Mesa-redonda com refugiados e imigrantes de São Paulo – Parte 3

– Senhor Jean nasceu na República Democrática do Congo, onde a língua oficial é o francês, mas não quis ir para a Europa que fala francês, Bélgica ou França etc., antigos países colonialistas? Qual é a impressão que o Senhor tem desses países?

Senhor Jean

Jean – Como não sabia falar em português, queria ir para uma região da Europa que falasse francês. Mas isso não foi realizado.
No Brasil, não me dá trabalho, com a justificativa de que não sei falar o português corretamente. O Brasil parece que usam essa desculpa para os refugiados e imigrantes.
O que vejo da Europa? Preste atenção para as considerações que não haviam no passado europeu. O mundo está evoluindo. Tem gente contra o racismo e preconceito. Tem gente que apoia-nos. Tem gente com empatia. Nós sentimos bem em lugares que cabemos e não sentimos bem em lugares que não cabemos. Ví que 80% do time francês na Copa do Mundo não eram europeus. Isso está acontecendo nos outros times. A Europa já começou a mudança. Era o berço da visão racista, mas diversos aspectos como esse estão sendo libertados. Liberdade que vem como consequência da luta contra preconceito racial, étnico e religioso, como o feminismo e manifestação dos negros. Esse é meu jeito de olhar para a Europa.

Família que imigrou da África passeando na frente da estação de Estrasburgo, França. Não é raro encontrar pessoas oriundas da África na paisagem da cidade. (Fotografia de janeiro de 2020)
Mulher senegaleza que se alimenta no restaurante tailandês de Munich, Alemanha (Fotografia de janeiro de 2020)

– Senhor Carlos tem a família nos EUA, certo? Não pensou em mudar-se para os EUA? Ou não pensou em mudar-se para outros países que falam em espanhól?
Carlos – Tenho um irmão mais velho nos EUA. Ele já possui cidadania americana. Eu morei lá, em 2007, durante quase 1 ano, mas não consegui gostar muito. Se alguém perguntar “Você não gosta dos EUA?”, respondo “Não gosto”.
Eu não gostei do sistema daquela sociedade. Na época, eu ainda era jovem, mas percebi que as pessoas viviam apenas para trabalharem. Elas não trabalhavam para viver. Trabalhavam como máquinas. Acordavam cedo, o ônibus escolar chegava, enviavam as crianças para a escola, saíam para o trabalho, voltavam para almoçar e voltavam ao ambiente de trabalho para trabalharem até a noite. O padrão de vida era assim. Isso foi o que eu ví e não desejei esse estilo de vida para mim.
As pessoas não se conhecem. Se digo “Bom dia!”, eles me veem como se fosse um animal estranho. Eles ficam com medo e se algum desconhecido os chamam, ligam para a polícia. Voltam-se apenas para seu mundo e não se aproximam entre eles. Não sei se isso era normal ou não.

– Não se sentiu bem nos EUA.

Senhor Carlos

Carlos – Desde 2017, conheci o Brasil e realmente gostei daqui. As pessoas são simpáticas. Em primeiro, cheguei em Fortaleza e as pessoas de lá são abertas e amigáveis como as pessoas do Mar de Caribe. Isso foi o que gostei mais. As pessoas olham nos seus olhos e fui bem-recebido. E o Brasil era diferente dos EUA na medida em que trabalham para viver.
Quando voltei para Venezuela, as pessoas só conversavam sobre política e ficavam verificando o que tinha na minha sacola. Faltava empatia. Agora, Brasil é como se fosse minha terra natal.
Meus pais estavam no Equador, então eu também fui, mas não gostei tanto e saí. No Equador não tem preconceito, mas não está acostumado a receber imigrante. No Equador as pessoas tomam cuidado em olhar as outras. Novamente, não senti empatia. E então, gostei do Brasil. Minha família disse para eu ir para os EUA, mas preferi o Brasil. Muitos perguntam, “O que tem de bom no Brasil? Não sei o porquê de ir para esse país”, e respondo, “No Brasil não sou perseguido. Posso viver tranquilamente.”

– Atualmente, Japão não é um país que aceita muitos refugiados, mas já quiseram ir para o Japão?

Senhor Carlos

Carlos – Sempre quis ir para o Japão e eu acho que é um país muito interessante. Os documentários e filmes sobre a cultura japonesa são interessantes e, mesmo não podendo ir para o Japão, gosto de ir para o Bairro da Liberdade, que tem características semelhantes ao Japão. Culturas diferentes das nossas despertam curiosidade. Quando criança, via os desenhos japoneses. Um dia quero ir para o Japão, porque tenho interesse em conhecer culturas novas e culinária.
Abdul – Em Aleppo havia um centro acadêmico da Universidade de Aleppo, que ensinava o japonês e a cultura japonesa. Quando eu vivia em Aleppo, os produtos japoneses significavam que era para a vida inteira. Em Aleppo, ví a qualidade dos produtos japoneses e conheci o sistema de inteligência e da tecnologia empregada. Um dia, começei a ter muito interesse em conhecer a cultura, o modo de viver e o coração japonês. Quis saber como os japoneses estudam nas escolas e como ensinam os estudantes. Para os japoneses, professor é Deus. Isso é muito bonito.

Senhor Abdul

No Brasil, gostei das comidas japonesas que nunca comi na Síria. Como é difícil utilizar rashi, peço colher e faca quando vou para restaurantes japoneses (risos).
Eu acho a cultura japonesa muito diferente. Quase todos os japoneses que encontrei no Brasil são fechados. A única pessoa aberta foi a Senhora Tomoko. Os japoneses não são muito abertos e a comunidade japonesa também é fechada. Provavelmente, a geração mais nova será mais aberta. Teria o prazer de ir para o Japão.
Jean – Eu queria ir para o Japão. Iria para o Japão agradecendo a Deus. Mas isso não foi realizado. Agora, eu posso criar uma meta de ir e ver com meus próprios olhos o Japão, até 2024. Ir para o país que me negou o visto quando minha vida estava em perigo!
Eu vou obter visto e ir para Japão, mas vou dizer “Voltarei para Brasil”. Na minha cultura, há a expressão “pagar a díviada com olho”. O meu olho precisa pagar a dívida de ver o Japão. Se meus olhos não verem o Japão, a dívida não será paga. Quando ir para Japão, eu consigo devolver a dívida.

– O que os Senhores esperam e criticam do Japão?
Jean – Os japoneses são fechados. Só vivem dentro da comunidade. É difícil ver um japonês fora da comunidade. É preciso abrir a porta. Nós sabemos, por experiência, que o mundo atual não está fechado. Agora, todos estão na casa, mas a reunião online é uma interação social. Vamos nos abrir mais para conhecer as outras culturas.
Veja o que aconteceu devido a pandemia. Começou na China, mas agora todos do mundo falam sobre o coronavírus. O mundo já é uma casa. Precisamos sair da situação de viver só na comunidade. As pessas tem que ser pessoas do mundo, sem problemas com diferença de raça, etnia ou religião.
Quando um congolês vai para a Síria, ele sofre com racismo. Se um sírio vai para Congo, ele sofre com preconceito. Todos possuem diferenças, sem exceções. Quando eu tento conversar, o brasileiro discrimina e, se eu ir para a Europa, também sou discriminado. Todos recebem a mesma moeda que pagam.
Como Abdul, eu já comi com rashi. Aqui no Brasil, tem muito tipo de comida, já comi comida da Síria, de Bangladesh e de muitos outros países, então minha barriga é rica. Senhora Tomoko diz que já comeu, mas os japoneses comem fufu? Vamos comer comidas de mais países!

Fufu, parecido com mochi, junto com mafé, comida que tem peixe, do restaurante africano da cidade de São Paulo
Novo restaurante árabe aberto por um refugiado sírio em fevereiro de 2020

– Há situações em que os imigrantes de vários países do mundo e brasileiros pensam que os refugiados vivem recebendo auxílios que eles nunca receberam. Já perceberam que há a possibilidade de os refugiados não conseguirem conquistar muita empatia por esse motivo? Na realidade, os refugiados recebem auxílio de alguma organização? Se recebem, pode ser apenas o que conseguem dizer, de que tipo de organização recebem auxílio?
Jean – Auxílio é dinheiro. Os refugiados não recebem nada no Brasil. Existem apenas grupos que se esforçam para que o cotidiano das pessoas fique melhor e agradecemos a esses grupos.
Há níveis de atuação diferente para cada pessoa. Uma pessoa pode chegar em um novo território e logo iniciar seu negócio como Carlos. Outras pessoas podem chegar, mas não conseguem trabalhar. Algumas pessoas dizem que o refugiado é uma pesssoa que foi atropelada. Tornar-se refugiado é um tipo de acidente. É como se ele tivesse tomado banho, estava indo para a área de trabalho e durante o percurso foi atropelado. Normalmente, o que as pessoas que o veem fazem é correr até ele e ajudá-lo. Porém, o que acontece no Brasil são as pessoas perguntar o porquê de ter sido atropelado. Tem pessoas que querem ser atropeladas? Não têm. Isso é o que tentamos explicar.
Hoje, nossos amigos se organizam na forma de comunidade de refugiados e administram ONGs que ajudam refugiados e imigrantes, como a África do Coração (atual PDMIG). Na ONG, nós esforçamos para apresentar o lado positivo dos refugiados para facilitar a comunicação entre as pessoas. Não acho que o auxílio com dinheiro realmente soluciona o problema. Nós queremos pessoas que apoiem nossa causa e sejam nossa torcida. Por exemplo, uma pessoa que diga a Carlos: “Você é capaz. Vá para a frente.” Isso é muito mais do que dinheiro.

Uma parte dos membros da ONG África do Coração
Senhor Abdul em visita a uma família filipina que mora no São Paulo, durante atuação na ONG

Nagai – Na verdade, o governo japonês aceita muitos imigrantes como trabalhadores atualmente. Há faxineiros e trabalhadores na indústria, e brasileiros também, mas o governo não admite que recebe muitos imigrantes, porque os políticos acham que o povo japonês não querem receber imigrantes. Contudo, recebe muitos imigrantes na realidade. Não recebe refugiados e imigrantes sem visto. Por exemplo, todos os trabalhadores devem voltar para seu país de origem após um período de 5 a 10 anos. Por isso, apesar da dificuldade de receber imigrantes e refugiados no Japão, todos sabem que têm que aceitar imigrantes, porque não há muitos jovens no Japão. Porém, os políticos não querem admitir isso.
Abdul – Tenho uma pergunta. O Japão deixa os imigrantes trabalhadores trabalhando nas indústrias. Mas os refugiados necessitam mais de moradia e trabalho. Refugiados trabalhadores e imigrantes trabalhadores. A diferença está no motivo da saída dos seus países. Um lado foi forçado e o outro saiu do seu país voluntariamente. Por que os japoneses não fazem pressão para abrir a porta aos refugiados? Por exemplo, o governo diz que os refugiados aceitos em 2020 são apenas 200 pessoas. Se os japoneses são acolhedores, criariam uma organização social com o fim de manifestar para a sociedade e comunicar com o governo para abrir porta para refugiados também. Então, a imigração atual é interesseira? Só deseja jovens bons, inteligentes, fortes e que conseguem trabalhar? Não há empatia.

Senhor Abdul durante participação na reunião online do Escritório de Apoio a Refugiados de Nagoya, onde senhor Nagai é membro

Carlos – Acho adequado usar os refugiados como trabalhadores em indústrias. A economia japonesa continuará circulando e não vai prejudicar o Japão. A porta deve ser aberta, porque precisa de mão de obra para a economia não parar. A economia japonesa continuará crescendo e já que os refugiados trabalham para si mesmo também, o Japão não sofrerá. Penso que será bom para ambos os lados.

Senhor Carlos vendendo comida venezuelana durante evento
Congolesa apresentando a feira de produtos africanos no Centro

Jean – Senhor Nagai, como é a cultura de acolhimento dos japoneses? Como vocês vivem entre vocês? Há uma relação entre as pessoas?
Na cultura da minha terra natal, Congo, as pessoas que vêm de fora são “anjos de Deus”. Se você chega na minha vila, meu pai sairia da cama e deixaria você dormindo na cama dele. O que vem de fora não vem para fazer mal. Já que não se sabe o amanhã, ajuda ele.
A formação da nação está ligado com os costumes da nação. Não existe formação que passa dos limites do costume. Se um povo é acolhedor, a formação da sociedade também será acolhedora. Se as pessoas de um território não se gostam, elas não gostarão das outras pessoas. Por isso, pergunto. Vocês recebem pessoas do território que vocês vivem? Vocês recebem pessoas que vêm de fora?
Mesmo dentro do Japão, as pessoas não são da mesma etnia. Etnias sempre estão separadas. Dentro do Japão, se uma etnia vai para um local de outra etnia é bem-recebida? Se não é, para as pessoas que vêm de fora do país será pior. Se vocês já possuem a mania de não se gostarem, como vocês podem gostar de pessoas que vêm de fora?

Pintura de uma pessoa do povo pigmeu, de Congo (pintor: Bantu Tabassisa)

Nagai – A cultura japonesa é bastante misturada e complexa. Por exemplo, o kanji japonês é originalmente do chinês e há muitos vocábulos em inglês usados como japonês. É extremamente complexa. Porém, o problema do Japão é que todos os japoneses falam japonês e possuem uma cultura e costume homogêneos. Por isso, os japoneses gostam de comunicar-se sem muita explicação e não gostam de receber culturas diferentes. Se possuem cultura igual, não é necessário muita explicação. A comunicação é mais fácil. Porém, se têm pessoas com culturas diferentes, é necessário explicar muitas coisas com atenção. Os japoneses não estão acostumados a isso. Esse é um problema.
Porém, estão aceitando muitos estrangeiros atualmente. Por exemplo, as pessoas que trabalham em lojas perto da minha casa são todas estrangeiras. Não há japoneses. As lojas de conveniência também são assim. Aceitamos muitos estrangeiros e estudamos sobre como receber os estrangeiros. Entretanto, ainda não existem muitos refugiados e grande parte das pessoas não conhecem sobre refugiados. A estrutura do Japão ainda não mudou, mas a cultura japonesa está sofrendo mudanças.

Livro de orientação para os refugiados e imigrantes que começarão uma nova vida no Brasil, escrito em várias línguas

Carlos – Quero chamar a atenção para o fato de que a economia japonesa está em escala global, mas se diminuir a quantidade de jovens no Japão, quem continuará a manter a indústria no futuro. Onde está a mão de obra necessária para que o Japão mantenha sua economia?
Se o Japão empregar a mão de obra estrangeira, os refugiados e imigrantes ficarão satisfitos e acho que os japoneses e imigrantes conseguirão garantir a mão de obra industrial por muitos anos. Claro que, dentro da lei, é necessário criar um plano flexível para receber imigrantes e controlar sua entrada no Japão.
Assim como os imigrantes japoneses conseguiram atravessar a fronteira e foram recebidos, acho que deveriam dar a mesma chance aos imigrantes de outros países. Por exemplo, foi criada a maior comunidade japonesa do Brasil no Bairro da Liberdade, São Paulo, onde hoje é um bairro oriental. E então, hoje, os descendentes de japoneses tornaram-se uma família do Brasil, a geração nova vai nascendo e estão sendo recebidos respeitosamente no Brasil.

Bairro da Liberdade, São Paulo
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