Empreendedora nikkei do Pará desenvolve sistema produtivo a base do fruto do bacuri aliando biodiversidade e bioeconomia

Hortência Osaqui: “Tive uma grande resiliência”
Hortência Osaqui: “Tive uma grande resiliência”
Fazenda montou uma agroindústria que produz derivados do fruto
Fazenda montou uma agroindústria que produz derivados do fruto

A floresta tropical da Amazônia pode se tornar a próxima fronteira agrícola do país, mas de uma maneira sustentável. Já existem inúmeras experiências de modelos de produção que aliam a prática agrícola à manutenção e preservação da floresta e que pode causar uma revolução na forma como governos, entidades e sociedades enxergam esse bioma natural.

Hortência Osaqui é filha de pai japonês com mãe paraense, e viveu grande parte de sua vida na zona rural, nos arredores de Augusto Corrêa, município situado no nordeste do Pará, na área da Amazônia Atlântica. A cidade tem cerca de 45 mil habitantes e sua economia é baseada na agricultura de subsistência, principalmente do plantio de mandioca e da pesca artesanal. A região tem um dos Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) mais baixos do país.

Formada em engenharia florestal, Hortência decidiu voltar para sua região para assumir a fazenda da família depois da morte do pai. Acostumada com abundância da floresta tropical, ela criou um novo arranjo econômico à base de um fruto tradicional na região, o bacuri, aliando preservação da biodiversidade que além de dar frutos está gerando empregos à população local – a fazenda emprega pelo menos 15 famílias no período da safra e vende para diferentes regiões do país. O bacuri é uma das frutas mais populares da região norte e dos estados vizinhos à região Amazônica. Também pode ser encontrado no cerrado, no Maranhão e é um símbolo da cidade de Teresina, no Piauí. A fruta mede cerca de 10 cm e apresenta uma casca dura e resinosa, com polpa saborosa.

O bacuri é uma das frutas mais populares da região norte
O bacuri é uma das frutas mais populares da região norte

O bacuri sempre foi abundante na região mas nunca explorado comercialmente em escala. Na própria fazenda de Hortência, as árvores eram aproveitadas apenas para extração de madeira, consideradas como nobre e resistente, até que a agrônoma decidiu verticalizar a produção e investir nos frutos e derivados.

 

Preconceito – A Fazenda Bacuri montou uma agroindústria que produz derivados do fruto e deu match! O bacuri é rico em potássio, fósforo e cálcio e pode ser utilizado na produção de doces, geleias, licores, sorvetes, sucos, entre outros produtos – uma novidade gastronômica nesses tempos em que a internet eliminou barreiras e o paladar do público tornou-se praticamente uma commoditie ávida por novidades o tempo todo. Da semente do fruto também é possível extrair um óleo usado pela indústria de cosméticos e pela medicina popular como anti-inflamatório e cicatrizante.

“É muito mais do que uma agroindústria. É a oportunidade de fazer economia com a floresta em pé. Ninguém acreditava que poderia ter uma agroindústria em um município nestas condições”, completa.

A produção da fazenda de Hortência é toda agroecológica e tem certificação orgânica nacional e internacional. “Ninguém acreditava no Bacuri. Diziam que eu era louca, que não iria conseguir. Mas eu tinha que buscar sustento cm a propriedade e fui atrás de mercado para vender os frutos”, disse em entrevista ao Mapa (Ministério da Agricultura). Ela enfrentou ainda o preconceito por ser mulher. “É um trabalho árduo para a mulher, porque é um mercado machista, mas eu tive uma grande resiliência”, disse.

 

Turismo rural – Situada na Amazônia Atlântica, a propriedade também abriu espaço para atividades de turismo rural e tem recebido o movimento de turistas, estudantes e pesquisadores que buscam a oportunidade de visitar a floresta de bacurizais e conhecer o processo de manejo das árvores. Por seu trabalho, Hortênsia como uma das finalistas do Prêmio Novo Agro Santander na área de empreendedorismo. “Isso já é um prêmio. Para mim é algo muito importante porque sinaliza que estou no caminho certo. É através da floresta, da bioeconomia que a gente pode desenvolver o município”, disse à época. Uma vitória sem dúvida para ser celebrada como mulher, empreendedora e adepta da biodiversidade.

 

Mariuza Rodrigues. E-mail:  mariuzarodrigues2020@outlook.com.br.

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