Mesa-redonda com refugiados e imigrantes de São Paulo – Parte 4

– A partir da pergunta do Senhor Jean: “Qual é a cultura de recepção dos japoneses?”, vou falar como eu penso.
No pensamento tradicional dos japoneses, há uma crença de que “Deus mora em todas as coisas”. Devido a esse modo de conceber as coisas, os japoneses recebem qualquer povo ou religião e valorizam as pessoas ou objetos que receberam uma vez.
Entretanto, os japoneses gostam de deixar tudo no estilo japonês. Isso ocorre em silêncio. Não usam a violência e não forçam, mas é uma sociedade que deixa difícil viver sem o estilo japonês. É bastante peculiar. Provavelmente, as pessoas que vêm de outros países sofrem muito até se acostumarem. Por exemplo, é uma sociedade rígida que, se faltar com a pontualidade e não cumprir suas palavras não será aceito e vai perdendo credibilidade.
No Japão, a religião também é livre. Porém, é necessário ser, por exemplo, cristão ou budista seguindo o estilo japonês. Ou seja, é exigido viver o cotidiano com o estilo japonês. A expressão “recepção” pode ser mais adequado substituindo-se por “assimilação”.
O estilo japonês pode ser expressado assim também: “respeito através da harmonia”. Os japoneses acham que, em primeiro lugar, deve-se pensar no bem estar da situação do grupo. É necessário viver pensando no grupo do que na vida pessoal. Quem não respeitar as regras do grupo é expulso. Às vezes, isso se expressa de forma cruel
Os japoneses também recebem estrangeiros, mas antes de receber refugiados e imigrantes, não se sabe como a pessoa é. Então, os japoneses tomam muito cuidado com pessoas que vêm de fora. Porém, se perceberem que essa pessoa respeita as regras do Japão, vão valorizá-la e respeitá-la. Por exemplo, o malinês Oussouby Sacko tornou-se diretor de uma escola particular do Japão em 2018. Havia um guineano que esteve ativo no canal de TV por muito tempo e era bastante popular também.

Santuário, um dos representantes da cultura japonesa (Santuário Watatsumi, cidade de Tsushima, província do Nagasaki)

Abdul – O que entendi da explicação da Senhora Tomoko foi que Japão é conservador, fechado e possui muitas regras. Por isso, não é fácil a integração para as pessoas que vieram do exterior. Qualquer um do Japão vive respeitando o costume e o modo de vida da sociedade japonesa. É uma sociedade sistemática e não aceita pessoas que não respeitam as regras e faltam com a responsabilidade. Além disso, não acreditam facilmente nas pessoas só analisando a aparência ou a fala e a postura. Entendo como uma regra que vai além da lei. E quando ir contra essa regra, a pessoa perde a credibilidade na sociedade.
Porém, essa postura não é muito generosa e é preciso viver na sociedade japonesa como se andássemos em cima do ovo. É errado exigir a perfeição japonesa desde o começo.
Para entender as coisas, leva-se tempo. Cada um de nós temos as próprias culturas, costumes, línguas e país de origem. É necessário tempo para a integração de imigrantes concretizar-se. É necessário generosidade e empatia. Os japoneses não devem ser muito rígidos em relação aos refugiados e imigrantes. Tem que dar tempo até eles se acostumarem com os costumes do novo local. Depois de passar certo tempo, os japoneses deveriam pensar se querem ou não continuar com a relação. Não é necessário rejeitar o vizinho. Não existem pessoas que são perfeitas. Nós somos diferentes, mas não somos desiguais.
Quando um japonês vai para uma sociedade diferente, as pessoas respeitam ele comendo com rashi, sua religião e a pessoa quieta que ele é. Os japoneses não falam muito se as pessoas ao redor não iniciam a comunicação. Talvéz, se a relação ficar mais estreita, eles podem abrir o coração. Eu respeito a postura da comunidade japonesa.
Eu acredito que devemos respeitar o modo de vida e o costume do país que estamos. Por exemplo, não posso mudar a cultura dos brasileiros para terem cultura árabe. Eu que preciso tornar-me brasileiro. Afinal, foi o Brasil que me recebeu.
Não é fácil ver um japonês sorrir. O japonês sempre olha com olhos muito sérios. É difícil construir uma relação de amizade, mesmo que ele esteja no exterior. A sociedade japonesa preserva sua tradição dentro da sua comunidade. É quieto, dedicado, estudioso e passam uma vida simples. Respeitam as leis e as regras e constroem as suas vidas, assim como as formigas constroem suas casas sem barulho e sem problemas.

Membros que participaram do “Sarau dos Imigrantes”, apresentação que envolve várias nacionalidades, planejado pelo Senhor Abdul, em novembro de 2019.

Carlos – Compreendi um pouco sobre como é a cultura japonesa. É óbvio, mas há uma grande diferença, se comparado com a cultura ocidental. Para nós, pode ser uma cultura com várias regras e restrições. Muitas coisas tem de acontecer dentro da forma, mas isso faz parte da cultura e tradição do país.
A cultura ocidental também deve ter regras a que para os japoneses não estão acostumados. Porém, assim como os japoneses se acostumam com a Europa e os EUA, conforme o passar do tempo, acho que as pessoas de culturas diferentes também conseguem se acostumar com o Japão.

Carlos preparando doce venezuelano junto com a sua companheira na sua casa durante o feriado

– Comparando Brasil com o país de origem dos Senhores, quando a situação estava boa, o que sentem de bom e ruim?
Carlos – Se comparar o Brasil e Venezuela, falando sobre política e sociedade, é quase a mesma estrutura. Uma das coisas que percebi no Brasil é que, infelizmente, os brasileiros reclamam muito. Muitos ainda não compreenderam o valor que o Brasil tem. Já encontrei um brasileiro que disse para mim: “Por que escolheu o Brasil, o pior país do mundo, onde os próprios brasileiros têm vergonha de revelar sua identidade?” Fiquei chocado com a pergunta dele, porque o Brasil é um país maravilhoso. Podemos não estar na Suíça, mas há boas condições e coisas que não são encontradas na Venezuela e precisamos pensar que é um país muito rico. Então, esse brasileiro desvaloriza exageradamente seu país e acho que reclama muito também. Acho que reclamar é bom para defender direitos e deveres, mas acho que está exagerado.
Se voltar para Venezuela, preciso esperar 5 horas até entrar no supermercado. Fico na fila, coloco o número no braço e obtenho o produto. Por isso, o que mais me marcou foi que o brasileiro não valoriza seu país. Os brasieliros tem vergonha, mas não deveriam ter. Muitos países da América Latina não tem o que o Brasil possui: pessoas, petróleo e economia. Brasil é um país rico, mas, infelizmente, as pessoas não sabem dar valor a o que têm em mãos. Hoje, parece que tem muitos brasileiros que não conseguem dar valor às coisas.

Senhor Carlos e sua companheira, Senhora Marifel

Abdul – Para começar, a democracia. Aqui no Brasil é possível opinar. Posso apresentar minha opinião política. No Brasil, o mercado é mais aberto. O mercado é livre. Em relação à riqueza do país, não são todos os setores que são dominados completamente pelo governo. Então, aqui no Brasil, quem luta cresce ilimitadamente.
A parte negativa do Brasil é que existe uma guerra não declarada nem registrada. Por exemplo, os dados numéricos da quantidade de pessoas que morrem no Brasil é significante, mesmo se comparado com as guerras de outros países. Os números de mortes são causados devido a violência, assalto e muitos outros motivos. Vejo que tem uma guerra não declarada aqui. Não é um país totalmente seguro. Aqui, só Deus. Se não somos protegidos por anjos e Deus, esta sociedade é muito perigosa e morreríamos. Não existia esse tipo de ataque na Síria, porque os policiais são rígidos. Também existem pessoas que morrem de frio e por fome no Brasil. Não é devido ao coronavírus. Nunca vi isso na Síria. Mesmo sem paz, não existia morte por frio, fome e morador de rua na Síria.
Claro, também sinto o lado positivo do Brasil. Brasil é exemplo de país constituído pela sua diversidade de cultura. A natureza, as pessoas e os animais são ricos em diversidade. É um país muito rico.
Hoje, se a Senhora Tomoko não falásse português com sotaque japonês, ninguém perceberia que ela veio do Japão. Pensaria que ela é uma pessoa de descendência japonesa nascida no Brasil. Como ela tem sotaque, as pessoas do Brasil percebem que ela veio do exterior. O filho dela fala português perfeitamente. No Brasil, ele será chamado de brasileiro. Ele não é um japonês, mas é um brasileiro. Se eu falar com sotaque árabe, falam que eu não sou brasileiro. É assim que percebem que vim do exterior. Essa é a beleza do Brasil. Se eu não falasse, não perceberiam que não sou um brasileiro. Se eu estivésse na Alemanha, as pessoas diriam: “Esse baixinho e barbudo não é daqui”. Não tenho olhos azuis e não sou loiro. Aqui está a beleza do Brasil. A beleza é sua diversidade e riqueza, entre outras. É um país muito amável. As pessoas do Brasil recebem bem as pessoas e é fácil relacionar-se com as pessoas. É difícil ter uma relação aberta com japoneses, as pessoas do continente europeu e de outras sociedades, mas é fácil criar amizades com as pessoas do Brasil.

Senhor Abdul realizando o projeto da ONG, de distribuição da cesta básica
Evento de apresentações de pessoas de várias nacionalidades que Senhor Abdul organizou

– Comparando Brasil com o país de origem dos Senhores, quando a situação estava boa, o que sentem de bom e ruim?
Jean – A diferença entre minha terra natal e Brasil é, como já disse Abdul, a democracia. A República Democrática do Congo tem a democracia no nome do país, mas não tem nada de democracia naquela terra.
Antigamente, na monarquia, os reis governavam a região. Naquela época, tudo estava normal. Depois, ocorreu a colonização e as pessoas do exterior dominaram os nativos. Esse período passou. Tornou-se uma república, onde os ditadores governavam. Quando eles falaram que vai ser República Democrática do Congo, eles disseram para nós que podemos falar. Eles diziam para que falássemos, mas não desejam democracia. Então, a democracia só ficou no nome do país e não foi além.
Aqui no Brasil tem muitos problemas, mas tem liberdade. Uma das coisas que me impressionou foi muitas pessoas saírem nas ruas gritando “Fora Temer, fora Temer”. Eu disse: “Nossa, grite fora Kabila no Congo e veja se vai conseguir dormir”. Se souberem a casa já era. Aqui tem prédios onde está escrito “Fora Bolsonaro”. Se fazer isso no Congo, o prédio cai. A Venezuela também falta com a democracia. Aqui, existe democracia e as pessoas gritam e expressam opinião.
A democracia brasileira ajudaria bastante os brasileiros. Mas os brasileiros não sabem usar a sua democracia. No Brasil tem pessoas que vivem de cesta básica, querem viver dependendo do outro. Gosto de ajudá-las e fazer doação. Porém, os brasileiros vivem de doação, e nos países onde as pessoas são independentes, não se vive de doação. As pessoas tem que trabalhar. Fazendo trabalho, as pessoas amadurecem. Não espera que alguém faça algo para você.

Senhor Jean e Senhor Abdul

– Quer dizer que enquanto não é problema expressar livremente no Brasil, tem países onde isso não é normal.
Jean – Mais uma coisa. Abdul disse sobre cultura, mas eu vou falar do outro lado. Quando compreendemos a cultura brasileira, conseguimos passar a integrar na sociedade brasileira. Se não compreender, não conseguimos integrar. Brasileiro também é fechado, mas é muito curioso. Primeiro de tudo, precisamos que os brasileiros conheçam melhor. Veja o exemplo que Carlos disse. Um brasileiro disse: “Você não tem comida na Venezuela e vem vender comida para Brasil?”. Veja esse pensamento. Será que essa pessoa pensa que a comida que Carlos vende é a comida da Venezuela inteira? Algumas vezes, vejo esse lado negativo dos brasileiros. Os brasileiros obtêm informações erradas. Precisamos dispensar tempo explicando para que eles compreendam.
Muitos brasileiros pensam que África é um país e fazem a seguinte contagem: Venezuela, Japão, Haiti e África. A África é um continente. Existem mais de 55 países dentro dele. Se querem contar África, tem de ser assim: Europa, América, Ásia e África. O que significa contar África depois de Japão? Japão também é um continente? Contam África e Venezuela juntos, mas África e Venezuela são do mesmo tamanho? Isso é falta de conhecimento básico. Isso só gera preconceito.
Por exemplo, sobre sírios, eu posso já ter criado uma resposta de que sírios são “baixinhos”. Essa resposta que está na minha cabeça é um preconceito. Se um dia encontrar um sírio alto, o que vou pensar? O preconceito significa criar resposta para uma pergunta que não se conhece a verdadeira resposta. Esse é meu jeito de olhar.

Senhor Jean recebendo o certificado de agradecimento do prefeito Bruno Covas na Copa dos Refugiados de 2018

Senhor Jean no escritório da ONG

Jean – Eu gosto dos brasileiros. Os brasileiros são realmente curiosos, tem vergonha de perguntar, mas querem saber de muitas coisas. O problema é que o governo não deseja facilitar a obtenção de conhecimento pelos brasileiros.
Os imigrantes e refugiados não sofrem por causa do desejo do povo. Quem tem de explicar a situação para o povo é o governo. Em todo o mundo, mas o problema da comunicação no Brasil é relevante. Falta comunicação.
Já comentei sobre Congo, que não tem democracia, mas o problema está nos políticos individualistas. Eles pensam em comprar prédio na Austrália, quando serem presidente. Se eles nasceram e cresceram no Congo, por que não obtêm uma construção no Congo? O que significa querer obter na Austrália? Isso significa que eles são fechados. Nós erramos na negociação da democracia e independência. Existem políticos que não pensam no povo. Quando ele diz povo, é sobre sua família. Todos os seus parentes estudam e tem uma vida boa no exterior. Porém, o povo sofre.
O Congo é um país muito rico. O cobalto, matéria-prima para fazer celular, é produzido 60% no Congo. Mesmo assim, quando vemos o país, as crianças não têm escola para estudar. Será que é por causa de Japão que Congo ficou assim? Não, é por causa dos políticos de Congo. Eles precisam pensar que as crianças tem que ir para a escola. Eles deviam pensar em como aproveitar a riqueza do país para ajudar as pessoas e beneficiá-las.
No Japão e outros países, os políticos aproveitaram a riqueza do país e pensaram em beneficiar até as gerações futuras, então os países cresceram. Porém, os presidentes africanos são pessoas que acho que deveriam ser eliminadas. Deveriam ser substituídas por presidentes que pensem: “Por que não criar um metrô no Congo?”. Eles precisam criar metrô. Porém, todos roubam dinheiro e não tentam fazer nada.

Senhor Abdul solicitou para que Senhor Zico, ex-técnico da seleção japonesa de futebol, seja embaixador na Copa dos Refugiados de 2018. Senhor Zico emprestou seu campo de futebol gratuitamente.

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Senhor Yasuyuki Nagai, que participou da mesa-redonda pelo Japão, disse a sua impressão: “Senhor Jean disse que a maior barreira que aparece na frente dos refugiados é o preconceito, mas acho que o preconceito em um país que não está acostumado a entrar em contato com cuturas diferentes, como o Japão, é muito maior do que o preconceito em um país constituído por muitos imigrantes, como o Brasil. Se o número de estrangeiros que moram no Japão continuar crescendo, acho que tem a possibilidade de aumento da compreensão sobre refugiados também. A experiência que Japão teve na sociedade japonesa do Brasil e a relação que teve com as pessoas que migraram de Brasil para Japão nos últimos 30 anos podem diminuir esse preconceito e acho que estará ligado a um suporte mais satisfatório na recepção dos refugiados.”
A host da mesa-redonda, Senhora Tomoko Oura, conta: “Conheci os três, que participaram desta mesa-redonda, pela primeira vez, para entrevistá-los como refugiados há 2 anos atrás, mas agora são meus amigos preciosos que vivem em São Paulo e não me importo mais se são refugiados ou têm nacionalidades diferentes. Mesmo sendo jovens, por terem lutado e passado por situações de vida ou morte, possuem a verdadeira força e compaixão, ao qual demonstro meu profundo respeito. Se encontrarem eles, podem ter certeza de que a imagem frequentemente atribuída ao refugiado pelas pessoas será modificada.”
Agradeço pela leitura da “Mesa-redonda com refugiados e imigrantes de São Paulo” .

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