Entidades nikkeis de todo país relatam dificuldades em tempos de pandemia

(Divulgação)

Um acontecimento histórico marcou a 622ª Reunião da Diretoria do Bunkyo – Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e de Assistência Social – com Representantes Regionais, no último dia 11. Realizado através da ferramenta Zoom, a videoconferência contou com a participação de 73 pessoas, incluindo o cônsul geral do Japão em São Paulo, Yasushi Noguchi, jornalistas, e convidados. Trata-se de um dos mais significativos eventos desde o início da pandemia organizado pelo Bunkyo e que mapeou com precisão a realidade enfrentada pelas entidades nipo-brasileiras do país.
Todos os diretores regionais relataram sobre os desafios enfrentados após a obrigatoriedade de isolamento social a partir de meados de março e as alternativas encontradas para amenizar as dificuldades financeiras.
O cônsul Yasushi Noguchi, que está se despedindo do país – deve retornar ao Japão em julho – também falou sobre a atuação do Consulado nos últimos três meses. Segundo ele, a pandemia tem exigido trabalhos extras para atender às novas necessidades, como os cuidados para evitar a contaminação dos funcionários e dos próprios dos cônsules. “Se alguém for contaminado teremos de fechar o Consulado”, revelou, afirmando que “também temos nos esforçado para facilitar as informações sobre as medidas adotadas pelo Brasil para o governo do Japão e japoneses que estão em São Paulo”
Noguchi admitiu que “muitos japoneses estão preocupados com a notícia que o presidente Bolsonaro é contra a quarentena e isolamento social”. No entanto, destaca que, “aqui, em São Paulo, o governo tem tomado medidas de isolamento social, semelhante às dos americanos e europeus”, e afirmou “agora estamos tranquilos, de certa forma, com a notícia de que a taxa de ocupação da UTI está menor”, disse, lembrando ainda que tem auxiliado os japoneses de outros países da América Latina. E explicou: Para retornar ao Japão, São Paulo é o único aeroporto internacional com voos para Europa e Oriente Médio. “Assim, temos procurando facilitar o trânsito por São Paulo desses japoneses”.

Água no Feijão – Afirmou estar “muito grato com os esforços da comunidade para ajudar a sociedade”, citando projetos como o “Água no Feijão” e atuação das empresas japonesas como a Honda e Toyota ajudando na fabricação de aspiradores mecânicos.
Sobre a situação do covid-19 no Japão, de acordo com ele, está tranquila, sem muito sofrimento, mas “estamos preocupados com a possibilidade de uma segunda onda”, ressaltando que “o desafio é saber como conviver, como levar a nova vida normal”, afirma.
Na sequência, membros da diretoria se encarregaram de explanar sobre as ações da entidade adotada após o início da quarentena. Primeiro, o vice-presidente Gioji Okuhara relatou sobre a criação de uma equipe de trabalho, o “Comitê de Crise”, responsável entre outras incumbências, pelo fluxo do caixa, administração dos funcionários, bem como do caixa até o final do ano.
Também relatou sobre a Campanha Amigo destinada a reunir recursos para manutenção do Pavilhão Japonês e do Museu Histórico da Imigração Japonesa no Brasil, com a venda antecipada de ingressos. Ressaltou que a campanha prossegue até o final de agosto e já alcançou 31% do objetivo, como 238 doadores.

Relatos – Representando as 29 regionais do Bunkyo, líderes das entidades nipo-brasileiras foram unânimes em relatar as dificuldades financeiras decorrentes do adiamento de seus eventos que representam principal fonte de renda para manutenção. Ou seja, a convid-19 também ameaça a saúde e a sobrevivência das entidades nipo-brasileiras.
Para Ken Nishikido, da Regional Amazonas, a maior preocupação é com o funcionamento o Curso de Língua Japonesa, que soma 700 alunos. Com a paralisação das atividades, conta, o grande desafio está sendo garantir as despesas com os professores e funcionários.

Desafio – Hiroshi Taniguchi, do Rio Grande do Sul, ressaltou a atuação dos jovens que, “com o Festival do Japão local pegaram o gosto e devargazinho estamos deixando que assumam as responsabilidades”.
De acordo com ele, “os jovens são mais agressivos” – não participam somente na comunidade nikkei, mas levam para outras comunidades, como Festa do Chope, de Polenta. No entanto, lamenta que a pandemia adiou a participação deles no Festival de Gramado e do Festival de Etnias em Ijuí.
Já Toshio Koketsu, da Alta Sorocabana, destacou que a Regional programou para o próximo dia 25 de agosto, a 1ª edição do Bunkyo Rural digital. E, antes disso, a celebração do Centenário do Shokonsai (reverência à memória dos antepassados), realizado no Cemitério de imigrantes japoneses em Álvares Machado. Conta que a comemoração havia sido cancelada mas foi retomada por iniciativa dos jovens e que, com a contratação de profissionais, a organização do evento está em andamento.

Passado, presente e futuro – Yuji Ikuta, do Pará, ao se referir ao desafio pós-pandemia, considera importante “olhar o passado, como também o presente e o futuro”. Nilson Tamotsu Aguena, de Campo Grande (MS), disse que, com a paralisação das atividades, tem encontrado dificuldades para alugar as instalações da associação para garantir recursos   Segundo ele, uma situação inusitada e grave para uma associação que estava se programando para comemorar seu centenário de fundação.
Roberto Mizushima, da Bahia, também demonstrou preocupação com a “falta de atividades para gerir o caixa”, bem como Kuniyoshi Yasunaga, da Centro-Oeste, que apontou como um dos graves problemas a manutenção da Associação Casa de Estudantes que até então era ocupada por 40 alunos. Com a pandemia, a maioria deles retornou para seus lares e cerca de 25% das vagas estão desocupadas.

Reunião da Diretoria do Bunkyo com representantes regionais através de videoconferência (divulgação)

Drive-in – A situação não é diferente em outras localidades, como o Rio de Janeiro. Mas Shirlei Atsumi contou que a Escola Modelo de Língua Japonesa local trocou as aulas presenciais por online e, “por sorte, 90% dos alunos prosseguiram com o pagamento da mensalidade”. “Muitos deles já avisaram que preferem continuar com as aulas digitais, mesmo depois da pandemia”, garantiu.
Em Mogi das Cruzes (SP), Shigeru Matsumoto explicou que a entidade e associados têm mantido contatos utilizando o WhatsApp, incluive para compra/venda de frutas e verduras, “um ajudando o outro”. Ele destacou que, uma das saídas encontradas pelo Bunkyo de Mogi para fazer frente à crise foram as sessões de drive-in no campo esportivo da entidade, que tem capacidade para até 230 carros. Todas as sessões ficaram lotadas.
Em Suzano, Reinaldo Katsumata disse que a situação da região é semelhante às outras. Com receio de ter que fechar as portas, ele propôs a criação de um grupo de apoio para buscar alternativas e trocas de ideias junto às associações relacionadas aos aspectos financeiros, como também levar ideias para outras cidades e estados.
Para Kenichi Mizuno, da Alta Paulista, a gestão junto às entidades, neste momento de crise decorrente da convid-19, “não pode se restringir somente à parte financeira”. “Temos de visar também a parte humana, a parte mental”. Segundo ele, esta situação excepcional de isolamento “pode provocar situações de depressão, síndrome do pânico e outras ocorrências e é importante estar preparado para tratar dessas situações”.

Youtube – Sadao Nakail, do Litoral Paulista, sugeriu que as entidades usem mais a plataforma Youtube “tanto para encurtar as fronteiras, e também como uma forma de aumentar a nossa arrecadação”. Presidente da União Cultural e Esportiva da Sudoeste (Uces) e da Fenivar (Federação da sEntidades Nikkeis doi Vale do Ribeira), Toshiaki Yamamura revelou que, “a situação é parecida com as demais regiões, “mas a diferença é que podemos contar com os recursos do fundo criado em 2012, do Projeto de 3 Milhões idealizado pele empresário japonês Tetsuhito Amano”. “Não conseguimos atingir os objetivos do projeto, mas temos repassado valores a todos os Bunkyos visando minimizar o impasse – este dinheiro está nos ajudando muito”, garantiu Yamamura, cujo trabalho para socorrer os 25 Bunkyosa da Sudoeste foi publicado no Jornal Nippak.
No encerramento, após 3 horas de videoconferência, o vice-presidente Jorge Yamashita apontou a “importância de fortalecer a sinergia entre todas as lideranças da comunidade nipo-brasileira”.
(Colaborou: Celia Abe Oi)

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