MOVIMENTO ÁGUA NO FEIJÃO: ‘O nosso trabalho continua enquanto tivermos fôlego e gente com fome’, diz Telma Shiraishi

(Divulgação)

Formado por cerca de 50 voluntários de diversas entidades da comunidade nipo-brasileira – JCI Brasil-Japão, Comissão de   Jovens do Bunkyo, Aliança   Cultural Brasil-Japão, Abeuni (Aliança Beneficente   Universitária de São   Paulo), Asebex (Associação Brasileira   de Ex-Bolsistas no Japão), Abjica (Associação Brasileira   de Ex-Bolsistas Jica), KIF   Brazil (Koyamada International Foundation) – além da Japan House São Paulo –, sob liderança da chef Telma Shiraishi (Aizomê), o movimento Água no Feijão anunciou na primeira semana de junho a conclusão da primeira etapa do projeto, que previa a distribuição gratuita de 6 mil marmitas para os moradores da comunidade de Heliópolis, na zona Sul de São Paulo, onde vivem cerca de 200 mil habitantes – conforme levantamento da Unas (União de Núcleos, Associações dos Moradores de Heliópolis e Região).
Para Telma Shiraishi, “a primeira etapa foi muito positiva pois tivemos a oportunidade de conhecer a comunidade, estabelecer a confiança mútua e fazer a diferença para muitas pessoas de Heliópolis”.
À primeira vista, pode parecer uma tarefa simples. Mas acostumados ao descaso das autoridades –e agora com a agravante da Covid-19 –, as primeiras reações dos moradores foram de “surpresa” e “desconfiança”. “É triste quando você percebe quase uma descrença de que alguém pode se importar e querer fazer uma ação positiva, pois é reflexo de desilusão e desesperança, da vida dura que enfrentam nas comunidades marginalizadas”, explica Shiraishi, lembrando que, antes de dar o pontapé inicial, a equipe tinha muitas preocupações, “pois queríamos eleger para a primeira fase do projeto uma comunidade que realmente estivesse em necessidade e também nos certificar de que o alimento chegaria às pessoas que mais precisavam”.

Movimento é formado por cerca de 50 voluntários de entidades nikkeis e conta com apoio da comunidade (divulgação)

Mapeamento – Segundo a chef, os contatos iniciais foram estabelecido através dos voluntários Murilo Saito e Flávio Nakaoka com a direção da escola de samba Imperador do Ipiranga, que atua como ponto de distribuição, organização e mapeamento das pessoas e famílias em situação crítica.
“Isso foi primordial para conseguirmos fazer a distribuição de forma organizada e segura, tanto para os voluntários como para as pessoas que recebem as refeições”, conta Shiraishi, explicando que a distribuição de marmitas é feita através de senhas e os moradores ficam em filas espaçadas e seguras, com direito a álcool gel e máscaras para quem não tem.

Equipe – Para Telma Shiraishi – que em 2019 foi nomeada pelo Ministério da Agricultura, Silvicultura e Pesca do Japão, “Embaixadora da Boa Vontade da Difusão da Culinária Japonesa” –.
a meta inicial foi alcançada rapidamente. “Essa primeira fase do projeto foi fantástica, um grande aprendizado para todos. A nossa equipe é ótima, engajada e totalmente comprometida. Fomos até o coração da comunidade, estamos criando pontes e não vamos deixar as pessoas na mão. O nosso trabalho não terminou; ele continua enquanto tivermos fôlego e gente precisando de comida”, afirma Telma Shiraishi, que agradeceu também a parceria da Japan House São Paulo, que se aliou ao movimento cedendo gratuitamente a utilização das instalações do restaurante Aizomê dentro do centro cultural para a produção das refeições, incluindo a cobertura das despesas com água, luz e gás.
“O maior desafio nesse tipo de ação não é tanto a produção de alimentos, mas a logística”, explica, acrescentando que a ideia inicial era oferecer alimentação de maneira sustentável durante todo o período da quarentena.

Moradores de Heliópolis seguem orientações de distanciamento (divulgação)

Segunda fase – Agora, com a primeira fase concluída, o movimento parte para a segunda fase, que já está em andamento e prevê para os meses de junho e julho a distribuição de 12 mil marmitas e capacitação de cozinheiras locais na mesma comunidade da zona sul.
“A segunda fase, em primeiro lugar, é a garantia de que a comunidade que apoiamos agora não ficará na mão. Iniciamos a primeira fase no dia 8 de maio com a promessa de fornecer 200 refeições durante 30 dias ininterruptamente, de segunda a domingo, totalizando 6 mil marmitas entregues até o dia 6 de junho. Continuaremos a ação sem pausas para a segunda fase com uma meta de mais 60 dias de luta contra a insegurança alimentar nessa comunidade”, diz a chef, explicando que, além da distribuição de 12 mil marmitas em dois meses, a segunda fase do projeto terá um ingrediente a mais.
“A diferença agora é que pretendemos ativar a cozinha da escola de samba que é a base operacional e organizar cozinheiras e membros da comunidade nos serviços de apoio. O preparo das refeições localmente, com treinamentos de boas práticas, rotinas de produção e planejamento, noções de nutrição e seguindo os protocolos de segurança alimentar e de saúde proverá ferramentas e trará benefícios mais duradouros através da capacitação. A melhor analogia é a de que além de dar o peixe podemos ensinar a pescar e a preparar o peixe”, compara.

Surpresa – Para ela, “a maior boa surpresa que realmente nos ajuda a restaurar a fé nas pessoas e nas boas intenções, foi o apoio que o movimento recebeu. “Em um período de tantas dificuldades a adesão ao projeto foi muito rápida e eficiente, levando nosso movimento à pronta ação e com um nível excelente de arrecadação, organização e responsabilidade. O surpreendente é conseguir juntar tantas entidades e pessoas altamente capacitadas dividindo o trabalho administrativo e operacional de forma coordenada e remotamente. E foi muito gratificante conseguir atingir tantas pessoas – crianças, jovens e adultos, daqui e até do Japão, empresas e a imprensa, para apoiar e acompanhar nosso trabalho. Formamos uma incrível rede de solidariedade e de ajuda ao próximo e essa é a maior prova de que a união faz a força”, disse Shiraishi.

Telma Shiraishi: “Fazer a diferença” (divulgação)

Campanha – Para prosseguir com esse trabalho, ela explica que a campanha de doação continua. A meta de arrecadação é baseada no custo total de cada marmita, estimado em R$ 8,00 (oito reais) por unidade, levando em conta o pagamento de serviços, embalagens e insumos.
“Sabemos que cada vez mais o desafio de arrecadar o suficiente em recursos e doações será maior. A crise infelizmente vai se aprofundar e demorará para que nos recuperemos. A situação da população nas comunidades carentes e das periferias já era crítica antes da pandemia, mas tudo ficou mais trágico, desesperador e sem perspectivas a longo prazo”, afirma Telma, lembrando que a intenção é ampliar o projeto para outras comuinidades.
“Temos outras comunidades que foram mapeadas, além de outras entidades beneficentes e assistenciais que precisamos apoiar, pois estão passando por muitas dificuldades”, destaca a chef.

Corrente Solidária – Para ela, se o início era um desafio, agora a responsabilidade é grande, “pois sentimos a grande responsabilidade que é estender a mão e não largar enquanto for necessário”. “Tentamos colocar metas realistas e depois de ver a realização da primeira fase, com um mês garantido, estamos agora na busca de mais dois meses com recursos para seguirmos todos juntos e de mãos dadas”, esclarece a chef, acrescentando que o movimento também está apoiando a campanha “Corrente Solidária” da Abeuni (Aliança Beneficente Universitária), que arrecadará alimentos e itens de primeira necessidade para a comunidade ao redor do CEU Caminho do Mar.
Alimentos doados, conta Telma, também serão destinados aos moradores de rua, uma população vulnerável que cresce em número e em desespero à medida que a crise se aprofunda.

Doações – As doações para o Movimento Água no Feijão podem ser feitas pelo site www.aguanofeijao.org.br, através do PayPal, boleto bancário ou depósito bancário. Para doação de insumos, embalagens ou outros materiais, entre em contato conosco pelo email contato@aguanofeijao.org.br.
Para saber mais sobre o trabalho do Movimento Água no Feijão, acesse: www.aguanofeijao.org.br

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