ELEIÇÕES 2020: Sem eventos presenciais e ‘mais digital’: pandemia ‘impõe’ uma nova realidade para candidatos nikkeis

Neste ano, número de candidatos a vereador na capital paulista é o maior desde 2008 (Afonso Braga/Rede Câmara)

No próximo dia 15 de novembro, cerca de 147,9 milhões de eleitores devem ir às urnas para escolher os novos prefeitos, vice-prefeitos e vereadores em 5.568 municípios brasileiros. Somente no Estado de São Paulo, maior colégio eleitoral do país com 33.565.294 eleitores – sendo 8.986.687 apenas na Capital – serão 2.649 candidatos a prefeitos, 2.665 a vice e 87.404 a vereadores (os números ainda estão sujeitos à alteração) nos 645 municípios. Neste ano, mesmo diante das dificuldades, segundo dados do TSE – Tribunal Superior Eleitoral – quase dois mil candidatos pediram registro no TSE para a Câmara Municipal de São Paulo..
Entre os nikkeis, conforme apurou o Jornal Nippak, 19 candidatos buscam uma das 55 cadeiras na maior casa legislativa municipal do país. O número é pouco menor que os 24 que concorreram em 2016 e dos 26 que saíram em 2012. Desses, quatro tentam a reeleição: Masataka Ota (PSB), Rodrigo Goulart (PSD), George Hato (MDB) e Aurélio Nomura (PSDB), Ushitaro Kamia (PODE), já esteve lá e quer voltar.
Em comum, o mesmo desafio: vencer não só a desconfiança dos eleitores – cada vez mais exigentes – como também superar as adversidades impostas pela pandemia do novo coronavírus, que obrigou até mesmo a mudança do calendário eleitoral deste ano.

Watanabe, do Democratas

Apoio – Empresário do ramo de materiais de construção na zona Norte de São Paulo, Humberto Yudi Watanabe (DEM), de 54 anos, disse que este ano está confiante, pois “conto o com apoio do vice-governador Rodrigo Garcia e com o suporte de muitas lideranças da região, da sociedade civil organizada e de uma equipe de profissionais qualificados que está preparada para essa nova experiência eleitoral”.
Watanabe, que concorreu em 2000, em 2010 e em 2016 obteve 9.336 votos para vereador, concorda que esta eleição será uma das mais “complicadas” dos últimos anos. “Acredito que essa eleição terá muitos desafios, principalmente, por causa da campanha através das redes sociais. Temos que lidar com a verdade, pois não estamos livres das fake news, mas uma campanha verdadeira e sincera é vencedora”, explicou ele ao Jornal Nippak, acrescentando que, em função da pandemia, o número de abstenções nessas eleições deve ser alto.
Apesar disso, ele espera que, no seu caso, seja diferente. “Tenho uma previsão, baseada no trabalho que venho realizando com minha equipe e parceiros, de um aumento de 5 vezes maior de votos nessa eleição”, disse, afirmando que, além do impactro na vida cotidiana, a pandemia trouxe um grande efeito negativo para a ecnomia, que ficou paralisada. “Claro que precisamos cuidar da saúde das pessoas, mas temos que dosar as questões, pois a recessão bateu na porta do mundo todo trazendo muito desemprego. Não podemos ter mais prejuízos no comércio e diminuir ainda mais a renda do brasileiro”, disse Watanabe, afirmando que, sem os grandes eventos presenciais, a tendência é que haja também um diminuição no corpo a corpo dos candidatos.
“O candidato a vereador que trabalhar com a verdade, com abordagem de problemas reais da população será compreendido e vai sair eleito. Quem já tem mandato, tem seu público seguidor”, concluiu.

Ushitaro Kamia, do PODE

Desafio – Para o ex-deputado federal e ex-vereador, Ushitaro Kamia, de 74 anos, a expectativa para as próximas eleições é positiva, apesar do ano atípico. Isso porque, segundo ele, as mudanças nas regras e na própria legislação – como o fim das coligações proporcionais – deve criar um novo cenário nessa concorrência e “poderá mudar a interlocução com a Prefeitura”. “O vereador não entra mais com a votação expressiva de outro candidato”, observa Kamia, que também tem seu reduto na zona Norte da Capital.
Para ele, o cenário promete ser desafiador. “Acredito que as eleições serão definidas no cenário digital, com ética, transparência e criatividade. Mas ainda creio no corpo a corpo, só que não mais de forma aberta. Precisamos nos adequar às regras impostas pela pandemia”, esclareceu o candidato, afirmando que “passamos em 2018 por uma mudança de paradigmas”. “O   ‘gigante’ despertou e se levantou. O povo está bem mais politizado e atento. Não temos mais espaço para a velha política, à la ficha suja”, disse, que também prevê um aumento do número de abstenções, “obedecendo, claro, as especificidades de cada local”.
“Muitas pessoas não estão atentas à disputa eleitoral, mas preocupadas com o covid-19 e com a situação financeira. Por isso, mais que pedir voto, precisamos conscientizar o eleitor da importância desse exercício de cidadania, do porquê votar”, explica Kamia, que acredita que haverá uma renovação na Câmara Municipal para os próximos quatro anos, assim como ocorreu na eleição de 2016, que apresentou um índice de renovaçãopna casa dos 40%.
E cita “o conceito de monomito desenvolvido pelo antropólogo Joseph Campbell, que “se encaixa neste contexto de campanha”. “Quem apresentar um trabalho, no límbico e em consenso, tanto em projetos, quanto em obras realizadas, sairá na frente. Mas é verdade que as eleições 2020 serão marcadas por incertezas. Por isso, coloco minha vida nas mãos de Deus. Ele está acima de tudo e de todos”, finalizou.

George Hato, do MDB

Mudança de comportamento – George Hato, que busca seu terceiro mandato, também esta confiante na reeleição. “Trabalhamos muito as demandas da comunidade japonesa e por ser médico, atuei intensamente para humanizar o sistema de saúde da nossa cidade. Só neste último ano, reformei cinco UBSs e fui o parlamentar que mais destinou recursos para o combate do coronavírus”, diz, lembrando que desde o primeiro ano como vereador, “investi na prevenção de doenças através do esporte”. “O esporte traz inúmeros benefícios à saúde física, mental e também direciona os jovens para um futuro melhor”, conta, explicando que os candidatos terão que se adaptar a uma campanha “mais virtual, sem aglomerações e eventos, com estávamos acostumados nas festas da comunidade japonesa”.
“Trocaremos o abraço caloroso por palavras à distância”, afirmou George, destacando que, “se por um lado a pandemia trouxe consequências negativas para a sociedade, como os mais de um milhão de mortos, economia fragilizada, superlotação do sistema de saúde e desemprego”, por outro também trouxe consequências positivas. Entre elas, destaca a mudança de comportamento da sociedade, pessoas mais preocupadas com a prevenção de doenças, maior valorização dos momentos com a família, amigos e as coisas simples e verdadeiras da vida e maior respeito ao idoso.
“Em relação à esses pontos negativos, o poder público tem uma papel fundamental e é nisso que estamos focados: trabalhar por uma saúde mais humanizada e capacitada para atender a população e no fortalecimento do esporte e da cultura, dois vetores econômicos mal explorados, que podem gerar muitos empregos e renda para a população”, afirmou.

Aurélio Nomura, do PSDB

Internet – Em busca de seu sétimo mandato, Aurélio Nomura acredita que estas eleições serão as mais difíceis dos últimos tempos. “A pandemia do covid-19 impôs a todos nós uma nova realidade e novos comportamentos. A maneira como vinham sendo feitas as campanhas teve de ser completamente modificada. Por conta do distanciamento, estão proibidos os eventos, onde podíamos levar nossa mensagem a um grande número de pessoas; as pessoas também estão evitando pegar panfletos na rua, dificultando a distribuição do material de campanha”, disse o parlamentar tucano, acrescentando que “fomos obrigados a encontrar novos caminhos para chegar até os eleitores, e um deles é por meio da internet.”
“Essa deverá ser a principal ferramenta de campanha”, conta, afirmando que além da dificuldade de chegar até os eleitores, a pandemia trouxe outra dificuldade nessas eleições. “Há a preocupação da população com a própria pandemia. Uma parcela dos eleitores que faz parte do grupo de risco, por exemplo, está resistente em votar para não se expor ao risco de se contaminar com o covid-19. Essa preocupação é legítima e o TSE está tomando todas as medidas necessárias para garantir a segurança sanitária. Mas é fundamental participarmos das eleições, pois elas vão resultar em novas e significativas mudanças na nossa cidade”, diz Aurélio, lembrando que os eleitores do grupo de risco poderão votar no horário preferencial, das 7h às 10h.
Ele cita ainda um levantamento feito pelo O Globo para explicar porque espera uma queda geral no número de votos em função da pandemia. “A partir de estatísticas do TSE, a participação de eleitores entre 16 e 17 anos no pleito municipal será a menor desde 1990. A baixa adesão já vinha sendo observada nos últimos anos, mas se intensificou em 2020 devido a pandemia do covid-19. Uma das explicações para isso é que a Justiça Eleitoral, apesar de ter adiado a data das eleições, não estendeu o prazo de emissão dos títulos encerrado em maio quando diversas cidades, entre elas São Paulo, já adotavam medidas de isolamento social”, afirma Aurélio Nomura.

Rodrigo Goulart, do PSD

Mais digital – Quem também está confiante e aposta no trabalho das redes sociais é Rodrigo Goulart, que cumpre atualmente seu primeiro mandato. “Temos um canal aberto com a população onde recebemos milhares de solicitações todos os dias, isso mostra que os eleitores estão participando mais dos mandatos e estão mais atentos aos serviços prestados para a cidade, o que pode refletir em votos mais conscientes”, disse Rodrigo, filho do ex-deputado federal Goulart e de Márcia Hayashi Goulart.
Para ele, a pandemia tornará a campanha deste ano ainda mais digital do que presencial. “Isso se torna uma incógnita para nós que estamos acostumados a estar na rua o tempo todo”, admite, afirmando que, a ausência dos grandes eventos presenciais não representa uma vantagem dos candidatos com mandato. “Os eleitores estão mais antenados e tem a maior ferramenta de pesquisa nas mãos, com isso podem se informar sobre qualquer pessoa de forma muito fácil. Da pra saber quem trabalhou nesses quatro anos e quem tem propostas reais que podem, de fato, se tornar realidade”, diz Rodrigo Goulart, que acredita que haja talvez uma queda proporcional para todos os candidatos. “Muitas pessoas podem ainda não se sentir confortáveis para sair de casa e votar”, justifica.

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