ERIKA TAMURA: A fuga de Carlos Ghosn para o Líbano

Estou aqui no Japão, esperando ansiosamente pela coletiva de imprensa, que Ghosn convocou no Líbano (até o fechamento desta edição, a entrevista não havia começado, portanto, só poderei opinar sobre essa coletiva de imprensa, semana que vem).
Quando soube que Carlos Ghosn havia viajado para o Líbano, achei que fosse uma viagem consentida pela justiça japonesa. Nunca, jamais, imaginaria que se tratava de uma fuga! E com todos os mistérios e dramas de um roteiro de filme…
Então vamos lá para a minha opinião. Ressaltando que é a MINHA opinião, já que sou colunista, tenho essa liberdade, e quem lê não precisa concordar comigo, apenas respeitar a opinião alheia, assim como faço com todos os artigos que leio.
Algumas semanas antes da fuga, eu estive com Carlos Ghosn, em um evento em Tóquio. Ele chegou ao evento de táxi, acompanhado de sua irmã. Conversamos um pouco, o assunto gerou em torno de vinho, já que ele possui uma vinícola no Líbano e produz vinhos de excelente qualidade! Como tive a oportunidade de experimentar esse vinho, aproveitei para conversar sobre o tema. E só! Nunca imaginei que ele estaria em sua mente, já planejando a sua fuga.
Para Ghosn, não foi uma fuga, e sim uma chance de se libertar do que considera ser uma injustiça de tudo o que aconteceu com ele. E na minha opinião, também acho tudo muito injusto!
Já escrevi vários artigos aqui, falando do quão errado a justiça japonesa tratou do assunto desde o início. A forma da investigação, a emboscada da sua prisão, a sua prisão em si, a cobrança de fianças, a retenção de passaporte da sua esposa, e por fim, a expedição do mandado de prisão da esposa de Ghosn. Tudo isso, na minha opinião, fere tudo o que vem a ser o tal dos direitos humanos.
Pensemos, o Sr. Saikawa (executivo japonês que assumiu a Nissan, após a prisão de Ghosn) também foi afastado do cargo, está sendo investigado, e acusado da mesma forma que Ghosn, com os mesmíssimos motivos e razões, porém está livre! Em nenhum momento cogitou-se a sua prisão! Por que?
Ghosn, enquanto esteve preso, passou por vários interrogatórios, dentro da prisão e sem presença de advogados, o que para mim significa tortura psicológica. E esse é o procedimento da polícia japonesa, não somente com Ghosn, mas todos os presos passam por isso. Impedido de dar entrevista, vigiado por câmeras dentro de sua própria residência… O que é isso?
Concordo que, no caso de fraude fiscal, se comprovado, realmente ele tenha que pagar pelo que fez. Mas até então, a Nissan e a justiça japonesa não conseguiu nenhuma prova concreta de que houve fraude. Por esse motivo a revolta de Ghosn quando ele diz: “Se sou criminoso, quero as provas, me mostrem! Dei a minha vida pela Nissan e é injusto eu ser tratado dessa maneira!”.
Lembrando que em nota, Carlos Ghosn diz que não fugiu da justiça japonesa, e sim, se libertou da injustiça e da perseguição política, acusando o Japão de ter um sistema judiciário tendencioso, que desrespeita tratados internacionais e os direitos humanos.
Moro no Japão, há exatos 22 anos, e infelizmente, concordo com tudo que o Ghosn fala. Trabalho diretamente no apoio aos brasileiros que vivem no Japão, e no dia a dia, vivencio todos os tipos de discriminação que se possa imaginar. Tem o lado bom de se viver no Japão? Sim! Claro que tem, mas também tem o revés.
Será que Carlos Ghosn é tão ameaçador para o Japão? A ponto da justiça japonesa querer que ele fique preso e isolado a todo custo?
E falando em justiça, um ponto que deixou Ghosn irritado é que, o seu advogado japonês, tentava negociar a diminuição da sua pena, e não a defesa da sua inocência, no qual ele dizia que não entendia porque era o réu da história.
Claro que há muitos indícios de irregularidades, mas indícios não são provas, e tem mais, se realmente Ghosn é culpado, ele não agiu sozinho. Mas já escrevi isso anteriormente. O que estamos falando aqui é sobre a fuga do executivo. O Japão encara isso como desaforo, e quer a todo custo, Carlos Ghosn na cadeia novamente.
O que o Japão não pode nunca, é subestimar a capacidade de uma pessoa que tirou a Nissan da falência e elevou ao patamar de número 2 do mundo automobilístico no Japão.
Só digo que estou acompanhando tudo, e temos aqui um roteiro digno de ficção, mas é realidade.
Mexer com a honra dos japoneses, nunca é barato. Existe um preço alto nisso tudo.

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