MARI SATAKE: Abril 2020

Tarde quente de outono. Céu azul brilhante, sem nuvenzinha alguma querendo encobrir o sol. Vento suave entrando pelas janelas escancaradas.
O pátio vazio. Adiante, a praça das crianças. Nenhuma criança, nenhum pai, nenhuma mãe. Nem aqueles jovens casaizinhos que de vez em quando apareciam por ali. Ninguém. Manhã ou tarde, não importa. A praça reina sozinha quase o tempo todo. No final da tarde, ali costumavam aparecer alguns solitários com seus totós de estimação. Também eles sumiram. De vez em quando, quando o sol já se foi, chega um ou outro com seu totó. Mas as rodinhas que se formavam antes, agora não mais. Ela se lembra das orquídeas escondidas nos troncos das árvores. Curiosa, de longe, começa a procurar por elas. Sim elas continuam lá e pelo visto, continuam bem cuidadas. Pensa na enfermeira aposentada. Será que diariamente, munida de seus apetrechos de jardinagem, ela ainda se dirige à praça como fazia antes? Mas se não ela, quem mais poderia cuidar das orquídeas? Como se nada mais tivesse a fazer na vida, ela traça seu plano. Passará o final de semana vigiando a praça de hora em hora. Portanto, nada de ficar vendo filmes ou lendo madrugada adentro. Sábado começará seu plantão na janela.
Assim, sábado de manhã cedinho, escuro ainda, ela abre janelas e portas para ventilar a casa, antes de sua ginástica diária e apesar da penumbra, olha para a praça. Nada. Ninguém. E assim passou o seu dia, de hora em hora, cuidando da praça sempre desocupada. Nove da noite, decidiu: por hoje, chega. Amanhã, domingo. Vigiar ou não vigiar? Domingo não é dia que normalmente, a enfermeira iria à praça. E ela pensa com seus botões, quem disse que normalmente é termo que se aplique nestes dias que vivemos? E decide. Também amanhã, domingo, fará o seu plantão. E, em meio, às louças, tigelas, panelas, fogo e forno, de hora em hora ela corre ao seu posto de observação. O dia passa e nada. Nada de enfermeira e nada de ninguém na praça deserta.
Segunda feira, hoje é um novo dia.
Ela parece gostar da brincadeira. Madrugada escura ainda. Lá fora, nem carros, ônibus ou ambulâncias. A cidade dorme. Nos prédios, janelas escuras ainda. Faz sua ginástica, faz sua meditação matinal e ainda todos dormem. Fica ali parada no parapeito, olha para a praça vazia. Olha para o velho relógio da sala, é cedo ainda. Aos poucos, começa a clarear. E ela ali, admirando a cidade vazia. Eis que, alguém atravessa a rua em direção à praça. Reconhece a figura roliça carregando em sua mão direita uma sacola.
Aliviada, ela pensa. Que bom, a enfermeira está bem.
Pensa em si. Também está bem.
Lembra-se de quando era jovem e tinha pressa. Sorri. Tinha pressa e não sabia por quê. O tempo passou. Hoje, sem pressa, tem todo o tempo do mundo.
Vive o seu confinamento, cuidando de seus pequenos nadas, não mede esforços para que seu corpo e mente a sustentem em suas pequenas alegrias. Ela sabe que só assim, poderá suportar e superar as mazelas que ainda enfrentaremos nesta terra de desarrazoados ditando ordens.
Por ora, reza pelos que partem sem direito às despedidas de seus entes queridos.
Fique em casa!

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