ESPECIAL/IMIGRAÇÃO JAPONESA: ‘Raízes culturais envolvendo valores são fundamentais para enfrentar situações de crises’, diz Renato Ishikawa

Renato Ishikawa: “O isolamento social valorizou ainda mais o relacionamento humano” (arquivo)

Dois anos depois de comemorar o 110º aniversário da imigração japonesa no Brasil com direito a visita da Princesa Mako, a comunidade nikkei viu as celebrações dos 112 Anos da Imigração com outros olhos. Literalmente. Sem dúvida, 2020 é um ano que será lembrado e contado através de gerações. Um ano que, apesar do distanciamento provocado pela pandemia, aproximou as pessoas, por mais parodoxal que possa parecer. Trouxe a “essência”, o que há de melhor no ser humano. Como bem lembrou o presidente do Bunkyo – Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e de Assistência Social –, Renato Ishikawa, “aprendemos mais sobre nós mesmos e sobre as pessoas e coisas que nos cercam”. Por sinal, o próprio Bunkyo teve que se adaptar a essa nova realidade. No ano que em comemora seu 65º aniversário de fundação, a principal entidade teve que refazer todo o seu planejamento, bem como todas as demais instituições. Com isso, também a programação dos 112 anos foi alterada, com muitos eventos passando a ser realizado de forma virtual.
Nesta entrevista concedida ao Jornal Nippak, Renato Ishikawa fala sobre pandemia, os projetos do Bunkyo e do Hospital Santa Cruz – outra instituição que, assim como o Bunkyo, é considerada um símbolo da presença japonesa no país – e, claro, sobre os 112 anos da imigração japonesa.

Jornal Nippak: Na sua opinião, 2020 é um ano para ser esquecido ou, ao contrário, precisa ser lembrado?
Renato Ishikawa: Sem dúvida, trata-se de um ano para ser lembrado. A pandemia e o consequente isolamento social nos obrigaram a adotar jeitos alternativos para nossas tarefas cotidianas (ou até deixar de cumprir algumas ao descobrir que não tinham importância!). Enfrentamos situações inusitadas, aprendemos mais sobre nós mesmos e sobre as pessoas e coisas que nos cercam. Enfim, são lições para serem lembradas!

JN: Há quem diga que, pelo fato de os pioneiros e o próprio Japão terem enfrentados e superadas tantas adversidades, a comunidade japonesa tenha assimilado essa pandemia com espírito, digamos, mais solidário. O senhor concorda que esses exemplos dos imigrantes contribuem para essas iniciativas de um ajudar o outro?
R.I.: Não colocaria essas experiências como causa principal. Diria que, em geral, as raízes culturais envolvendo valores como disciplina, resiliência (gaman), respeito à hierarquia, espírito coletivo, solidariedade, entre outros, foram (ou, são!) fundamentais para enfrentar situações de crises como ocorreu com esta pandemia.

JN: Por conta da pandemia, todos os eventos programados pelo Bunkyo tiveram que ser cancelados ou adiados, entre eles o Torneio Esportivo em comemoração aos 65 anos, o Simpósio Internacional de Museus Nikkeis e a própria comemoração dos 65 anos marcada para dezembro. Esses eventos, considerados especiais, entrarão no calendário do próximo ano caso a situação até lá esteja normalizada?
R.I.: Para o Bunkyo, foi um choque. Tínhamos planejado eventos especiais comemorativos aos 65 anos de fundação. Estes, juntamente com a programação anual, foram cancelados, ou adiados, mês a mês.
Em relação aos eventos apontados, o Torneio Esportivo tinha sido idealizado em função da Olimpíada de Tokyo. Assim, se a Olimpíada se confirmar no próximo ano, creio que o Torneio também será retomado. Já o Simpósio Internacional de Museus Nikkeis está programado para os próximos dias 11 e 12 de dezembro, em versão digital, com a participação de representantes do Japão, Estados Unidos, Canadá, México, Peru e Bolívia. Um evento especial dos 65 anos de fundação do Bunkyo está sendo estudado por uma comissão.
Formamos um Comitê de Crise, que atualmente congrega 14 pessoas, voltado especialmente para administrar essa situação de crise. Além de tratar itens como atendimento da secretaria ao público externo, adiamento/cancelamento dos eventos, também toma decisões relativas ao controle financeiro.
Não tenho certeza se podemos falar em “normalização” da situação e a retomada do calendário de eventos. Vai depender de cada caso, pois as decisões são coletivas e envolvem atuações de determinadas comissões.

JN: Também por conta da pandemia, os jovens, em especial os ligados às associações nikkeis, tomaram à frente e comandaram vários eventos online. De alguma forma, na opinião do senhor, a pandemia acelerou esse processo de transição?
R.I.: Aquelas entidades que contavam com a participação de uma geração mais envolvida com a tecnologia digital conseguiram dar uma resposta mais rápida à crise desencadeada pelo isolamento social. Isso não foi somente às live tentando, de alguma forma, “compensar” o evento presencial, como também, na adoção de um canal de comunicação digital entre os membros da diretoria e os associados para suprir o impedimento das reuniões presenciais.
Nas entidades de moçada atuante, essa transição para a opção digital foi tranquila, e rapidamente, foi possível perceber que, apesar de uma situação meio “estranha”, diferente, também havia uma série de vantagens.
Por exemplo, muitos dos eventos ganharam abrangências e dinâmicas interessantes – por exemplo, com mais facilidade podemos contar com a participação de convidados do Japão ou nos reunir com os diretores regionais de todas as partes do país ao mesmo tempo!
Certamente que, nesse contexto, a disponibilidade da tecnologia digital também contou – a queda da internet no meio de uma palestra é capaz de criar transtornos. Entidades do interior devem estar enfrentando dificuldades para adotar esse meio de comunicação.
Aliás, no Bunkyo, para suprir essa questão da qualidade da transmissão digital, recentemente foi montado um estúdio especial dotado de novos equipamentos e tecnologia.

Renato Ishikawa com Dona Olga e o vereador Aurélio Nomura (arquivo)

JN: Como o senhor acha que deve ser a participação dos jovens daqui para frente num cenário pós-pandemia?
R.I.: Acredito que, em muitas entidades, os jovens conseguiram conquistar importantes espaços de atuação. Eu, particularmente, estou bastante satisfeito com a performance deles no Bunkyo. Mesmo antes da pandemia, desde o início de nossa gestão fortalecemos Comitê Jovem – que hoje conta com seis comissões (Jovens, FIB – Fórum de Integração Bunkyo, Bunka Matsuri, Cursos e Palestras, Kakehashi Japão-Brasil e Projeto Network). São eles que planejam e cuidam da execução dessas atividades e, nós, da diretoria, atuamos como conselheiros, vamos assim dizer.
Nosso desafio, na convivência entre novos e velhos, é conseguir quebrar barreiras. Nós, antigos, temos as nossas ideias, mas os jovens também trazem ideias inovadoras, diferentes. Precisamos intensificar a participação deles, dando-lhes oportunidades para que assumam mais responsabilidades e, efetivamente, passem a sentir que a entidade também pertence a eles.
Tivemos também exemplo de campanhas e movimentos como o Água no Feijão, da chef Telma Shiraishi, e que mobilizou várias entidades jovens. São exemplos como esses que servirão de inspiração no futuro?
Um dos pilares do Bunkyo é a área da assistência social e, nesse sentido, além da preocupação em auxiliar as organizações nipo-brasileiras dessa área, buscamos proporcionar atividades e convivência à terceira idade. Com a chegada da pandemia, as necessidades básicas de sobrevivência, como a alimentação, exigiam atitudes urgentes.
Na ocasião, junto à nossa diretoria e associados solicitamos doações para as ações de distribuição de cestas básicas junto à ONG Gerando Falcões de atuação reconhecida em diversas favelas. Também, tivemos grande envolvimento com o movimento “Água no Feijão” criado e executado por entidades de jovens nikkeis.
Além dessas iniciativas, também contamos com forte atuação junto às entidades assistenciais nipo-brasileiras. Felizmente, em todas essas iniciativas pudemos contar com a generosidade e empatia dos nipo-brasileiros.

JN: E quanto à participação das outras faixas etárias, em especial da faixa etária acima dos 70 anos, que é maioria dos frequentadores do Bunkyo?
R.I.: Esta é a parte complicada, vamos assim dizer. É aquele público cativo que não somente frequenta as diferentes atividades, como também atua diretamente na organização dos eventos. Foi o pessoal que mais se sentiu “desamparado” com o isolamento social. Tanto que, tão logo a flexibilização permitiu, fizemos questão de abrir a nossa biblioteca. Assim, aplicando todos os protocolos sanitários, desde o dia 8 de julho, estamos fazendo empréstimos de nossos livros.
Nosso escritório já está aberto ao público, mas ainda os eventos, os cursos, as sessões de cinema, que contavam com a presença desse público acima de 70 anos, não têm previsão de retomada.
Aproveito a oportunidade para informar que, em conjunto com as comissões de Assistência Social, Incremento Social e Planejamento Estratégico, estamos estudando a organização do Centro de Convivência Social visando acolher com mais efetividade esse público de faixa etária mais avançada.

Visita do embaixador Akira Yamada ao Hospital Santa Cruz (arquivo)

JN: Como presidente de uma instituição que também é considerada um símbolo da comunidade japonesa e uma referência na área da saúde, como o senhor avalia o trabalho do Hospital Santa Cruz? Qual foi o diferencial do HSC no atendimento à comunidade nikkei?
R.I.: Historicamente, o Hospital Santa Cruz foi construído visando prestar atendimento aos imigrantes japoneses, distantes de sua terra natal. Agora, mais de 70 anos depois, nesta pandemia, guardadas as diferenças temporais, tivemos a oportunidade de oferecer um atendimento em língua japonesa, buscando amenizar a insegurança diante da ameaça do novo coronavirus.
Já no mês de fevereiro foi implantado o Comitê de Enfrentamento do Covid-19 envolvendo médicos, enfermeiros e diretoria do Hospital. Ampliamos nosso atendimento bilíngue (japonês/português) para dar suporte aos casos de convid-19 e sintomas de doenças respiratórias, como também montamos um Call Center de Emergência e oferecemos o Teste PCR por sistema Drive-Thru com consulta médica.

JN: Que lições devemos tirar de tudo isso? Que mudanças o senhor espera que aconteçam quando tudo isso acabar?
R.I.: Pessoalmente, sempre busquei priorizar o relacionamento humano. Incentivar as conversas e a boa convivência entre pessoas são condições para o engrandecimento de nossa sociedade. A obrigatoriedade de isolamento social trouxe à tona essa questão, valorizando ainda mais o relacionamento humano, exigindo mais paciência, compreensão, empatia, generosidade, entre outras qualidades.
No âmbito do Bunkyo, nesses meses alguns acontecimentos marcaram fortemente a entidade. Os recursos obtidos com a campanha de novos associados foram valiosos para manutenção e pagamento dos salários (tivemos de reduzir os salários, e evitamos demissões em massa).
Ao mesmo tempo, desenvolvemos duas campanhas financeiras envolvendo várias comissões da entidade com resultados animadores. A Campanha Amigo, organizada conjuntamente por membros das comissões de Comunicação, Relacionamento Empresarial, Museu da Imigração Japonesa e Pavilhão Japonês, buscou recursos para manutenção do Museu e Pavilhão, que até o momento se encontram fechados à visitação pública. A Campanha consistiu na “venda” antecipada de ingressos para esses locais. Encerrada no ultimo dia 31 de agosto, ela totalizou 700 participantes pessoas físicas e jurídicas e arrecadou R$ 215 mil, superando a meta proposta.
Também foi realizado o projeto “Cerejeiras para o Futuro”, no Centro Kokushikan, em São Roque, que consiste no plantio de novas mudas de cerejeiras em que o doador “adota” aquela determinada árvore e nós nos encarregamos de cuidar dela. Felizmente, atingimos a meta inicial de 287 novas mudas a serem plantadas em quatro bosques, e assim, conseguir recursos para a manutenção do Kokushikan.
O Pavilhão Japonês nos próximos meses estará realizando as obras de acessibilidade graças aos recursos graças à gestão do vereador nikkei, Rodrigo Hayashi Goulart (PSD), presidente da Comissão Extraordinária de Turismo, Lazer e Gastronomia na Câmara Municipal de São Paulo. O Museu de Imigração Japonesa finalmente conseguiu a aprovação, junto aos órgãos federal e municipal de incentivo cultural, para o projeto de construção do Museu de Arte Nipo-Brasileiro.
Esta pandemia nos obrigou buscar soluções para problemas inesperados e, no âmbito do Bunkyo, graças à dedicação e conhecimento dos membros da diretoria, associados e funcionários, foi possível canalizar nossos esforços de forma coletiva e assegurar a sobrevivência da entidade nesses tempos de crise sem data para terminar.

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