Em palestra na JHSP, embaixador Akira Yamada fala sobre ‘Meio Século das Relações Brasil-Japão’

(Jiro Mochizuki)

Em palestra realizada no dia 11 de dezembro na Japão House São Paulo, o embaixador do Japão no Japão, Akira Yamada falou sobre “Meio Século das Relações Brasil-Japão e Perspectivas Futuras” para um público seleto, formado, entre outros, pelo presidente do Bunkyo – Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e de Assistência Social – Renato Ishikawa; pela empresária Chieko Aoki, e pelo presidente da Aliança Cultural Brasil-Japão, Eduardo Yoshida, além de representantes de associações nipo-brasileiras.
Yamada revelou que estava “emocionado”, pois desde que assumiu o cargo de embaixador do Japão, em agosto de 2017, um de seus objetivos era ministrar uma palestra em português.
Antes de iniciar, pediu compreensão de todos porque seu portugûes “ainda não está bom”, apesar de ter um longo envolvimento com o Brasil. Yamada disse que ecolheu o termo “meio século” porque, para ele, há 50 anos, o Brasil era algo que existia apenas em material escolar de geografia ou livros”.
“Naquela época, só lia em livros sobre a imigração japonesa no Brasil e assistia algumas notícias sobre o milagre da economia brasileira”, explicou, acrescentando que esteve pela primeira no Brasil em 1976, quando conheceu as cidades de Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo.
“O objetivo da viagem era participar como membro inferior em uma missão de visita ao grupo de Kenjinkai da Província de Fukuoka desses três países [além do Brasil esteve também no México e na Argentina], organizada pela Câmara para adolescentes de Fukuoka. A minha primeira impressão da América Latina foi: ‘que território enorme’. Quando sobrevoava a região amazônica, senti que a paisagem da floresta não terminaria nunca. Quanto a Brasília, naquela época, eu imaginava ser ‘uma cidade futurística’ que aparece em novelas de ficção científica. Esta viagem me influenciou muito em vários sentidos durante a minha vida”, lembrou, afirmando que a relação diplomática entre Brasil e Japão teve início em 1895 quando foi firmado o Tratado de Amizade, Comércio e Navegação entre os dois países.
Para ele, um dos fatores que estabeleceram a estreita relação de amizade entre Brasil e Japão são as contribuições dos imigrantes japoneses e seus descendentes. “Eles enfrentaram várias dificuldades após a imigração, mas graças aos seus empenhos e dedicações, ganharam a confiança da sociedade local e contribuíram bastante para o desenvolvimento do Brasil”.

Prodecer – O embaixador, que revelou ter ficado surpreso com as recepções carinhosas à Sua Alteza Imperial, a princesa Mako, pelos governos estaduais e municipais, pelo povo brasileiro e pela comunidade nipo-brasileira por ocasião de sua visita em 2018, quando participou das comemorações dos 110 Anos da Imigração Japonesa no Brasil, observou que em janeiro de 1942 houve um rompimento das relações entre Brasil e Japão, quando o Japão entrou na guerra contra os Estados Unidos em 1941. “A derrota do Japão na Guerra fez com que os imigrantes japoneses no Brasil passassem por tempos difíceis. Contudo, sendo restabelecidas as relações bilaterais em abril de 1952, a imigração ao Brasil recomeçou em dezembro deste mesmo ano. Na segunda metade da década de 50, as marcas e companhias japonesas começaram a atuar ativamente no Brasil”.
Segundo ele, depois deste episódio, “o Japão implementou no Brasil vários ‘projetos nacionais’ de grande escala em que o governo, instituições governamentais e empresas privadas colaboravam juntos e veio a contribuir imensamente para o desenvolvimento da economia brasileira”. Como   exemplo, citou a Usiminase a Cenibra.
Dentro os projetos, o embaixador chamou a atenção para a importância do Prodecer (Programa de Desenvolvimento do Cerrado Japão-Brasil), “em que o Japão colaborou com o Brasil por mais de 20 anos na transferência de tecnologia, ajuda financeira e fornecimento de recursos humanos”.
“Costumo dizer que o Prodecer transformou o Cerrado, que até então era considerado estéril, em uma das áreas agrícolas mais produtivas do mundo, impulsionando o Brasil a se tornar um dos maiores produtores de alimentos e o maior exportador mundial de soja”. “Devido a sua escala e seu impacto, o Prodecer é um grande projeto a ser registrado na história agrícola do mundo, sendo um símbolo sucedido da cooperação Brasil-Japão da qual japoneses e brasileiros podem se orgulhar. Hoje, a cooperação agrícola entre Brasil e Japão se desenvolve na cooperação triangular na África”
Akira Yamada destacou ainda outros projetos de cooperação entre Brasil e Japão, como o da TV digital e o de cooperação sobre o sistema de policiamento comunitário baseado no sistema japonês “Koban”. Na na área de desastres naturais, citou a cooperação nas formas “Soft” e “Hard” (intangível e tangível) como as medidas contra deslizamento da terra.

O embaixador com representantes da comunidade nipo-brasileira (Jiro Mochizuki)

Parceria – “Neste ano, completamos 60 anos desde o início da cooperação econômica entre Brasil e Japão, iniciado em 1959. Na cooperação japonesa, não se vê aquele relacionamento entre professor e aluno, em que um ensina e o outro aprende. Durante essa trajetória, temos juntos pensado, discutido e trabalhado duramente para o desenvolvimento do Brasil”, disse o embaixador, lembrando que em 2014 o primeiro-ministro japonês Shinzo Abe realizou uma visita oficial ao Brasil pela primeira vez em 10 anos, na qual se reuniu com a presidente Dilma Rousseff e firmaram um acordo sobre “a parceria estratégica global”.
“Eu lembro bem desta visita porque eu me envolvi desde o planejamento como Diretor-Geral do Departamento dos Assuntos da América Latina e do Caribe, até o acompanhamento durante todo o trajeto da viagem. Durante a viagem, o primeiro-ministro Abe manifestou o discurso estratégico, titulado “Juntos!! Um aprofundamento sem limites na cooperação entre Japão e América Latina-Caribe”.
“Parecia que a relação dos dois países avançaria bastante, mas ficou um pouco estagnada por causa da crise política e econômica do Brasil e da quantidade de importação e exportação e de investimento que tinham diminuídos nos últimos anos. Contudo, enquanto a economia brasileira está mostrando um sinal de recuperação, o interesse das empresas japonesas no Brasil está começando a aumentar novamente”, disse o embaixador, que explicou o significado dos “três Juntos”.

Os três “Juntos” – “O primeiro é “Progredir Juntos” para fortalecermos ainda mais o vínculo econômico e obtermos o benefício econômico um ao outro. O segundo é “Liderar Juntos”. Significa que tomamos iniciativas juntos para enfrentar os desafios na sociedade internacional. O último é “Inspirar Juntos”, que quer dizer que promovemos juntos o intercâmbio humano para que possamos deixar o mundo pacífico e abundante”. Para ele, “essas três concepções de orientação são baseadas no pensamento de que o Brasil e o Japão caminham juntos como parceiros iguais”.
Em seguida, perguntou para a plateia se alguém sabia quantos encontros o primeiro-ministro Shinzo Abe e o presidente Jair Bolsonaro haviam tido em 2019. “Foram três encontros: o primeiro encontro foi durante a ocasião do Fórum Econômico Mundial de Davos 2019 em janeiro; o segundo foi durante a 14ª Cúpula do G20 em Osaka, em junho; e a terceira oportunidade foi na entronização do novo imperador em outubro. Nunca teve tantos encontros entre líderes dos dois países nos últimos anos. Nossos dois líderes atuais estão se dando bem. Por conta do intercâmbio estreito entre os líderes, está aumentando os interesses para o fortalecimento das relações entre Brasil e Japão”.

Akira Yamada: “Um dos meus objetivos era ministrar uma palestra em português desde que assumi” (Jiro Mochizuki)

Reformas – E destacou que este ano, Brasil e Japão terão uma grande oportunidade para estreitar suas relações sob os “três Juntos”. E explicou o que deve ser feito para aprofundar as colaborações em cada área dos “três Juntos”, como o avanço da reforma estrutural, que é visto com expectativas pelo Japão, e a meta de se tornar membro da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico), introduzindo os padrões globais sobre as regras econômicas.
Akira Yamada observou que hoje “estamos vendo consecutivamente os investimentos de grande volume no Brasil pelas empresas japonesas” E citando dados da Camex do Ministério da Economia, lembrou que em relação aos investimentos no Brasil pelos países estrangeiros no terceiro trimestre deste ano, o maior país investidor foi o Japão, que investiu por volta de 4 bilhões e 200 milhões de reais”
“Aproveitando o avanço das reformas no Brasil, desejo estreitar ainda mais a relação econômica dos dois países e realizar juntos um maior desenvolvimento em 2020. Quero mencionar aqui as duas medidas para isto. O primeiro é sobre o Acordo de Parceria Econômica (APE) entre Japão e Mercosul. Caso acordado, irá contribuir não apenas para a redução tributária sobre os produtos importados e exportados, mas também para a ampliação geral das atividades econômicas, inclusive para a melhoria do ambiente de negócios como a facilitação dos processos alfandegários e administrativos”. A outra medida é a cooperação cobre a utilização do nióbio e do grafeno entre os recursos minerais abundantes no Brasil. Para a utilização deles, pretendo promover cooperações juntando as tecnologias do Japão e do Brasil”.

Inovação – Quanto a outra oportunidade relacionada com o pilar de “Progredir Juntos” é a inovação. E citou dois projetos projetos de cooperação do Brasil e Japão, nos quais se utiliza a inovação. “Em primeiro lugar, o Japão decidiu cooperar com o Brasil para combatermos desmatamentos ilegais da floresta da Amazônia, utilizando o satélite e a inteligência artificial”. “Em segundo lugar, o Japão decidiu iniciar uma cooperação no Brasil para a introdução da “Agricultura de Precisão”, em que se utilizam a inteligência artificial, big data, drone entre outras tecnologias. Será possível estudar o estado de crescimento dos produtos agrícolas”, disse , afirmando que a introduçãoda Agricultura de Precisão poderá aumentar produtividade e lucratividade”.
Em relação ao segundo Juntos, “Liderar Juntos”, Akira Yamada destacou que “Japão e o Brasil compartilham os mesmos valores fundamentais como liberdade, democracia, respeito aos direitos humanos e estado de direito entre outros”. Como sugestão, apontou quatr áreas que podem ser promovidas este ano. A primeira é o Japão e o Brasil façam parte dos novos membros permanentes na ONU, que completará 75 anos em 2020. “Para realizar esta reforma, continuamos com a cooperação dos nossos países sob o regime do G4, composto por Japão, Brasil, Índia e Alemanha”, disse, acrescentando que a segunda área é a cooperação na OMC (Organização Mundial do Comércio) e a terceira é a cooperação para atingir a meta do ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável).
Por fim, a quarta área é “a cooperação para segurar o estado de direito e a liberdade de navegação”. “O Japão e o Brasil vieram gozando suas prosperidades por meio do livre-comércio sob a condição do mar livre. O estado de direito e liberdade de navegação são as fundamentais e os nossos países estão cientes dessa importância. De acordo com esse pensamento, o Japão está promovendo “Free and Open Indo-Pacific Ocean (Oceano Indo-Pacífico livre e aberto)”. Esta é uma concepção em manter a paz e a estabilidade na região Indo-Pacífica, por meio: (1) da difusão e fixação do estado de direito, da liberdade de navegação, do livre-comércio entre outros; (2) da procura da prosperidade econômica por meio da promoção da infraestrutura de alta qualidade e conectividade entre outros; (3) dos apoios para o estabelecimento da habilidade – “Capacity Building” dos países do oceano Indo-Pacífico entre outros. Esta forma de pensamento seria universal e poderia ser aplicado para qualquer lugar no mundo, não só para a região Indo-Pacífica”.

Palestra aconteceu na Japan House São Paulo para um público seleto (Jiro Mochizuki)

Inspirar Juntos – E sobre o o último pilar dos “Juntos”, que é “Inspirar Juntos”, ressaltou que um dos trabalhos mais importantes do embaixador do Japão no Brasil é a promoção do intercâmbio entre Brasil e Japão em várias áreas. E destacou “duas boas oportunidades em 2020: os Jogos Olímpicos e Paralímpicos em Tóquio e os 30 anos da comunidade brasileira no Japão.
O embaixador explicou que “na na palavra ‘Juntos’ sugerida no discurso do primeiro-ministro Abe, se inclui o sentimento de que estamos Juntos com os países da América Latina como o Brasil, e queremos caminhar e trabalhar Juntos como amigos e parceiros. Isto é exatamente o mesmo sentimento que tenho pois me dediquei aos assuntos dos países da América Latina por um longo tempo”, disse Yamada, destacando que “hoje em dia, a relação entre Brasil e Japão está excelente, mesmo assim, eu acredito que podemos aprofundar ainda mais em várias áreas.
“Ainda há muita coisa a fazer para concretizar isso”. E finalizou sua fala com uma frase positiva: “O melhor momento da nossa relação bilateral ainda está por vir!”.
Para ler a palestra na íntegra acesse: https://www.br.emb-japan.go.jp/files/000554160.pdf

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