ERIKA TAMURA: Tema de hoje: Respeito

Tivemos dias turbulentos no Brasil, devido ao julgamento de um “estupro culposo”. Não quero entrar no assunto desse caso específico, para não me alongar e fugir do tema do artigo. Mas quero falar sobre respeito, principalmente às mulheres!
Vivo no Japão há 24 anos, e posso dizer que é um país que preza muito pelo respeito aos idosos, respeito à cultura, respeito à hierarquia… mas respeito às mulheres, não sei se é prioridade nesse país. Posso dizer isso com muito conhecimento de causa, por experiências vividas por mim e também por casos que atendo durante o meu trabalho.
Os japoneses não são igualitários no quesito gênero, ser mulher no Japão ainda é muito difícil. Existe diferença salarial, discriminação no mundo corporativo, humilhações no dia a dia e muito descaso policial e jurídico. Pior ainda quando falamos de mulheres estrangeiras, pois além de tudo existe o racismo, sim. Porém, no Japão, nada disso é considerado crime, portanto não cabe processo.
O Japão está mudando? Sim, está! Mas ainda falta muito em relação ao fator humano, se comparado com o Brasil. (Não que o Brasil seja exemplo para isso…)
Quem me acompanha, sabe que trabalho em uma ONG que presta assistência aos brasileiros que vivem no Japão. Pois então, o trabalho não é fácil, pois a demanda tem aumentado cada vez mais, significando que, os problemas têm aumentado. Triste realidade, pois são casos graves, difíceis e doloridos. Dói na alma…
E quando um caso chega para mim, tenha certeza que darei o meu melhor para resolver. Não abandono quem me procura.
Essa semana, atendi um caso de violência doméstica (tem aumentado muito), de madrugada, pois é a hora que a moça conseguia falar. Recebo uma mensagem no whatsapp, um apresentador de TV de Araçatuba, me pedindo uma entrevista. Respondi à mensagem e do nada esse apresentador começa a escrever: “vai dormir! Agora são 3 da manhã!! Baladeira!!”.
Fiquei indignada! Perplexa! Decepcionada! Como pode uma pessoa que trabalha levando informação para o público, me tratar com tanto desrespeito?? Não o conheço e não dei intimidade para tais declarações! Ele tão pouco sabe algo da minha vida, e nem que eu estava ali, socorrendo uma brasileira em um caso de violência doméstica!
E aí me pergunto: onde está o respeito?
Analisando toda essa situação, não é difícil entender o que aconteceu naquele caso do julgamento do estupro culposo. O pensamento machista e de falta de respeito está embutido no homem, independentemente de onde ele mora. Vamos falar sobre os juízes e advogados do caso? Mas não precisa ir muito longe, olhe a sua volta! A pessoa que aparece todos os dias, levando informações para dentro de sua casa, é um ótimo profissional, mas e como ser humano? Ele passa no quesito respeito aos outros?
Precisamos pensar que, a falta de respeito não pode ser maquiada como “brincadeira para descontrair”, isso não existe! Não podemos aceitar situações como essas e acharmos que é normal.
Aqui no Japão, por mais que não tenho muita representatividade, preciso me fazer respeitar. Por isso tenho sempre discernimento e inteligência para lidar com as situações, sem ser ofensiva, mas firme no meu posicionamento e nas minhas palavras. Pode não ser muito, mas para mim, cada luta no dia a dia, significa uma vitória!

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