JULIANO ABE: Vai aprender na marra!

Juliano Abe, vice-prefeito de Mogi das Cruzes (Facebook)

Quem já não ouviu essa expressão numa bronca da mãe? Pois é essa a mensagem intrínseca da pandemia causada pelo coronovírus. Um choque de reflexão. Um abalo de humildade.

No Brasil, a “Lei de Gerson” ganhou legitimidade e culturalmente foi obtendo mais aceitação pela sociedade que os direitos e obrigações advindos do nosso ordenamento jurídico. Com o passar dos anos a luta travada pelo povo e líderes políticos pela redemocratização do país, pela garantia constitucional de direitos e DEVERES individuais, coletivos e sociais foram relegados a um segundo plano. Mas, na marra, voltamos a dar importância ao trabalho (essencial ou não), à saúde (universal), à liberdade (de ir e vir), à igualdade e até à intimidade nos últimos dias, por conta do monitoramento de celulares.
Num outro aspecto, com o declínio da mobilidade e ausência do tráfego intenso de veículos nas grandes metrópoles, nossos olhos finalmente enxergaram a diferença entre o céu azul do outono brasileiro com o cenário acinzentado e opaco de um período típico de ocorrência de inversão térmica que, por si, dificulta a dispersão de poluentes. Esse é o impacto visual das imagens fotográficas que circulam nas redes sociais, ilustrando a paisagem de grandes cidades como Xangai, Nova Iorque e São Paulo. Aprendemos na marra a perniciosidade das toneladas de monóxido de carbono presentes na atmosfera e o apreço que o Brasil deve dar, e liderar o processo, às fontes alternativas de energia renovável.
Sob o prisma mais de comunidade, o isolamento e o afastamento social nos permitiu, finalmente, conhecer nossos vizinhos da casa ao lado, ou os moradores de cima e de baixo. Também mostrou que as nossas ações positivas ou negativas, comissivas ou omissivas, impactam as pessoas ao redor, e a conduta destas, nos atinge igualmente. Recentemente, o PNUMA – Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente publicou que seus cientistas e especialistas estudam as relações entre o coronavírus (doença infecciosa zoonótica, que é transmitida por animais), e o meio ambiente. Ações humanas como desmatamento e mudanças no uso do solo; comércio ilegal de animais silvestres; intensa produção agropecuária; uso incontrolado de antibióticos; e as mudanças climáticas são tidos pela ONU como fatores que desencadeiam 60% das doenças infecciosas em humanos e 75% de todas as doenças infecciosas emergentes. Ou seja, a maior frequência de surtos e epidemias, por zoonoses, estão diretamente relacionadas com as transformações do meio ambiente.
Existe um corolário da ciência do meio ambiente que preceitua que estamos todos conectados e dependemos uns dos outros. Respeitar todos os seres vivos e preservar o meio ambiente é mandamento. E se você ainda não entendeu, dona Elza já me dizia: “Vai aprender na marra!”

*Juliano Abe, vice-prefeito de Mogi das Cruzes, é advogado pós-graduado em Direito Ambiental pela USP e consultor em meio ambiente com especialização em Gestão Ambiental e Sistemas de Gestão Integrada

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