Mesa-redonda com refugiados e imigrantes de São Paulo Parte 1

* O texto foi publicado no Nikkey Shimbun (Jornal do Nikkey) de 4 a 28 de agosto de 2020 e é proibido o uso sem permissão.

Um dos grupos sociais que receberam maiores impactos negativos na sua atuação cotidiana, devido à influência da quarentena causada pelo coronavírus, foram os refugiados e imigrantes, que vieram recentemente de diversos países do mundo para o Brasil. Desta vez, como edição especial, foi decidido dar foco para os refugiados e imigrantes de São Paulo e realizar uma mesa-redonda online para conhecer situações de refugiados e seus problemas cotidianos ocorridos durante a pandemia.
O host foi a Tomoko Oura, que desde maio de 2018, vem sendo a responsável por reportagens sobre refugiados na revista mensal Pindorama (Editora Kojiro), da cidade de São Paulo. A mesa-redonda foi realizada no dia 12 de julho de 2020, começando às 8 horas, e os participantes foram os Senhores Jean Katumba Mulondayi (41 anos, República Democrática do Congo), Abdulbaset Jarour (30 anos, Síria) e Carlos Escalona (36 anos, Venezuela), que vivem como refugiados e imigrantes. Como convidado especial, foi convidado um advogado, o Senhor Yasuyuki Nagai (esteve em São Paulo como diretor de CIATE, a partir de 2015 durante 4 anos), que vive na cidade de Nagoya e se relaciona com as questões de refugiado.
“No Japão a presença de refugiados não é muito reconhecida, mas a presença de estrangeiros é cada vez mais evidente. Além disso, a baixa taxa de reconhecimento de refugiado e a detenção do solicitante de refúgio nos acampamentos do departamento de migrações por longo tempo são problemas mais abordados.” Assim diz o Senhor Yasuyuki Nagai, um dos poucos advogados do Japão que se relacionam com a questão do refugiado.
Então, nesta mesa-redonda houve um grande interesse em ouvir a real voz dos refugiados que vivem no Brasil. As conversas da mesa-redonda e as entrevistas adicionais serão apresentadas divididas em 16 séries no total.
(Responsabilidade pelo texto escrito: Tomoko Oura, tradução: Soitiro Oura, fotos: Tomoko Oura, Abdulbaset Jarour e Carlos Escalona )

Mesa-redonda online

– Em primeiro, gostaria que os Senhores, que vivem como refugiados e imigrantes em São Paulo, fizessem uma auto-apresentação simples, por favor.

Senhor Jean

Jean – Nasci em Kinshasa, na República Democrática do Congo. Na Universidade de Kinshasa estudei engenharia civil e era engenheiro, mas também administrava uma ONG.
Eu sofri perseguição política e, em 2013, fugi para o Brasil sem nem contar para minha família e me tornei refugiado. No Congo, eu apoiava um partido, mas a oposição venceu na eleição. Fizemos manifestação, mas o presidente não desejava uma manifestação e permaneceu no cargo. Quando começamos a denunciar o presidente, ele procurou os participantes da manifestação e começou a prendé-los. Eu também fui pego e levado para a prisão, mas fugi. No Congo, quem foge da prisão está sujeito à pena de morte. Eu tive de deixar o país. Eu sou um prisioneiro político.

-Qual é o seu trabalho atual?

Logotipo da ONG África do Coração

Jean – Administro uma Lan House (Internet Café) como microempresário. Em 2014, fundei a ONG África do Coração (atuamente PDMIG – Pacto pelo Direito de Migrar) e atuo como seu representante. Quando cheguei no Brasil, senti que a maioria dos brasileiros da proximidade do Bairro da Liberdade pensavam que imigrantes negros eram haitianos. Naquela época, após o terremoto no Haiti, o Brasil emitiu o visto humanitário, então os imigrantes do Haiti tinham destaque. Quis criar maiores oportunidades para as pessoas entrarem em contato com a diversidade cultural dos refugiados e imigrantes através da comunicação. A ONG África do Coração ajuda refugiados e imigrantes nos processos documentais, e atua para que a sociedade brasileira aprofunde o conhecimento sobre refugiados e atua para acabar com a xenofobia, preconceito e desigualdade.

– Onde está a sua Lan House?
Jean – Está próxima à Igreja Missão da Paz, no Bairro da Liberdade. Nesta Igreja, imigrantes de diversos países vivem até encontrarem um novo trabalho e moradia. A Lan House é bastante utilizada para chamadas internacionais via internet. É um local onde eu e Carlos nos encontramos, mas Carlos sempre foge de mim (risos).

Igreja Missão da Paz, do Bairro da Liberdade

Carlos – Jean diz que eu fujo dele, mas já faz 3 ou 4 anos desde que nós nos conhecemos. Já participei da Copa dos Refugiados, que a ONG de Jean organiza. Foi uma experiência muito boa. E não são apenas as pessoas da África que estão lá. Países latino-americanos, como Venezuela, Chile, Colômbia e Bolívia também passaram a participar. Acho que entre os refugiados de diversas nacionalidades tem uma boa interação e, mais do que animarem-se com o futebol, existe um significado de acolhimento dos refugiados.

– Explique como foi para o Senhor Carlos, vir de Venezuela até o Brasil e solicitar refúgio.

Senhor Carlos

Carlos – Natural de Caracas, Venezuela. Em 2016, passei pela fronteira de Venezuela e entrei em Manaus (AM). A partir daí, fui para Fortaleza (CE) e solicitei refúgio com a justificativa de sofrer perseguição política. Permaneci 3 meses na Fortaleza e depois vim para São Paulo com avião.
Na Venezuela trabalhava como jornalista em um órgão administrativo. Eu também fazia produção de programas de TV, planejava projetos e fui responsável pela contabilidade. Um dia, durante o trabalho, fui aconselhado a assinar um papel com a quantia de dinheiro bem maior do que de costume. Facilmente, imaginei a corrupção, por isso neguei. Então, percebi perigo para mim e minha família e decidi sair do país.

– Qual é o seu trabalho atual? O que sentiu de dificuldades no seu cotidiano depois de ter vindo para São Paulo e como veio superando?
Carlos – Junto com minha esposa venezuelana, administramos “Nossa Janela”, restaurante de comida venezuelana e fazemos serviço de catering (emcomenda). Também já realizei aula de culinária em lugares como eventos culturais.
Quando acabei de chegar no Brasil, procurei trabalho com base na minha carreira do passado, mas não tive a sorte de encontrar uma boa chance. Antes de vir para São Paulo, fiquei em Jundiaí por um curto tempo, mas as pessoas tinham um preconceito e as coisas não foram bem. Posteriormente, vim para São Paulo e morei na Igreja Missão da Paz procurando trabalho. Era difícil encontrar um bom trabalho e quando falaram: “os refugiados e imigrantes vieram roubar trabalho dos brasileiros” fiquei chocado. Para destruir esse mito, resolvi criar meu próprio negócio. Não foi fácil, mas para sair de um buraco escuro e com caos sentimental tinha de me levantar.

– O que surgiu de dificuldade no cotidiano e no trabalho para os refugiados e imigrantes, após o começo da quarentena devido ao coronavírus?

Senhor Abdul

Abdul – Na verdade, antes de acontecer a pandemia já existia uma concorrência para a sobrevivência e era difícil viver. Muitos dos refugiados e imigrantes do Brasil, inclusive eu, possuem empresa e são autônomos como Carlos. Isso, porque no mercado de trabalho brasileiro existe muita exploração.
Desde antes da pandemia, os refugiados e imigrantes possuíam empresas médias e pequenas. São comuns também as pessoas que trabalham sem registro de carteira de trabalho, seu salário é explorado e, em troca de trabalho, recebem apenas moradia e alimento.
Durante a pandemia, a situação piorou duplamente. A maioria dos refugiados e imigrantes, que são autônomos, sofreram influência no trabalho. Nós não podemos mais desenvolver nossas ideias nos negócios. A dificuldade na pandemia é real para refugiados e imigrantes como eu, que trabalham com projetos sociais, eventos, reuniões e palestras etc..

– Então, há muitos refugiados e imigrantes empresários que sofrem diretamente com a influência da pandemia?
Abdul – Sim. Há muitos trabalhadores irregulars e dono de negócio individual também e não é raro os conhecidos trabalharem na área de culinária. O Brasil de hoje não compra mais os componentes eletrônicos e roupas que os vendedores ambulantes fornecem. As pessoas estão com medo. Temos que respeitar as orientações das organizações de saúde e limitar várias atividades, mas para os refugiados, imigrantes e brasileiros também está em difícil situação na pandemia.
A comunidade de refugiados é frágil. Por isso, agora eu e meus companheiros estamos fazendo atividades que ajudem pessoas que necessitem de alimento, essencial para sobreviver.

– Após a pandemia, na ONG África do Coração (atualmente PDMIG), que são integrados pelo Jean e Abdul também, começou a ser distribuído cesta básica e kit de higiene, certo?

Distribuição de cesta básica pela ONG África do Coração

Jean – Está difícil realizar eventos que vêm pessoas neste ano, como a Copa dos Refugiados e palestras, atividades que a ONG veio se esforçando. Realizamos reuniões e eventos online, mas a distribuição de cesta básica está sendo o evento principal que ligam realmente as pessoas.
Enquanto não é possível ver o fim da pandemia, muitas famílias de refugiados e imigrantes estão sem alimento, não conseguem falar português e o dinheiro para pagar a moradia está acabando. Na ONG, através da campanha “SOS solidariedade com imigrantes e refugiados”, foi distribuído 2500 caixas de cesta básica, por registro, até metade de julho, para pessoas de diversas nacionalidades que moram no Brasil, graças à união dos voluntários, nas cidades de Porto Alegre, Florianópolis, Curitiba, São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília.

Fila de pessoas que recebem cesta básica

– Fale o que aconteceu até o Senhor Abdul chegar no Brasil e tornar-se refugiado por favor.
Abdul – Nasci em Aleppo, Síria. Em fevereiro de 2014, cheguei no Brasil, solicitei refúgio e após um ano fui reconhecido como refugiado. Nasci em uma família de comerciantes, a partir de 13 anos vendia celulares na Síria e possuía minha casa e minha loja. Estudava sobre administração de empresas, mas com 20 anos, parei por 1 ano para cumprir o dever de serviço militar, e enquanto isso a Guerra Civil Síria (2011) começou. Fui recrutado, e enviado para Damascas, era motorista de um general durante a Guerra, mas o quartel foi explodido e muitos companheiros morreram. Eu também sofri uma fratura na perna e na clavícula, mas fugi para Líbano, e fui para o consulado do Canadá, Austrália e Brasil. Resolvi refugiar para o Brasil, pois fui aceito rapidamente. Após a Guerra Civil Síria, a mãe e seus 7 irmãos e irmãs ficaram espalhados pela Síria, Turquia, Canadá, Alemanha, Iraque e Líbano.

– Parece que a mãe de Senhor Abdul foi desta para melhor devido ao coronavírus. É verdade?

Senhor Abdul

Abdul – Sim. Consegui chamar minha mãe e minha irmã mais nova, que ainda estavam em Aleppo mesmo depois do início da Guerra Civil Síria, para o Brasil em dezembro de 2018. Muitas pessoas tentaram ajudar para que elas acostumassem com a vida no Brasil, mas sem eficiência, aumentaram os dias que estavam deprimidas. Então, a irmã voltou para o Líbano no final de fevereiro e a mãe também estava prevista para voltar juntas, mas como o passaporte já estava sem validade, estava no meio do procedimento de renovação.
Minha mãe apelava ter dor na cabeça e em muitas partes do corpo a partir de meados de março. Quando muito, ía para o hospital do SUS por 6 vezes por semana, mas continuaram falando que não havia problemas. No final, o hospital diagnosticou que ela tinha coronavírus e foi internada no Hospital das Clínicas no dia 24 de abril, foi no dia que começaria Ramadã. O costume do muçulmano é fazer doação aos pobres durante o Ramadã, mas foi justamente isso que ela pediu para fazer como suas últimas palavras. E passado 3 semanas, no dia 13 de março foi chamada para o céu. Para os profissionais do Hospital das Clínicas, que se esforçaram para o bem-estar dela, só tenho palavras de agradecimento.

Abdul e sua mãe, Khadouj, no ano-novo de 2020

– Como é que reconhece a diferença entre um refugiado e um imigrante/migrante?
Jean – Nós todos somos migrantes na nova lei de migração. Antigamente, as pessoas que estavam no Brasil, mas não tinham nacionalidade brasileira eram chamadas de estrangeiras. Tanto um imigrante quanto um refugiado eram chamados de estrangeiros. Na nova lei, a palavra estrangeiro foi apagada e a palavra migrante substituiu seu lugar. Um migrante é uma pessoa que vem de país de fora ou se locomove dentro do próprio país.
Atualmente, a migração tem dois tipos: a forçada e a voluntária. Na migração voluntária há pessoas que estudam, casam e faz negócio. Por outro lado, há pessoas que, por exemplo, sofrem perseguição e não tem outra opção a não ser sair para fora do país. Essas pessoas são refugiadas. Refugiados são pessoas que foram forçadas a sair do país sem nenhuma preparação. É diferente do imigrante que tem um objetivo.
Eu sei o dia em que cheguei no Brasil, mas não sei o dia em que vou voltar. O imigrante sempre sabe o dia em que vai ir e o dia em que vai voltar. O imigrante tem passagem aérea e tem hotel preparado. Eu vim para o Brasil sem nenhuma preparação e tive de dormir no abrigo de refugiados.

Senhor Yasuyuki Nagai

Nagai – Senhor Jean não pensou em ir para outro país além do Brasil?
Jean – Atualmente, tenho outras alternativas. Carlos e Abdul também poderiam escolher outras alternativas. Mas, quando cheguei no Brasil, o Brasil era a única alternativa. Agora, se eu comparar Brasil com outros países, eu iria para outro país. Brasil não era El Dorado ou um paraíso. Mas minha situação era como se eu estivesse no meio de um tiroteio e não podia escolher a casa para esconder-me.
Para sair do país, solicitei para 5 países. Pessoalmente, queria ir para Japão, mas Japão não emitiu visto. Também queria ir para Cuba, mas novamente não consegui o visto. Para Canadá, paguei duas vezes para receber o visto, mas não consegui e o dinheiro também não voltou. Além desses, solicitei para EUA e França. Apenas o Brasil emitiu o visto.

– Como acha o olhar para os refugiados e imigrantes no Brasil? Acha que são bem-vistos pelos brasileiros?
Jean – Muitos dizem que a dificuldade dos migrantes é o português. Mas não é apenas isso. Os refugiados vieram sofrendo preconceito. A palavra refugiado parece algo que não tem vida, um pobre, uma pessoa que fugiu de fome e sem valor. Quando alguém diz: “ele é refugiado”, parece que ele sofreu uma acusação. Esse é uma conotação discreta que a palavra refugiado carrega.

– Então, o Senhor diz que a maior barreira para os refugiados não é a língua.
Jean – Se há uma pessoa com empatia e amor, ela doaria trabalho. É dentro do trabalho que aprenderemos o português. Se falam que não vão dar trabalho para os refugiados, porque não falam português, há um preconceito. O preconceito sempre leva à desigualdade e fecha o caminho, como não querer saber da sua formação acadêmica, não querer saber da sua vida, entre outros. Desde o começo, já eliminam os refugiados. É uma dor que muitos imigrantes e refugiados sentem.
Às vezes, falam que Brasil é país de imigrantes. Mas alguns filhos de imigrantes desejam que os refugiados saiam do país. A primeira dificuldade que encontramos é o preconceito. O problema da língua vem depois. Apesar de nós sabermos falar o português direito, quando falamos que somos refugiados, eles procuram outros motivos para não aceitar. Nós já estávamos sofrendo antes da pandemia. Agora, a pandemia traz mais problemas. (Continua)

A palestra “Café contemporâneo”, que diz respeito à nova lei de migração, promovida pela ONG África do Coração na Câmara Municipal de São Paulo em junho de 2019

 

Comentários
Loading...