Embaixadora, Fátima Ishitani é a primeira mulher nikkei a alcançar o topo da carreira diplomática

As irmãs Cecília (com a filha Anita) e Fátima com os pais, Keiko e Kiyoshi Ishitani (arquivo pessoal)

Depois do falecimento do embaixador Edmundo Fujita, em 2016, a diplomacia brasileira volta a ter uma representante nikkei. Isso mesmo. Trata-se da paranaense Fátima Keiko Ishitani, de 51 anos, promovida a ministra de primeira classe – ou embaixadora. O decreto, assinado pelo presidente da República Jair Bolsonaro no dia 29 de junho e publicado no Diário Oficial da União do último dia 30, tornou Fátima Ishitani a primeira mulher nikkei a ocupar o cargo de maior hierarquia na carreira diplomática.
E justamente em um ano emblemático para a comunidade japonesa, que em 2020 celebra os 125 Anos do Tratado de Amizade, Comércio e Navegação Brasil-Japão; os 112 Anos da Imigração Japonesa no Brasil e os 30 Anos da Comuidade Brasileira no Japão.
Para chegar ao topo, foram quase 30 anos de dedicação desde que ingressou no Curso de Preparação à Carreira Diplomática (CPCD) do Instituto Rio Branco – órgão do Itamaraty –, em 1991 – ela também foi a primeira nikkei a ingressar no curso.
Anualmente, dos que tentam uma vaga, cerca de 20, em média, seguem em frente. Para se ter uma ideia da concorrência, no ano que antecedeu a entrada da nikkei, somente 13 preencheram todas as exigências. E, no caso de mulheres, a participação no Itamaraty é ainda mais restrita, com cerca de 20% de embaixadoras em todo o quadro.
Na família Ishitani, no entanto, a vocação para a carreira diplomática contagiou três dos cinco filhos do casal Kiyoshi e Keiko Ishitani.
Outras duas filhas, Cecília e Cláudia também seguiram os passos de Fátima. Ministra de segunda classe há sete anos e também à espera de sua promoção para ministra de primeira classe, Cecília ocupa atualmente o cargo de diretora do Departamento do Japão, da Península Coreana e do Pacífico do MRE, enquanto Cláudia e o marido, João – também diplomata – estão servindo justamente na Embaixada do Brasil em Tóquio, com o embaixador Eduardo Saboia. Claudia é chefe do Setor Comercial enquanto João é do Setor Político da Embaixada. Kiyoshi Ishitani e Keiko têm ainda Gustavo, o filho mais velho, e a caçula Andreia, que é Auditora.

Passos – Desde que ingressou na carreira diplomática, Fátima Ishitani seguiu todos os passos obrigatórios: foi Terceira Secretária (1992); Segunda Secretária (1997); Primeira Secretária, por merecimento (2002); Conselheira, por merecimento (2006) e e ministra de Segunda Classe, por merecimento (2009); além de frequentar o Curso de Aperfeiçoamento de Diplomatas (CAD) do Instituto Rio Branco (2000); o LIV Curso de Altos Estudos (CAE), “O engajamento do Brasil na Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (Minusth). Significado para a política externa brasileira” – Instituto Rio Branco (2009).
No Brasil, foi assistente e assessora da Divisão do Pessoal (2002); assistente e assessora da Assessoria de Relações Federativas (2002); assistente da Divisão das Nações Unidas (2003); assessora da Subsecretaria Geral Política I (2005); assessora da Secretaria Geral; Chefe de Gabinete do Ministro do Estado (2011) e Diretora do Departamento do Serviço Exterior (2019).
No Exterior, atuou como terceira e segunda secretária na Embaixada em Londres (1996); segunda secretária na Embaixada em Montevidéu (1999); conselheira e ministra-conselheira na Embaixada em Washington (2007) e ministra-conselheira na Missão do Brasil junto à ONU, em Nova York (2013).

Fátima Ishitani: quase 30 anos de dedicação (arquivo pessoal)

Sonho – Serviu também na Embaixada do Brasil em Roma, de 2017 a 2019, onde trabalhou ao lado do ex-ministro das Relações Exteriores, Antonio de Aguiar Patriota.
Apesar do pouco tempo na carreira, foi condecorada com a Ordem de Rio Branco, Oficial (2005); Ordem de Rio Branco, Brasil, Grande Oficial (2010); Ordem do Mérito da Defesa, Brasil, Comendador (2011) e Ordre National du Mérite, França (2012).
Em meados do ano passado assumiu a Diretoria do Departamento do Ministério das Relações Exteriores, onde deve aguardar uma oportunidade para representar o Brasil no exterior. Se depender de torcida, aliás, ela já tem destino certo.
“É um sonho servir em Tóquio”, destaca Cecília, que já esteve várias vezes no Japão a trabalho. “Muitos diplomatas que serviram em Tóquio são reincidentes, ou seja, já serviram lá como diplomata júnior”, diz a irmã.

Espírito japonês – Por sinal, Cecília explica que, “quando se fala em Japão, as portas costumam se abrir pois o país carrega uma imagem muito positiva”. “Quando se fala em comunidade japonesa, todos logo associam a uma série de valores muito apreciados pela sociedade, como comprometimento”, diz. Valores que Kiyoshi e Keiko Ishitani fizeram questão de transmitir para os filhos.
“Meu pai sempre demonstrou esse espírito japonês, de transmitir valores como educação, honestidade e família. Ele costumava dizer que ‘nada é impossível, que tudo é possível com trabalho, dedicação e estudo”, explica Cecília, afirmando que o pai, advogado, sempre incentivou as escolhas das filhas.
“Com apenas 15 anos, a Fátima foi fazer um curso na Inglaterra e quando optou ingressar na carreira diplomática, meus pais ficaram preocupados, mas depois acabaram incentivando”, diz Cecília, lembrando que o pai foi cônsul honorário das Filipinas e depois de atingir idade para a aposentadoria compulsória, passou o bastão para sua esposa, Keiko.

Fátima Ishitani, embaixador Eduardo Saboia, Cecília e Nishimori (arquivo pessoal)

Eduardo Saboia e Luiz Nishimori – Presidente do Grupo Parlamentar Brasil-Japão, o deputado federal Luiz Nishimori (PL-PR) manifestou congratulações a Fátima Ishitani pela indicação a ministra de primeira classe. “Para nós, da comunidade nikkei, é motivo de muito orgulho”, disse Nishimori, que parabenizou também a família Ishitani, “muito unida e integrada”. “Não poderia deixar de demonstrar todo apoio e orgulho por essa mulher que dedica a vida a fazer uma carreira para a ajudar a comunidade e o Brasil. Parabéns, embaixadora Fátima Ishitani, por todo seu esforço e dedicação”, concluiu o parlamentar.
Quem também parabenizou a ministra de primeira classe Fátima Ishitani foi o atual embaixador do Brasil no Japão, Eduardo Saboia. A pedido do Jornal Nippak, Saboia enviou a seguinte mensagem de felicitação: “Recebi com enorme satisfação a notícia da promoção da Embaixadora Fátima, amiga de muitos anos, que representa o reconhecimento do profissionalismo e da dedicação de que fez mostra ao longo de toda sua carreira. Para nós, na Embaixada em Tóquio, a promoção da Embaixadora é oportuna de diversas maneiras, uma vez que, neste ano – em que se comemoraram os 30 anos da comunidade brasileira no Japão, os 112 anos da imigração japonesa no Brasil e os 125 anos de amizade entre Brasil e Japão -, estamos planejando homenagens aos nipo-descendentes no Itamaraty e em particular ao Embaixador Edmundo Fujita, primeiro diplomata brasileiro”, nipo-descendente”, concluiu Saboia.

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