JULIANO ABE: 70 anos depois …

Em 1950, éramos 50 milhões de brasileiros. Chegamos à nossa 1ª grande final de Copa de Mundo, jogando em casa, num Maracanã com quase 200 mil torcedores. Nosso adversário era uma seleção experiente e já campeã do mundo. Mas, vinda de um país, sob o aspecto populacional, 25 vezes menor, com apenas 2 milhões de habitantes, ou 50 vezes menor territorialmente. Jogávamos por um empate. E durante o 1º tempo fizemos a lição de casa garantindo o placar sem gols. No início do 2º tempo, cumprindo o plano tático de jogo, e contando com a ansiedade da seleção uruguaia que precisava, a todo custo, do resultado positivo, o Brasil foi ao ataque, aproveitando os espaços abertos na defesa adversária. E Friaça – que, segundo meu pai, era atacante veloz e jogou no São Paulo como ponta direita – fez 1 a 0. A taça Jules Rimet parecia garantida. A multidão estava em êxtase. A certeza da vitória contagiava os ares dentro e fora de campo. E o Brasil amoleceu a marcação. O gol de empate assustou o time. Todo preparo psicológico, a confiança, a força da torcida se abalaram. Faltando 10 minutos para acabar a partida, bem, você já sabe o resultado final que a história nos conta.
70 anos depois, somos hoje um país com mais de 210 milhões de habitantes. Únicos pentacampeões do mundo no futebol e estamos, de novo, diante de um adversário infinitamente menor que a nossa nação de dimensões continentais. Um inimigo pequeno, tão minúsculo que não vemos, mas que foi capaz de derrubar a economia e a saúde de países infinitamente mais ricos e potentes que o nosso, colocando a China e EUA de joelhos.
Neste 1º tempo de partida, temos cumprido rigorosamente o plano de jogo, nos sacrificando na marcação, fazendo um antijogo, um jogo feio. Mas, garantindo o resultado de empate, mesmo cansados de nos manter numa posição defensiva dentro de campo. Mas o 1º tempo ainda não acabou. E ainda não é hora de mudarmos drasticamente a estratégia de jogo. Ainda não é hora de sairmos ao ataque, ainda não é hora de abrirmos a marcação ou relaxarmos em campo.
Precisamos de tempo para terminar as obras do hospital de campanha e organizarmos o seu funcionamento e gestão. Precisamos de tempo para continuar treinando e capacitando continuamente as equipes que seguem na linha de frente lidando com estresse, ansiedade e pressão de toda ordem. Precisamos de tempo para que o Ministério da Saúde e o Governo do Estado possam finalizar os processos de aquisição e, principalmente, entregar os testes rápidos, os insumos e os equipamentos hospitalares. Precisamos de tempo para os laboratórios do mundo confirmarem se a cloroquina é ou não eficaz no tratamento de doentes. Precisamos de tempo para que a medicina desenvolva uma vacina contra a Covid-19.
Se afrouxarmos agora, fugindo do plano tático, por enxergarmos um enganoso placar favorável ou porque cansamos de nos dedicar à marcação rígida, abriremos mão do jogo, e do campeonato. E o resultado você já sabe qual é. O final da história já foi contado há 70 anos e vem se repetindo várias vezes, no esporte e nas nossas vidas. Força, Brasil!

Juliano Abe, vice-prefeito de Mogi das Cruzes (Facebook)

*Juliano Abe, vice-prefeito de Mogi das Cruzes, é advogado pós-graduado em Direito Ambiental pela USP e consultor em meio ambiente com especialização em Gestão Ambiental e Sistemas de Gestão Integrada

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