casando com Isano e adotou o sobrinho, registrando-o com seu nome. Pelo registro de nascimento de José Shimba o registro foi feito em 16 de março de 1931 em Varpa-SP – região de Tupã – com a data de nascimento em 29 de abril de 1918.

Certidões de nascimento e de casamento de José Shimba

Unpei foi presidente da Associação Nihonjinkai desde a fundação da associação em 1917 até 1918, com a sua morte, Hikohei assumiu a presidência em 1919. Em 1922 foi novamente eleito presidente, e, segundo Fábio Yamashita, foi o último registro que consta seu nome.

Trágico Pioneiro Líder Unpei Hirano

Em 18 de junho de 1908, um grupo de japoneses já aguardava no cais de Santos a chegada do Kasato Maru, com 781 imigrantes a bordo. O grupo havia chegado antecipadamente para preparar a entrada dessa primeira leva de imigrantes. Eram 5 jovens, todos eles recém-formados em universidades japonesas, e se fariam conhecidos posteriormente como o “grupo dos 5 intérpretes”. Entre eles, se achava Unpei Hirano, que mais tarde, viria a ser o “pioneiro da colonização”.
Unpei nasceu em 1888 na Província de Shizuoka, de uma família de samurais. Segundo filho de Kenkichi Shinba e Naka, foi adotado pela família Hirano. Formou-se na Escola Secundária de Kakegawa (atual Colégio Kakegawa Oeste), estudou espanhol na Universidade de Línguas Estrangeiras de Tóquio, e recebeu aulas de português em curso intensivo nessa mesma universidade quando a sua vinda ao Brasil foi confirmada, uma vez que o curso regular de português só foi criado em 1916.
Aos 22 anos de idade, o jovem Unpei foi admitido pela Companhia Colonizadora Imperial para integrar o “grupo de 5 intérpretes” que a empresa procurava formar tendo em vista a primeira emigração japonesa, e partiu de Tóquio em 27 de março de 1908. Chegou a Santos em 3 de maio via Europa, pela ferrovia transiberiana. Esse percurso atravessava a metade do globo terrestre e só em si, já era uma viagem e tanto para a época, mas ele buscava o Brasil com a alma inflada de sonhos.
Unpei ingressou na Fazenda Guatapará conduzindo 62 famílias de imigrantes das províncias de Okayama, Kōchi e Yamaguchi, ao todo 232 pessoas. Das 6 fazendas para onde os imigrantes do Kasato Maru foram distribuídos, Guatapará, ao encargo de Unpei, foi a única onde não ocorreram distúrbios e fugas de imigrantes à noite. Nas demais fazendas, esses incidentes aconteceram porque “as condições encontradas diferiam daquelas prometidas no Japão”, levando desânimo aos contratantes, fazendeiros brasileiros que os receberam.
A Fazenda Guatapará apresentou o maior índice de fixação entre todas as fazendas. Depois de um ano, pelo menos 34 famílias ainda permaneciam na fazenda. Algumas delas lá continuaram por 7 anos. Esse desempenho, altamente apreciado, salvou por um triz a imigração japonesa, porque muito embora ela tenha sido iniciada por Ryō Mizuno, sua continuidade se deve à notável atuação de Unpei. Não seria exagero afirmar que sem Unpei, a imigração japonesa teria cessado há muito tempo.
(Texto extraído do livro Cultura Japonesa Volume 9, capitulo Trágico Pioneiro Líder Unpei Hirano, escrito por Masayuki Fukasawa, jornalista do Nikkey Shimbun)

Comentários
Loading...