ENTREVISTA: Para Ryosuke Kuwana, “temos necessidade de adequar-nos à realidade desse novo normal”

“Presto minhas homenagens às vítimas da Covid-19 e me solidarizo com os familiares por suas perdas” (divulgação)

Apresentado oficialmente à comunidade nesta terça-feira, em evento remoto organizado pelas entidades nikkeis, o novo cônsul geral do Japão em São Paulo, Ryosuke Kuwana, está no país há menos de um mês, mas, mesmo à distância, já mostrou seu cartão de visitas. E, pelo jeito, seu esforço de aproximar o portunhol ao português – num gesto de simpatia e respeito – deve ter tranquilizado quem já teve oportunidade de conhecê-lo, mesmo que online, o que deve acontecer com uma certa frequência até a pandemia passar. Desde que assumiu o cargo, Ryosuke Kuwana aproveitou não só para aprimorar o seu português como também para cohecer um pouco mais a comunidade nipo-brasileira.
Confira entrevista concedida ao Jornal Nippak em que o novo cônsul fala também sobre sua passem pelo México.

Jornal Nippak: Inicialmente gostaria de dar as boas-vindas em nome do Jornal Nippak. Poderia, por favor, nos falar um pouco sobre suas experiências anteriores – principalmente a sua última passagem no México antes de vir para o Brasil? Como era a comunidade nikkei de lá (do México)?
Ryosuke Kuwana: Ingressei no Ministério dos Negócios Estrangeiros em 1986 e incialmente cumpri um estágio de língua espanhola na Espanha. Após esse período, servi nas representações diplomáticas japonesas na Bolívia, Estados Unidos, Chile, Genebra, sendo meu último posto no México. Tanto em Genebra quanto no MOFA, fui responsável, principalmente, por assuntos da diplomacia econômica, como aqueles relacionados à Organização Mundial do Comércio (OMC) e ao Acordo de Parceria Econômica (APE). Na Embaixada no México, no qual servi por dois anos, atuei como Ministro, empenhando-me no desenvolvimento das relações bilaterais entre os países.
Quanto à comunidade nikkei no México, posso dizer que o número de imigrantes japoneses tanto no período anterior como no posterior à Segunda Guerra Mundial, é relativamente menor em comparação ao Brasil ou ao Peru, pois dizia-se que até há pouco tempo, esse número era de aproximadamente 20 mil pessoas. Porém, após o recenseamento realizado com o apoio do Governo do México, soube-se que na verdade são mais de 76.000 pessoas. O histórico da imigração dos japoneses ao México antecede à imigração ao Brasil, pois o primeiro grupo desembarcou em 1897, na região sul do país, no estado de Chiapas e os 36 imigrantes japoneses estabeleceram a Colônia Enomoto, sendo estes os pioneiros.
As associações nipo-mexicanas estão localizadas na capital, Cidade do México, no estado de Chiapas e em várias regiões do país, marcando as suas presenças por meio da realização de variados eventos. Na Cidade do México onde estive residindo, existe a Associação Nipo-Mexicana conhecida por Kaikan, que realiza o Festival do Japão, trazendo muita animação. No México também, a cultura pop japonesa representada pelo mangá e o animê faz muito sucesso e além disso, com a entrada em vigor do NAFTA (Tratado Norte-Americano de Livre Comércio) e do Acordo de Parceria Econômica (APE) Japão-México, tem aumentado a entrada de empresas japonesas no México, chegando a ultrapassar 1.300 empresas e por isso, consequentemente o interesse pelo Japão tem crescido. A terceira e a quarta geração que tinham perdido a conexão com o Japão, objetivando conhecer suas raízes, têm se interessado no aprendizado da língua japonesa e isso é muito satisfatório e gratificante.

Jornal Nippak: Qual sua expectativa em relação ao seu mandato no Brasil? Já esteve aqui em outras ocasiões? O que conhece ou ouviu falar do Brasil?
Ryosuke Kuwana: O meu primeiro contato com o Brasil remonta há 30 anos, quando vim a São Paulo, no bairro da Liberdade, comprar produtos japoneses na época em que servia na Bolívia como um diplomata iniciante. Recordo-me que me impressionei com a grandeza, a riqueza, a diversidade, a energia das pessoas aqui do Brasil e principalmente com o vigor dos nipo-brasileiros já totalmente arraigados na sociedade brasileira. Já se passaram 30 anos, mas São Paulo mantém-se como o maior centro de negócios e de difusão cultural da América Latina, com a presença da maior comunidade nikkei no mundo e, justamente por este motivo, é uma metrópole de grande importância para o Japão. Portanto, sinto uma grande honra pela designação de trabalhar aqui e, ao mesmo tempo, uma grande responsabilidade com esse desafio. Durante meu mandato, pretendo conhecer São Paulo e outras regiões para encontrar-me com o maior número de pessoas possível e aprender sobre o Brasil, prestando a minha contribuição para o estreitamento das relações bilaterais entre os países.

Jornal Nippak: Em relação à comunidade nipo-brasileira, tem alguma referência? O seu antecessor, cônsul Yasushi Noguchi, disse que o Japão e o povo japonês sabem que aqui se concentra a maior comunidade de descendentes fora do Japão, no entanto, desconhecem a rica contribuição dos nipo-brasileiros para o desenvolvimento do país e que ele pretende transmitir essa sua experiência vivida aqui. Gostaria que o senhor comentasse essa colocação.
Ryosuke Kuwana: No Japão também é muito conhecido de que o Brasil abriga um grande número de descendentes de japoneses. A visita da Sua Alteza Imperial, a Princesa Mako em 2018, ano da celebração dos 110 anos da Imigração Japonesa no Brasil, foi amplamente divulgada pela mídia no Japão. Porém, nem todos os japoneses sabem sobre a existência de uma população nikkei de aproximadamente 2 milhões de pessoas, a sua atuação excepcional em várias áreas na sociedade brasileira por longos anos, bem como a sua contribuição ao desenvolvimento do Brasil. Estou muito grato de que meu antecessor, Sr. Yasushi Noguchi, deseja continuar os esforços para promover a compreensão mútua entre os dois países e ao desenvolvimento das relações amistosas. Obviamente, nós também nos dedicaremos a esta missão.

Jornal Nippak: Por falar em antecessores, tanto o senhor Yasushi Noguchi como o senhor Takahiro Nakamae, como o senhor Noriteru Fukushima e o senhor Kazuaki Obe (já falecido), viajaram muito. Pelas contas do senhor Yasushi Noguchi, ele visitou 82 cidades dos Estados de São Paulo, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, além da região do Triângulo Mineiro. O senhor terá essa mesma disposição, se a pandemia permitir, é claro?
Ryosuke Kuwana: Sim, eu pretendo conhecer. Além do estado de São Paulo, gostaria de me encontrar com os integrantes das comunidades nipo-brasileiras atuantes em todas as localidades de nossa circunscrição consular e aprender deles sobre o Brasil, cada estado e especialmente sobre a comunidade nipo-brasileira, tanto as suas conquistas quanto os seus desafios. Entretanto, como a situação de pandemia pela Covid-19 ainda perdura, os encontros presenciais não serão possíveis por algum tempo, e por isso, neste momento desejo conhecer as pessoas por outros meios tais como videoconferências.

Jornal Nippak: O senhor assume como cônsul geral do Japão em São Paulo num momento conturbado e delicado para o mundo, principalmente no Brasil, por causa da pandemia do novo coronavírus. É um desafio a mais para o senhor?
Ryosuke Kuwana: Nossos trabalhos em São Paulo são um grande desafio mesmo sem a pandemia. Acredito que este seja o início de uma nova era sem precedentes, incluindo a Covid-19 e o aquecimento global. Sensos comuns de até agora já não funcionem tão bem assim. Por isso, temos necessidade de adequar-nos à realidade desse “novo normal” e de repensar em novas maneiras de viver.
Entretanto, mesmo inseridos neste contexto do “novo normal”, devemos cumprir a nossas missões; além de proteger os cidadãos japoneses, fortalecer as relações bilaterais por meio da promoção das relações econômicas e entendimento mútuo. Creio que justamente cumprindo essas missões podemos contribuir para fortalecer ainda mais os laços de amizade entre os japoneses e os brasileiros, e entre o Japão e o Brasil, pelos quais nossos antecessores tanto trabalharam.

Jornal Nippak: Como o senhor avalia as medidas do governo brasileiro em relação à pandemia? Como a atuação do presidente Jair Bolsonaro repercutiu no Japão?
Ryosuke Kuwana: Em primeiro lugar, presto as minhas homenagens às vítimas da Covid-19 e me solidarizo sinceramente com os familiares por suas perdas. Apresento também as minhas palavras de incentivo e oro pelo pronto restabelecimento daqueles que se encontram em tratamento.
Os noticiários do Japão têm informado sobre a situação da Covid-19 no Brasil. Há muitas coisas desconhecidas sobre essa nova pandemia. Encontrar o equilíbrio entre a contenção da Covid-19 e as atividades econômicas tem sido um enorme desafio a todos os países.
Este Consulado Geral continuará a acompanhar diariamente a situação, desejando pronta diminuição da pandemia.
Jornal Nippak: Como o senhor espera que seja o seu relacionamento com a comunidade nipo-brasileira? E quais devem ser seus primeiros passos aqui no Brasil? O senhor fala bem o português?

Ryosuke Kuwana: Eu falo inglês e espanhol, além do japonês, mas infelizmente o português está no nível do portunhol. Neste momento estou me esforçando para aproximar o portunhol ao português.
Quanto à relação Japão-Brasil, não é possível de se falar sem o apoio valioso da comunidade nipo-brasileira. Pretendo me encontrar o mais breve possível com todos e ouvir suas histórias. Atualmente, devido a situação pandêmica, estou impossibilitado de encontrá-los pessoalmente, porém, pretendo conhecê-los e saudá-los por outros meios tais como de videoconferências, neste primeiro momento. Estou ansioso para ouvir sobre as suas atuações e sobre seus respectivos Estados.

Jornal Nippak: Por fim, gostaria que o senhor deixasse uma mensagem para os leitores do Jornal Nippak e esperamos que em breve possamos nos encontrar pessoalmente.
Ryosuke Kuwana: Eu pretendo trabalhar muito duro para o desenvolvimento ainda maior das relações entre os dois países, juntamente com os senhores e senhoras da comunidade Nikkei. A pandemia continua e por isso, por favor tomem medidas para prevenir a infecção. Estou ansioso para encontrá-los pessoalmente em breve, assim que a situação pandêmica melhorar. Entretanto manteremos nossos contatos utilizando novas tecnologias. Sintam-se à vontade para conversar comigo sem cerimônias sempre que tiverem alguma questão para discutir ou uma percepção para compartilhar.

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