Luiz Nishimori e Walter Ihoshi comentam sobre os 30 anos da comunidade brasileira no Japão

Instituto Educacional TS Recreação, em Saitama, voltado para filhos de brasileiros (Facebook)

Na próxima segunda-feira, 1º de junho, as alterações à Lei de Imigração japonesa que possibilitaram a brasileiros de ascendência japonesa estabelecerem-se no Japão – os chamados dekasseguis – estará completando 30 anos. Por conta das restrições causadas pela crise do coronavírus, as comemorações dos 30 Anos da Comunidade Brasileira no Japão estão sendo adaptadas a novo cronograma, que incluirá diversos eventos ao longo do restante de 2020 e em 2021, a serem confirmados uma vez levantadas as atuais orientações de distanciamento social.
Enquanto não é possível realizar esses eventos presencialmente, a Embaixada do Brasil, os Consulados Gerais do Brasil em Hamamatsu, Nagoia e Tóquio, e os respectivos Conselhos de Cidadãos estão marcando a data com uma comemoração que permite contornar as limitações impostas pela pandemia.
Uma das atividades programadas é o lançamento, no dia 1º de junho, de um vídeo comemorativo que contará com depoimentos dos presidentes dos Conselhos de Cidadãos, do Embaixador do Brasil no Japão, Eduardo Paes Saboia, e dos cônsules gerais, além de mensagens enviadas especialmente para a ocasião pelo deputado federal Luiz Nishimori (PL-PR), atual presidente do Grupo Parlamentar Brasil-Japão, e por representantes do governo japonês.
Completam a homenagem apresentações de artistas que integram a comunidade brasileira no Japão: a dupla Via Brasil e a cantora paulistana Lisa Ono, que fixou residência no Japão com a família com dez anos de idade – o pai abriu um restaurante de comida brasileira chamado “Saci Pererê”, em Tóquio – e já foi chamada de “Embaixadora da MPB no Japão”.

Nishimori é o atual presidente do Grupo Parlamentar Brasil-Japão (divulgação)

Amizade – Em entrevista ao Jornal Nippak, o deputado Luiz Nishimori disse que conversou com o embaixador Eduardo Saboia sobre a comemoração porque “não podemos deixar passar em branco esta data tão importante e significativa para nós”.
O parlamentar lembrou que “este ano comemoramos também os 112 anos da imigração japonesa no Brasil e os 125 anos do Tratado de Amizade, Comércio e Navegação entre os dois países, com perfeita sintonia, relação de confiança e amizade que proporciona crescimento e desenvolvimento para as duas nações”.
Segundo ele, ao longo dessas três décadas, Japão e Brasil construíram uma grande parceria. Uma história, conta o deputado, que teve início ainda na década de 1990, quando os primeiros nipo-brasileiros – nisseis da segunda geração– começaram a fazer o caminho inverso dos ancestrais que para cá vieram. “O objetivo era ir para o Japão em busca de melhores condições, pois a economia do Brasil, na época, passava por certas dificuldades e o Japão necessitava de mão de obra, principalmente para o setor industrial, pois a   mão de obra especializada estava em escassez neste período”, lembra Nishimori.

Três Ks – Desde então, foi possível constatar três grandes ondas de brasileiros em direção ao Japão, em 1990, em 2000 e em 2007. No início, quase sempre para desempenharem os famosos“três Ks”: kiken (perigoso), kitanai (sujo) e kitsui (pesado).
“Sobreviveram ao choque de cultura e desenvolveram o trabalho de mão de obra que o Japão necessitava naquele momento, foram recompensados e fortalecidos pelo bom salário ofertado”, conta Nishimori, destacando que o número de dekasseguis brasileiros no país chegou a quase 320 mil trabalhadores. “E com o sentimento de ajudar as famílias no Brasil, enviavam recursos significativos, o que ocasionou o aquecimento da economia brasileira, pois deixavam apenas o   essencial para se manter no Japão, o restante enviavam integralmente para o Brasil”, destaca Nishimori, acescentando que não foram poucas as adversidades enfrentadas por aqueles que decidiram se aventurar na terra do sol nascente.

Terremotos – “Crises econômicas, terremotos e tsunami fizeram muitos brasileiros voltarem ao Brasil, mas o número de brasileiros no Japão chega hoje a quase 200 mil”, diz o deputado, para quem esta nova crise, desta vez mundial, provocada pela pandemia do novo coronavírus, exige serenidade e criatividade.
“Vamos superar mais esta crise, com toda certeza. Vivemos em um mundo globalizado e juntos caminharemos rumo a um novo mundo. Vejo este momento como uma oportunidade de fazer diferente e melhor, ter novas visão, ter novas ideias, novas metas e novos objetivos, adequando as novas situações”, explicou Nishimori, que parabenizou a Embaixada, os Consulados e toda a comunidade brasileira residente no Japão pela comemoração dos 30 anos da comunidade brasileira no Japão, “que com muita criatividade e tecnologia celebra esta parceria de cumplicidade e de grande sucesso entre o Brasil e o Japão, mesmo diante deste momento de dificuldade que o mundo esta passando”.

Como deputado, Walter Ihoshi apoiou a luta dos dekasseguis (divulgação)

Conquista – O ex-deputado federal Walter Ihoshi, que dedicou boa parte de seus três mandatos na Câmara dos Deputados em prol do fortalecimento do intercâmbio entre os dois países, também parabenizou a comunidade brasileira pelos 30 anos no Japão. “Tive o privilégio de estar na Câmara dos Deputados ao longo de três mandatos e, principalmente, em 2008, quando nós celebramos o Centenário da Imigração Japonesa. Quero parabenizar toda comunidade brasileira que está no Japão, batalhando, lutando e que ao longo desses anos serviu de ponte entre as culturas japonesa e brasileira”, ressaltou Ihoshi, que destacou como uma de suas conquistas a instalação, em 2009, do Consulado brasileiro em Hamamatsu.
O pedido de instalação do terceiro consulado brasileiro no Japão, na cidade de Hamamatsu, província de Shizuoka, era uma reivindicação antiga dos brasileiros que viviam na região e aconteceu depois uma viagem oficial feita ao Japão, em 2008. Na ocasião, Ihoshi integrou a comitiva liderada pelo então presidente da Câmara dos Deputados, deputado Arlindo Chinaglia (PT/SP),
“Foi uma conquista dos brasileiros que residem no Japão e que solicitaram a instalação dessa importante unidade brasileira em Hamamatsu, região que concentra um grande número de brasileiros”, conta Ihoshi, que fez sua última viagem ao Japão como parlamentar em 2018, acompanhando o prefeito de Marlia, Daniel Alonso, e o presidente do Nikkey de Marlia, Keniti Mizuno. “Fomos para estabelecer contato com duas cidades-irmãs de Marília, e com uma delas, Izumisano, na região de Osaka, nós assinamos o convênio. Me lembro que, nesta viagem, passei por Hamamatsu, e uma das demandas da comunidade brasileira que mais ficou marcada foi a questão da educação. Mutos pais de brasileiros que moram lá e filhos que foram educados no Japão – alguns inclusive retornando ao Brasil – estariam com muitas dificuldades de poder levar suas notas, suas avaliações de um estabelecimento para o outro”, disse Ihoshi, que na volta fez um relatório com todas as questões levantadas pelas lideranças locais para serem apresentado à Presidência da Câmara dos Deputados.

Pós-covid – Segundo Ihoshi, que atualmente comanda a Jucesp – Junta Comercial do Estado de São Paulo – com o amadurecimento da comunidade brasileira nessas três décadas, vários dekasseguis que começaram trabalhando nas indústras foram estebelecendo seus próprios negócios em território japonês.
“Daqui para frente, a questão econômica vai ficar crítica. Não só no Brasil. Tivemos um êxodo de brasileiros muito grande naquela fase de 2008 com a crise financeira, quando retornaram cerca de 60 mil pessoas. E, agora, com o coronavírus, a previsão que temos é que aproximadamente 20 mil brasileiros devem deixar o Japão. Isso é preocupante porque a crise aqui no Brasil deverá se tornar mais aguda também. Na verdade, as oportunidades aqui já estão bastante escassas e a tendência é piorar. A economia deve voltar, mas sabemos que dentro de uma certa gradualidade, ou seja, não vai acontecer como estava acontecendo e como eram os nossos planos de crescimento”, conta Ihoshi, que vê com uma certa preocupação o retorno de trabalhadores brasileiros, caso isso venha ocorrer.
“Por mais que o Japão esteja em crise, lá existe uma certa estabilidade. É um ponto que deve ser muito bem avaliado por aqueles que pretendem retornar. O Brasil vai enfrentar momentos difíceis, pequenos empresários, autônomos, e aqueles que trabalham no dia a dia para poder sobreviver, esses estão sofrendo muito. As empresas maiores ainda têm estruturas, mas também terão dificuldades lá na frente. O momento é de ter muita responsabilidade. Acredito que o Brasil vai superar tudo isso, mas não sabemos quando a economia efetivamente vai voltar como era antes. Acredito que, mesmo com uma reabertura gradativa, principalmente São Paulo, epicentro do coronavírus no país, ainda assim enfrentaremos algumas dificuldades por um longo período”.

(Câmara de Comércio Brasileira no Japão – CCBJ)

Opção – Para Walter Ihoshi, que apoiou a luta dos yonseis – descendentes de quarta geração – para a obtenção do visto, os nikkeis ainda tem uma “opção”. “Acredito que o Japão, por ser um país extremamente bem organizado, vai sair dessa com mais rapidez. Não à toa, estamos acompanhando todos os esforços feitos pelo governo japonês, a começar pelo uso de máscaras. A própria cultura é bem diferente da nossa. É uma consciência que ainda temos que aprender. E acho que vamos aprender com tudo isso. Mas o que quero enfatizar é que, mesmo o Japão estar anunciando uma recessão, o governo é preparado o suficiente e acredito que vão sair gradualmente dessa crise. E os nikkeis – os yonseis contiuam na luta pelo visto – têm essa possibilidade de ir trabalhar no Japão, pelo menos até que essa situação passe no Brasil. Aliás, vamos torcer para que tudo isso passe o mais rápido possível, tanto aqui como no Japão, para que possamos retomar nossa vida normal”, disse Ihoshi que parabenziou “todos aqueles que lá estiveram e aqueles que lá estão desenvolvendo suas atividades sociais, culturais e econômicas, servindo de ponte entre os dois países e fortalecendo as relações bilateriais entre as duas nações”.

Comentários
Loading...