Mesa-Redonda Com Refugiados E Imigrantes De São Paulo Parte 2

– Acredita que a própria palalavra refugiado acabe sendo facilmente associado ao preconceito?
Jean – Sim, o refugiado sofre com o nome. A maioria dos refugiados não gostam de ser chamados de refugiados. Parece que estão sendo xingados. Ele não quer aceitar isso e não quer vestir esse casaco. Parece que está sendo chamado de pobre, um nome sujo. Ninguém gosta de ser chamado de pessoa pobre. A palavra refugiado já está levando às pessoas este tipo de conotação.
Por isso, quando conversamos sobre a Copa dos Refugiados, todos ficam curiosos. Dizem: “esse pobre vai fazer uma copa?”. Essa frase machuca os refugiados antes da Copa. No Brasil existe um evento chamado Copa dos Gringos. Gringo significa imigrante. Esta Copa não recebe tanta atenção como a Copa dos Refugiados. As pessoas da Copa dos Gringos acham que a palavra refugiado, da Copa dos Refugiados, abaixa o valor dos seus participantes. Agora, quando essa pessoa, supostamente de baixo valor, veste o casaco chamado refugiado e faz algo de valor, causa um impacto nas pessoas. Isso indica que não somos pequenos.

– Então, significa que há pessoas que reagem sensivelmente à expressão refugiado.
Jean – Como Carlos, eu sou um empreendedor e, como Abdul, eu sou um lutador. O refugiado não significa pobreza. Não significa que não estudou e é um ignorante. Essa é a verdadeira aparência de nós, que lutamos vestindo o casaco chamado refugiado. Mas, quando perguntamos para um refugiado que já permaneceu 5 anos no Brasil, ele responde que não é refugiado. Imigrantes lembra riqueza e refugiado lembra pobreza. Esse é o jeito que Brasil olha para o refugiado. É um olhar preconceituoso.

– Pensando bem, a palavra japonesa 難民 (lê-se nanmin, e significa refugiado), se fizermos uma separação das letras que o formam haveriam um 難 (lê-se nan, e significa difícil) e um民 (lê-se min, e significa povo). Na verdade, inclui o significado de refugiados. Ou seja, ao pé da letra significaria “povo difícil” e parece que o refugiado vai trazer algum problema, ou tem-se a impressão de que são pessoas difíceis de viver.
Jean – Quem lê a Bíblia conhece o trecho “Deus é o nosso refúgio”. Significa refugiar para Deus. Aqui existe uma imagem positiva da palavra refúgio. Todos refugeiam para Deus. Mas, quando nós afastamos da Bíblia, refugiar passa a significar fugir. E por que fugir? Matou? Estuprou? Roubou? As pessoas perguntam: “Por que vocês fugiram? Por que vocês escolheram o Brasil?”

O trecho do Antigo Testamento: “Deus é o nosso refúgio”

– Pensando em japonês, nunca imaginaria que a palavra refúgio poderia unir-se com Deus no mundo da Bíblia e ser captado no seu sentido positivo.
Jean – Nós, refugiados, precisamos mostrar o nosso lado positivo e mostrar que não pretendemos roubar o trabalho. O refugiado consegue abrir uma empresa, trabalhar e pagar salário. O refugiado não é o que muitos pensam. Os refugiados são, pelo menos, pessoas que um dia tiveram uma vida segura. As pessoas esquecem disso. Se não tivessem dinheiro, não teria conseguido sair do país. Até hoje, tem pessoas na Síria. Por que não fugiram? Porque não possuem dinheiro. Não são todos que possuem recursos suficientes para sair do país. Hoje, existem muitas pessoas na Venezuela. Por que não fugiram? Porque só as pessoas que possuem dinheiro fogem. Isso não está na cabeça das pessoas.
Muitos pensam que refugiados correm para refúgio. Pensam que só os pobres fogem e os ricos permanecem. Pensam que os ricos querem morrer e os pobres querem fugir. Isso é algo que sempre queremos transmitir para as pessoas, mas para uma pessoa afastar de um local e ir para outro, ela precisa de dinheiro. A língua vem depois. Quando acabei de chegar no Brasil, eu não sabia falar português. Agora eu falo. Mesmo assim, ainda somos refugiados e sofremos com o preconceito.

Moça síria que vende comida árabe como autônoma

– O Senhor Abdul já sofreu preconceito por ser muçulmano, além de ser refugiado?
Abdul – O preconceito contra a religião engloba o preconceito contra cultura, costume, ideologia e etnia. Eu já fui chamado de terrorista ou homem-bomba, de brincadeira. Essas pessoas são amigas íntimas e nunca senti problema.
Mas tem pessoas que usam essa brincadeira para ofender e realmente têm preconceito com o outro. Eu reconheço isso como “islamofobia”. Em um certo momento, isso ocorreu em pessoas que me conheciam. Para uma vaga de carro, elas me agrediram. Mas, na verdade, não era para a vaga de carro, elas me olhavam como se estivessem olhando algo inferior. Elas estavam procurando justificativa para a violência. Quando liguei para a polícia, a companheira do homem que me agrediu disse para a polícia: “Nossa! Estou com medo. Ele pode explodir nossa casa”. Tinha um vizinho que estava ouvindo e tinha câmeras de segurança como testemunhas, então eu venci. Eu não sou negro, mas além da “islamofobia”, sou atacado com a xenofobia. Eu não sou terrorista, mas eu vim fugindo deles. Os refugiados não são terroristas, mas são vítimas do terrorismo.

Senhor Abdul

Nagai – Senhor Carlos também já sofreu com preconceito?
Carlos – Quando eu estava vendendo comida venezuelana na feira, eu ouvi: “Nossa! No seu país não tem comida e vem vender comida aqui!”. Essas pessoas acham que os venezuelanos vieram fugindo por causa da fome. Eu acho que existe preconceito e ignorância nas pessoas que acham que todos estão passando fome devido ao mau governo. Os venezuelanos não saíram para fora do país só por causa da fome. Há outros motivos. Se tem preconceito, acredito que acontece a ignorância e racismo ao mesmo tempo.

– Existe um pensamento que diz: “Se um país aceita refugiados e imigrantes, esse país entrará em colapso”. Mas, se ao invés de invadir o mercado, criar um novo mercado, os refugiados e imigrantes serão bem-vindos. Quais tipos de trabalhos os Senhores acreditam ser possível criar aqui?
Jean – Já ouvi esse discurso xenofóbico de pessoas ingênuas nas ruas. Elas acham que viemos roubar trabalho.
Antes de virmos para o Brasil, cada um de nós trabalhávamos em suas profissões. Após graduação na universidade, eu trabalhava como engenheiro civil competente. Quando cheguei no Brasil, eu pensei em trabalhar como pedreiro. De engenheiro, pensei em ser pedreiro para sustentar minha vida. Mas eu não consegui nem trabalhar como pedreiro.
Em primeiro lugar, os refugiados querem aceitar sua realidade, porque temos contas para pagar no dia a dia, a fim de sustentarmo-nos. Como fazemos isso?
Muitos imigrantes são faxineiros mesmo possuindo qualificação. Não estou dizendo que os faxineiros são feios ou burros. O que eu quero dizer é: as pessoas que tiveram educação superior ficaria satisfeita em trabalhar como faxineiras? Nunca! É difícil uma pessoa que veio estudando ficar satisfeita ao trabalhar ao lado de pessoas que não estudaram. Nós sofríamos de perseguição política e sofremos perseguição moral agora. Sempre lamentamos: “Deus! No meu país isso nunca ocorreria”. Isso, só Deus sabe. Em primeiro lugar, aceitamos isso, e então, temos que abrir nosso caminho.
No Brasil, se trabalhamos em baixo de alguém, não vamos para frente. Precisamos começar nosso próprio negócio. Assim como pilotamos um avião, quando nós mesmos dirigimos, nós vamos para frente. Até chegar no Brasil, eu não pilotava, mas se eu não começasse meu negócio, não seria possível chamar a esposa e os filhos, gastando 13 mil reais. Para trazer a família, é necessário muito dinheiro. E para abrir o negócio também precisamos de oportunidades.

Senhor Jean atuando na ONG durante a pandemia

– Antigamente, os imigrantes japoneses, imigrantes árabes e imigrantes de vários outros países se ajudaram entre eles, criando comunidades e sobreviveram. Hoje, os refugiados não conseguem criar comunidade entre os compatriotas e sobreviverem juntos?
Abdul – Em cada época, há modos de sobreviver. Atualmente, a situação não é igual à época que os antigos imigrantes chegaram.
Quando ouço a História sobre antigos imigrantes sírios, dizem que infuenciaram positivamente a sociedade brasileira. Os sírios contribuíram para a construção das sociedades da América do Sul, América Central e África. As pessoas daquele período eram mais unidas. Infelizmente, a nossa geração não está unida e a antiga comunidade não ajuda os sírios que vieram durante os últimos 10 anos.
Os refugiados sírios recentes que vieram para o Brasil são aproximadamente 4 mil pessoas no total. No futuro, Podemos construir uma comunidade, mas agora cada um está sobrevivendo. Uma pessoa que está se afogando não salva a outra que está afogando. Nós chegamos no Brasil com trauma e tristezas, e deparamos com muitas dificuldades aqui.
Dependendo da nacionalidade, há a formação de comunidades como a Associação Senegaleza, mas não está com boa organização. Provavelmente, se a vida ficar melhor com o passar do tempo, cada um entenderá melhor o outro e a relação também começará a modificar, mas, atualmente, está difícil desejar uma sobrevivência a partir da união na comunidade.

Carlos – Quando eu estava na Venezuela, haviam várias comunidades de chineses, espanhóis e italianos e elas eram muito unidas. Quando precisavam realizar algo, sempre faziam juntos. O mais interessante eram como os chineses se ajudavam. Se um chinês não sabia espanhól, eles se ajudam. Portuguêses e espanhóis também eram assim.
Porém, percebi que os imigrantes venezuelanos não têm o mesmo costume no Brasil. Para o venezuelano, os outros venezuelanos são concorrentes e inimigos, então é muito difícil promover a união para a formação da comunidade. Além disso, o venezuelano não quer ajuda dos compatriotas e não querem se relacionar. Pensei que só ocorria no Brasil, mas descobri que na Colômbia, Peru e Bolívia acontecem a mesma coisa.
A migração de venezuelanos para o exterior é recente, nesses últimos 3 ou 4 anos. Até agora, estavam no lado de receberem imigrantes. Recebia muitas pessoas da Europa e Ásia. Por isso, não sabem relacionar com a situação atual. As pessoas deveriam se ajudar mais. Não acho necessário ser apenas entre os de mesmo país de origem. Já que as gerações anteriores não nos ajudam, deveríamos dar a mão entre os imigrantes da geração mais jovem, independentemente do país de origem.

Estande de loja de comida venezuelana em um evento

Jean – O conflito entre a geração nova e a geração antiga está presente no interior de todas as comunidades. Existem pessoas que moram, por exemplo, 5 anos, 15 anos, 30 anos no Brasil. Eu morei 7 anos no Brasil. Sou como um bebê. A qualificação obtida no Congo e o que posso fazer é quase sem valor. Esse é um conflito que encontramos dentro das comunidades.
Agora, as pessoas de diversas nacionalidades devem se unir. Isso é útil para a superação dos limites impostos pela sociedade. Por exemplo, ao entrar em contato com outras comunidades, podemos passar nosso conhecimento e trocar informações. Assim, fica mais fácil compreender sua situação atual. Em São Paulo, há mais de 30 comunidades de diversos países.
Além disso, se eu estar em uma comunidade congolesa, só vou usar a língua lingala para a comunicação dentro da comunidade. Quando estamos em uma comunidade de pessoas de mesmo país de origem, às vezes fica complicado aprender outras línguas. Quando estamos com pessoas de outros países, cada um tenta conversar em português, então estudamos o português. A comunidade de pessoas com mesmo país de origem pode estar dificultando a obtenção de uma nova língua.

Time congolês, vencedor na Copa dos Refugiados 2019, em São Paulo

– O que os Senhores acham da Europa e dos EUA? Por exemplo, a irmã de Abdul está na Alemanha. O que achava da Alemanha antes de sua irmã ir para lá? Poderia dizer sobre a realidade que a sua irmã vem encarando na Alemanha?
Abdul – Após o começo da Guerra Civil Síria, os sírios se concentraram em ir para a Alemanha. Havia uma concepção de que a ministra Merkel, da Alemanha, possuía simpatia com os refugiados. Na prática, ela realmente recebeu os refugiados e os sírios tornaram-se em principais refugiados da Alemanha. Como minha irmã, amigos e conhecidos estão na Alemanha, eu sei o que está ocorrendo lá. A Alemanha está dando suporte aos refugiados, mas a realidade não está totalmente divulgada.

– Como a sua irmã passou na Alemanha até os dias de hoje?
Abdul – Minha irmã (36 anos), durante a Guerra Civil Síria, feriu gravemente uma das pernas enquanto dirigia carro, porque foi atingida por uma bomba. O marido dela morreu durante a guerra. Mesmo tentando curar a ferida, saiu de Aleppo, que estava destruído pelas bombas e se mudou para Turquia por um momento. E então, passou pelos países como Grécia, Eslovênia e Áustria até chegar em Munich, Alemanha. Durante o percurso, ficou separada de seus 3 filhos e pensou em suicidar-se. No entanto, conseguiu encontrá-los salvos e, após chegar na Alemanha, deu à luz os irmãos gêmeos, mas um deles foi um natimorto. A perna que estava ferida foi amputada e foi substituída por uma perna artificial. Esses acontecimentos ocorreram entre 2015 e 2016.
Quando estava em Munich, viveu em um campo de refugiados e recebia apoio, mas 2 anos atrás foi transferida para outra cidade que fica a 40 minutos de trem, a partir de Munich, e foi forçada a viver sem apoio.
Quando chegou na Alemanha, meus sobrinhos e sobrinhas tinham 13 anos, 12 anos e 10 anos. Como não eram completamente adultos, ví o sofrimento da minha irmã. Mesmo ouvindo que há subsídio do governo alemão, ela não sabe alemão para inscrever-se. Não tem tempo para estudar alemão e não há alemães que a ajudem por perto dela. Na igreja da cidade, ela está registrada como refugiada, uma pessoa com necessidade de receber apoio, mas uma mulher alemã, ajudante na instituição, quando minha irmã foi consultar, rasgou uma folha de documento e amassou na frente dela para jogá-la no rosto de minha irmã. Imagine uma família, onde a mulher possui uma deficiência física e 4 crianças. É muito triste.

A família da irmã de Abdul na Alemanha

– Então, significa que houve elogio no recebimento de refugiados da ministra Merkel, mas a vida dos refugiados tem mais dificuldade do que se imagina?
Abdul – Geralmente, quem veio sobrevivendo na Alemanha, e Europa, são jovens maiores do que 20 anos. Se tenho 22 anos e estou na Alemanha, uso minha mente e faço tudo sozinho. Posso trabalhar, posso obter informações indo para várias instituições e consigo me levanter com meus próprios pés. Mas minha irmã é uma mãe solteira que tem 4 filhos.
Infelizmente, minha irmã não foi bem acolhida pelos vizinhos alemães até agora. Ainda está isolada como mãe, com seus filhos. Durante os últimos 2 anos, não conseguia nem comprar roupa para o sobrinho de 3 anos e, em julho, quem ficou sabendo dessa informação e doaram alimentos e roupas foram japonesas do Japão e da Alemanha. Minha irmã e eu estamos realmente agradecidos do coração. Mas por que são os japoneses que ajudam sírios na Alemanha?

– No Japão a Alemanha é levantada como um exemplo de país que recebe refugiados, mas o lado negativo não é muito abordado.
Abdul – A Alemanha é ponderosa, tem tecnologia e diz que tem uma História de miscigenação. Não vou generalizar, mas, historicamente falando, existe preconceito na Alemanha. Não tem uma História de acolhimento das pessoas. Para os alemães, os refugiados são invasores de território. Minha irmã também diz, mas até onde eu sei, europeus não respondem nem aos envios de um sorriso e são secos.
A Alemanha não recebeu os refugiados sem levar em consideração nenhuma recompensa. A UE está pagando a Alemanha. Isso significa que a Alemanha investe nos refugiados e imigrantes. Por exemplo, na Turquia existem 3,5 milhões de sírios e recebe uma certa quantidade de dinheiro para cada refugiado. Se não tiver esse dinheiro, a Turquia abre a fronteira e os refugiados chegam na Europa, passando pela Grécia. Veem refugiados como números e não os recebem de coração. (continua)

Em 2018, estava realizado o 15º Festival Internacional de Cinema de Futebol em Berlim, Alemanha. O documentário “Copa dos refugiados” (11 minutos/2016), em que Abdul faz aparição recebeu prêmio. Atualmente, no “Vimeo online” é possível assistir o documentário gratuitamente, até 20 de setembro de 2020
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