Cultura Japonesa 9 “PAI DOS IMIGRANTES” Shuhei uetsuka

 “PAI DOS IMIGRANTES”

Shuhei uetsuka

Texto de Kohei osawa

Referência: IMIN NO ChIChI UETSUkA ShUhEI kOyA NO hITO (Shuhei Uetsuka, Pai dos Imigrantes – O homem da Mata Selvagem), Toru Nomio, Nippak Graphics, 2007; UETSUkA ShUhEI ITSUWA (Episódios de Shuhei Uetsuka), Suteo Saito, Shueisha, 1968; NOROESUTE hOJIN hATTENShI AyUMI (Ayumi – História da Colônia Japonesa na Região Noroeste), Tomin Nakamura, Companhia Impressora Paulista Ltda., 1962

 

Registro, Tomé Açú, Bastos, Pereira Barreto… São diversas as cidades que, no início, eram colônias de imigrantes japoneses e se desenvolveram. Entre elas, destaque especial deve ser

dado à cidade de Promissão, “Pátria dos Imigrantes”, si tuada na região noroeste do Estado de São Paulo. Ela comemora este ano o aniversário dos cem anos de colonização, a ser celebrada juntamente com o dos 110 anos da Imigração Japonesa.

As expectativas na cidade cresceram com a confi rmação ofi cial da Casa Imperial do Japão da vinda da princesa Mako para as comemorações, incluindo Promissão.

Promissão começou como colônia de Itacolomí (1ª Colônia Uetsuka), por iniciativa de Shūhei Uetsuka (1876 ~ 1935) –pioneiro notável, o menos contestado “pai dos imigrantes” entre todos os pioneiros da comunidade japonesa, por todos querido. Suas realizações são ainda hoje lembradas e transmitidas de geração a geração entre a comunidade japonesa no Brasil. A municipalização da colônia começou em 1924.

A imigração japonesa se deu a apenas 20 anos da libertação dos escravos pela Lei Áurea em 1888. Nessa época, muitas das fazendas de café tratavam ainda os colonos como escravos. Os imigrantes japoneses não suportavam esse tratamento, e começavam um após outro a escapar das fazendas à sombra da noite. Haviam decidido emigrar ao Brasil ludibriados pela propaganda enganosa, de que “no Brasil o dinheiro dava em árvores”. Atônitos e revoltados ante a realidade brutalmente diversa da imaginada, abandonados e reduzidos à miséria em um país estranho, foi Uetsuka quem lhes estendeu a mão para conduzi-los a uma vida mais segura. Nessa fase inicial da imigração, 90% dos imigrantes pensavam tão somente em “trabalhar por 5 ou 10 anos no Brasil, juntar fortuna e regressar com honra ao Japão”, sonho obviamente inviável enquanto se ralassem no trabalho escravo. Precisavam agregar-se, construir uma comunidade de agricultores independentes, sem dever favores a ninguém, se quisessem alcançar o sonho de suas vidas. A saída era construir uma colônia.

Na América do Norte dos anos 1800, o “Go West! (Ao Oeste!)” era a ordem do dia. O país se desenvolvia velozmente com a construção da estrada de ferro transcontinental, que saindo da costa oriental, alcançava a Califórnia, na costa oposta, cortando o extenso território nacional. No Brasil, a Estrada de Ferro Noroeste era a versão brasileira da ferrovia americana. Essa extraordinária obra de infraestrutura realizada na primeira metade dos anos 1900 ligou o porto de Santos a Campo Grande, capital do Estado de Mato Grosso do Sul, abrindo caminho ao desbravamento e desenvolvimento das terras do interior.

Na região Noroeste do Estado de São Paulo, servida por essa ferrovia, os imigrantes amealhavam recursos trabalhando como agricultores independentes e enviavam seus filhos à capital para que pudessem prosseguir estudos em universidades, ou então a outros Estados, como Paraná e Mato Grosso, além de Brasília e outras regiões, à procura de novos territórios para desbravar. Com isso a região se transformou em preciosa cabeça de ponte para a expansão do país nessa fase inicial da história da imigração.

Uetsuka merece ser chamado de “Pai da Imigração” não apenas pelo que fez, senão também pela integridade de caráter que demonstrou através da vida de austera pobreza. De fato, sacrificou-se pelos imigrantes, aos quais se entregou integralmente, e passou a levar um padrão de vida igual ou até inferior a eles, o que lhe valeu o respeito até hoje a ele devotado.

Jurista formado pela Universidade Imperial de Tóquio, tida até o presente como a máxima instituição educacional do Japão, Uetsuka embarcou em 1908 no Kasato-Maru, o primeiro navio de imigrantes. Vinha ao Brasil assumir o cargo de representante regional da Companhia Imperial de Imigração (Kōkoku Imin Gaisha). Com a falência dessa empresa, regressou uma vez ao Japão. Mas a sua inabalável convicção de que o futuro do Japão estava no além-mar o fez regressar ao Brasil como um imigrante comum, com firme propósito de levar a cabo o empreendimento da emigração. O turrão sangue quente de Higo jogava a vida pelo ideal de construir no Brasil uma comunidade bem sucedida de japoneses.

Sonho de se lançar em terras estrangeiras

Uetsuka nasceu em 12 de julho de 1876 em Kyūshū, distrito de Mashiki, Província de Kumamoto, de uma família de samurais. Um excêntrico notório desde a infância, formou-se em Direito pela Universidade Imperial de Tóquio. Intrépido, ativo e esperto, nunca deixava de executar o que decidira uma vez.

Um episódio revela a impetuosidade desregrada da sua juventude: certa vez, nos meados do período de guerra sino-japonesa (1894 ~ 95), lançou-se ao além-mar para tentar sucesso em Taiwan. Vislumbrara uma chance de contribuir para o desenvolvimento do Japão em novas terras, e para lá se dirigiu afoitamente com 23 companheiros de Kumamoto. No entanto, o navio em que viajavam acabou levado à deriva às Ilhas Pescadores, território taiwanês a meio caminho da China, onde foram submetidos ao comando do exército japonês, que então ocupava Taiwan. A certa altura, o vírus da cólera se espalhou no porto onde haviam chegado, muito movimentado e sem instalações sanitárias, dizimando um após outro os seus companheiros infeccionados.

Por fim, a virose atingiu o próprio Shūhei Uetsuka, que foi encontrado por um soldado da marinha japonesa caído à beira do caminho. Salvou-se por um milagre, mas não havia como se desculpar junto às famílias dos companheiros falecidos. Por fim resolveu enviar um telegrama à sua família com a falsa notícia de que morrera. Pensou nessa hora em jamais retornar à sua terra diante de tamanho fracasso. No entanto, reconsiderou e acabou voltando.

Em sua casa, a tristeza envolvia família e parentes. O funeral não estava ainda marcado, a situação era muito confusa. Foi quando Shūhei lhes apareceu de repente, em carne e osso enquanto todos o tinham como morto. Conta-se que o susto foi enorme, julgavam ter diante dos olhos uma aparição do outro mundo.

Em 1907, Shūhei se formou pela Universidade Imperial de Tóquio depois de 8 anos de indecisão. Tratava-se, sem dúvida, da mais conceituada instituição de ensino do Japão, que prometia aos formados um brilhante futuro e lhe abria as portas à elite da sociedade japonesa. Não obstante, a hesitação persistia mesmo após a formatura. Abraçar uma carreira no funcionalismo ou no comércio não se coadunava com seu caráter e não lhe agradava. Entregou-se à indolência em sua casa, sem procurar emprego. Não conseguia esquecer o sonho de realizar-se no exterior. Um conhecido o apresentou então a Ryō Mizuno, que presidia a Companhia Colonizadora Imperial (Kōkoku Shokumin Gaisha) e procurava um representante da empresa que pudesse ao mesmo tempo acumular o cargo de supervisor de transporte.

O encontro foi providencial. Avaliando a situação após a guerra Russo-Japonesa, Uehara acreditava que

“… o povo japonês não terá chance de progresso em regiões superpovoadas como a Coreia e a Manchúria, mas no Novo Mundo, ora em processo de desbravamento pela civilização ocidental. É onde devo abrir novas fronteiras, esta é a minha missão.”

A partida do primeiro navio da imigração Kasato Maru do porto de Kōbe, prevista de início para 12 de abril de 1908, acabou se dando em 21 desse mesmo mês. O navio fora retido pelo ministério do Interior porque a Companhia não dispunha de fundos para efetuar o depósito do seguro de viagem exigido na partida, cujo valor fora elevado pelo ministério às vésperas. Às pressas, a companhia recorreu a um subterfúgio: guardou o dinheiro dos imigrantes e desviou-o à socapa para o pagamento do seguro exigido. Feito isso, partiram finalmente, embora com atraso.

Durante a viagem, cenas de extrema selvageria quase ocorreram a bordo do Kasato Maru, quando marinheiros começaram a ameaçar as jovens. Nessa ocasião, consta que Shūhei pôs sua vida em risco admoestando-os:

“Se alguma impropriedade ocorrer nesta primeira viagem, a emigração será encerrada. Sem a política de emigração, o Japão entrará em colapso. Se vocês são japoneses, pensem no futuro do seu país e comportem-se a bordo. É obrigação dos marinheiros entregar em segurança os passageiros no destino. Se querem praticar arbitrariedades, matem-me antes. Eu me sacrifico de boa vontade por estes emigrantes.”

O episódio revela o comprometimento de Shūhei, um patriota, com a emigração.

Com frequência, Shūhei compunha haikai sob o pseudônimo “Hyōkotsu”, retratando as emoções do momento. O haikai a seguir foi composto em 18 de junho, quando os imigrantes do Kasato Maru desembarcaram em Santos. Nesse dia, celebrava-se o feriado de Corpus Christi. A cidade festejava soltando fogos, até parecia em recepção a eles. Shuhei retratou essa sensação:

“Fogueira na primeira noite no Brasil, um festival”

Um cálice de fel

Os 792 imigrantes que vieram no Kasato Maru foram distribuídos em 6 fazendas da região da Estrada de Ferro Mogiana, no Estado de São Paulo. Aguardava-os uma realidade cruel, nunca

imaginada.

As condições de trabalho nas fazendas de café eram péssimas. Para agravar, o rude ambiente de vida e a diferença de língua, hábitos e costumes impediam entabular entendimentos com os fazendeiros, levando os imigrantes à fuga incessante. A propaganda da Companhia Colonizadora, divulgada antes da viagem, alardeava que seria possível colher de quatro a cinco sacas de grãos de café (60 kg por saca) por dia por pessoa, mas na realidade, nem mesmo uma família de 3 pessoas conseguia colher sequer uma saca, em parte porque eles haviam chegado atrasados a São Paulo, quando o pico da colheita já passara. Para agravar, a colheita esse ano havia sido ruim. Imediatamente, os imigrantes começaram e reclamar. Shūhei e sua equipe correram para as fazendas. Em todas elas, a insatisfação fervia.

Regressando ao escritório da Companhia em São Paulo, Shūhei se jogou na cadeira abatido. Rokurō Kayama, secretário da empresa, lhe perguntou sobre a situação nas fazendas. Shuhei respondeu envolvendo a cabeça entre as mãos:

“Todos reclamam que não podem comer. Com razão, daquele jeito, não dá mesmo.”

Em setembro de 1909, só 191 imigrantes permaneciam ainda nas fazendas onde foram inicialmente distribuídos.

A insatisfação foi toda ela dirigida contra Shūhei, representante regional da Companhia Colonizadora Imperial. O dinheiro que os imigrantes deixaram sob os cuidados da empresa, a ser restituído a eles ao chegar em Santos, não lhes fora devolvido. Havia sido desviado para pagar o seguro exigido pelo ministério do Interior do governo japonês. Ryō Mizuno contara devolvê-lo com a verba do auxílio de custo de viagem proporcionada pela secretaria de Agricultura do Estado de São Paulo, a ser liberada na chegada dos imigrantes na cidade. Entretanto, por causa do atraso na partida de Kōbe, eles acabaram chegando em meados de junho já fora da temporada da colheita, causando crise de mão de obra, agravada ainda pelo baixo índice de fixação dos imigrantes nas fazendas. Com isso, a secretaria suspendeu a concessão da verba, deixando a Companhia sem recursos para devolver o dinheiro aos imigrantes, pelo menos a curto prazo.

Sobre isso, Mizuno não fornecera informação alguma a Shūhei, mas esse homem jamais abriria a boca para dizer “não sei”. Anos mais tarde, Mizuno arrumou dinheiro e tentou devolvê-lo aos imigrantes, e de fato o devolveu aos que tinham paradeiro conhecido. Mas muitos imigrantes haviam fugido não se sabia para onde. Assim, em muitos casos, a devolução não foi realizada, segundo dizem.

Seja como for, Shūhei continuou curvando a cabeça aos imigrantes tratando-os com honestidade e paciência, garantindo que “em breve, o país devolverá o dinheiro”, e pedindo para que aguardassem. Percorria fazenda por fazenda intermediando atritos com os fazendeiros e até debelando greves, animando-os a serem pacientes até o término do contrato de trabalho nas fazendas.

Revolta na Fazenda Dumont

Na Fazenda Dumont, uma das que receberam imigrantes japoneses, a insatisfação se tornava cada vez mais violenta. Shūhei recebeu em 1º de agosto convocação urgente do dono da fazenda e se dirigiu para lá. Por sete dias, tentou apaziguar os ânimos, mas foi inútil.

Em 23 de agosto recebeu nova mensagem da fazenda avisando que “os imigrantes estavam agitados e não se acalmavam”. Mizuno e Uetsuka seguiram imediatamente para o local. Encontraram os imigrantes com lanças de bambu, enxadas e foices nas mãos, em estado de intensa agitação.

Eles acusavam:

“Comemos pão duro como pedra, papa de arroz acompanhado de sal, trabalhamos literalmente desde a madrugada com as estrelas no céu até o anoitecer quando regressamos para casa sob o luar para recebermos um parco pagamento de apenas 500 réis ou 1 mil réis. A companhia de imigração se aproveitou de nós. A raiva está provocando briga entre casais: por que você me trouxe aqui, me leva de volta ao Japão amanhã. O vizinho convocou reunião familiar. Não vamos trabalhar amanhã. Acabou o arroz. Vamos matar um boi da fazenda para comê-lo. Malditos funcionários da companhia de imigração. Vamos atravessá-los todos com a lança de bambu.”
Compilado da revista “Nōgyō no Burajiru” (O Brasil Agrícola) vol.3 nº 8

Um grito pungente saído do fundo d’alma recebia Shūhei e acompanhantes, sensibilizando até a equipe da Companhia Colonizadora. Descendo do cavalo em que viera montado, Shūhei se dirigiu a eles:

“Cabe a nós a responsabilidade por deixá-los nesta situação crítica de hoje. Não encontro palavras para me desculpar, mas nós nos empenhamos até hoje em trazer-lhes a felicidade. Infelizmente, enfrentamos um surto de depressão econômica, e como se não bastasse, a má colheita do café. Os nossos desejos não puderam ser cumpridos por essa razão, provocando sofrimento nos senhores. Se querem que eu pague com minha vida, digo-lhes que desde o início nunca a tive em muito apreço. Mas peço-lhes por favor, me deixem viver mais um pouco para que possa dedicá-la a vocês. Eu lhes prometo dar a vida por vocês.”
Idem acima

Disse, curvando a cabeça. Depois, Shūhei e sua equipe recolheram os 210 imigrantes dessa fazenda para a Hospedaria dos Imigrantes de São Paulo, após negociar com o governo a transferência.

A vida de Shūhei depois desse incidente se pautou em seguir à risca o que ele declarara: “Peço-lhes por favor, me deixem viver mais um pouco para que possa dedicá-la a vocês. Eu lhes prometo dar a vida por vocês.”

Do fundo do poço, para se tornar um simples imigrante

Nessas idas e vindas, a Companhia Colonizadora Imperial acabou por entrar em falência. Shūhei fechou o escritório regional e se viu desempregado e sem salário. Legista graduado pela Faculdade de Direito da Universidade de Tóquio, se expunha à profunda miséria, tendo que viver à cata de migalhas nas ruas para se alimentar.

Passava os dias sobrevivendo com os parcos lucros obtidos da venda de brinquedos como libélulas de bambu e balões de papel que ele mesmo fabricava. Atraídos pelo seu gênio bondoso, imigrantes fugidos das fazendas e sem ter para onde ir juntavam-se aos poucos ao seu redor. Shūhei se pôs à procura de emprego a eles com todo empenho, pedindo-lhes em troca que enquanto isso, o ajudassem a confeccionar os brinquedos. Depois, regressou uma vez ao Japão em 1914, convocado pela empresa comercial Takemura Shōkai que sucedeu a Companhia Colonizadora Imperial. No Japão, Shūhei foi morar em uma favela e continuou a refletir sobre as causas do fracasso da emigração. Ocupou-se ativamente em juntar capital necessário para construir uma comunidade no Brasil, e assim beneficiar os imigrantes perdidos nessas terras estrangeiras. Um amigo, Keijirō Kikuchi, lhe prometeu arrumar um capital de 65 mil ienes. Em 1917, confiando nessa única promessa, Shūhei voltou a cruzar os mares, desta vez como simples imigrante, a bordo do navio Wakasa Maru.

Consta que, quando Uetsuka desembarcou em Santos, ele mal possuía dinheiro suficiente para comprar cigarro. Viera praticamente sem um tostão no bolso. Em carta enviada ao irmão mais velho, antes da partida, dizia:

“Tenho a intenção de dar a vida para construir uma moderna vila rural japonesa no extenso território brasileiro. Meu único desejo é levar de qualquer maneira a emigração ao sucesso para o bem dos compatriotas que se acham fora do país. Não tenho a mínima intenção de deixar patrimônio quando morrer.”

São linhas que revelam a força da sua inabalável decisão.

A construção da Primeira Colônia Uetsuka

A notícia do regresso de Shūhei se espalhou em um instante entre os imigrantes em situação desesperadora, incutindo-lhes coragem. Sem tardança, Shūhei se pôs em ação, como se pretendesse evitar desperdício de tempo. Já estava com mais de 40 anos de idade. Na busca de possíveis opções para a escolha do sítio da colônia, recebeu ajuda do seu amigo Sutezō Misumi, vice-cônsul japonês,

que arcou com as despesas necessárias. Viajou por Paraná, Minas, até Goiás, tendo por conselheiro Teijirō Suzuki, famoso pioneiro entre os imigrantes, chegando por fim ao local escolhido: a atual cidade de Promissão.

A região, situada a 5 km ao sul da Estação Hector Legru, possuia boa infraestrutura viária. A terra, fértil pelo acúmulo de folhas caídas através de longos anos, era também apropriada para a futura mecanização da agricultura. Notavam-se na região restos de uma aldeia Guarani, o que levou Shūhei a ponderar que em área como essa, o risco de ocorrência de doenças epidêmicas como a temida malária poderia ser reduzido.

Durante o período de regresso ao Japão, Shuhei teria frequentado cursos de administração da agricultura e de colonização. Teria acumulado conhecimentos para não repetir o fracasso anterior, e escolhido o terreno em Promissão com base nesses conhecimentos.

Em 1918, Shūhei reservou 1400 alqueires de terreno nessa região e dividiu-os em terrenos de 10 alqueires, para lotear. Procurou os antigos companheiros espalhados por todos os lados, propondo a eles: “Vamos construir uma comunidade de japoneses” e “Não quer comprar um terreno?” Os interessados começavam a chegar. Com o pagamento inicial como investimento, assumiam contrato de aquisição com o proprietário do terreno, e assim nascia a “Colônia de Itacolomí” (Primeira Colônia Uetsuka).

Honrosa pobreza

Shuhei Uetsuka (sentado, em frente à direita) numa cena de confraternização com os colonos, com a pilha de garrafas de cerveja (Imin no Chic hi Uetsu ka ShUhei , Kōya no Hito : Shuhei Uetsuka, Pai dos Imigrantes – O Homem da Mata selvagem), Toru Nomio, Nippak Graphics, 2007)

Entretanto, a maior parte dos imigrantes não possuía recursos suficientes para poderem pagar pelos terrenos com pontualidade. Mesmo assim, Shūhei não deixou de confiar neles, e aceitou-os como colonos sob a condição de que pagariam quando pudessem. Mais ainda, deixou que adquirissem produtos alimentícios na loja da colônia a crédito para pagamento posterior, servindo-se ele próprio de fiador.

Contabilizando as despesas referentes ao levantamento topográfico para o loteamento, à alimentação do grupo de vanguarda, e ao levantamento de capital, o saldo ficava negativo. Fazia-se necessário injetar capital adicional para solucionar a situação, e isso lhe rendia novas preocupações. Resolveu vender parte do terreno para o pagamento das dívidas, nisso auxiliado por Teijirō Suzuki, Rokurō Kōyama e Sasaichi Mazaki.

Assolado por contínuas crises financeiras, esteve a ponto de perder o terreno. Socorreu-o nessa hora Keijirō Kikuchi, que acudiu de Tóquio trazendo os 35 mil ienes prometidos. O encorajamento contínuo e o auxílio desprendido que Kikuchi lhe devotou desde os tempos no Japão fazem parte da bela história de amizade entre os dois, que merece ser perpetuada pela posteridade.

Mas o desenvolvimento da colônia não se realizou de vento em popa. Durante o primeiro ano, ela foi assolada por uma geada sem precedentes. No segundo ano, assaltou-a uma nuvem de gafanhotos. Em 1924, durante o sexto ano, sofreu os efeitos da Revolução do Isidoro ocorrida no Estado de São Paulo, e nos anos seguintes, de 1925 a 1926, enfrentou também a seca. Nessa época, os colonos haviam recorrido a usurários para obter financiamento do capital necessário à administração da lavoura, e se encontravam em beco sem saída. Para socorrer os companheiros agricultores independentes, Shūhei, em colaboração com Ken-ichirō Hoshina,

iniciou a célebre “Campanh a 85 de Juros Reduzidos”. Negociando com o Consulado e a Embaixada do Japão, conseguiu com sucesso extrair um crédito de 850 mil ienes a juro reduzido do governo japonês, no oitavo ano. Com isso, impediu que muitos colonos decaíssem socialmente, e conduziu à segurança o incipiente movimento entre os imigrantes japoneses pela agricultura independente.

Contudo, expôs-se a calúnias improcedentes. Saku Miura, do Nippaku Shinbun (Jornal Nippaku) o chamou de “corretor de terrenos”, mas Shūhei se manteve sempre humilde e levou a cabo o financiamento conseguido. O esgotamento tanto físico como espiritual se acentuava e, segundo dizem, passou a consumir cachaça em quantidades maiores por volta dessa época.

Aqueles que viveram a época dizem que na colônia, Shūhei costumava beber e se alimentar pobremente. Mais parecia pedinte que agricultor. Preocupados, alguns colonos lhe traziam comida, mas ele ralhava: – “Em vez de cuidar de mim, tratem de trabalhar para si!” – e rejeitava resolutamente qualquer ato de bondade dos companheiros. Percorria as plantações para encorajar os colonos, distribuía balas para as crianças que choravam, era a própria imagem do bom velhinho do interior.

Os colonos começavam a devotar um respeito cada vez maior a esse Uetsuka, que se restringia a uma vida de honrosa pobreza, desprezando seus próprios interesses em favor dos colonos. Eles puderam se dedicar inteiramente ao progresso da comunidade, sem se deixar vencer por obstáculos antepostos por doenças, insetos ou seca porque houve um líder abnegado. Graças a ele, Promissão comemorou os 20 anos de colonização com toda prosperidade. Desenvolveu- se a ponto de contar, em um período, com mais de 1500 famílias de colonos.

A construção da Segunda Colônia

Na Primeira Colônia Uetsuka, o café cresceu bem, assegurando um futuro promissor. A seguir, Shūhei reservou outros 3 mil alqueires em Guaimbê, nova região em desbravamento e em franco desenvolvimento entre Lins e Marília. Iniciou a venda dos lotes em janeiro de 1923 para constituir a Segunda Colônia Uetsuka, que foram esgotados no final do ano seguinte. Nessa colônia ingressaram 520 famílias totalizando mais de 3.000 pessoas, uma populosa comunidade.

Os colonos, enquanto se dedicavam à agricultura, construíram no centro da comunidade uma escola para crianças, um templo e um parque onde a população pudesse se reunir. A vila japonesa longamente sonhada por Shūhei tomava contornos concretos. A cidade de Guaimbê começou assim como uma colônia, e é hoje uma cidade em franco progresso.

Em 1933, na oportunidade da comemoração dos 25 Anos da Imigração Japonesa, Shūhei Uetsuka, juntamente com Ryō Mizuno, foi agraciado com a medalha do 6º Grau da Ordem do Sol Nascente, em reconhecimento aos serviços meritórios prestados por longos anos em favor da emigração.

“Descem todos e empurram o ônibus, a inundação”
Um dos haikais representativos de Hyōkotsu. As estradas não pavimentadas do interior se transformavam em lodaçais à primeira chuvarada. Os ônibus que por elas trafegavam, se encalhavam nos sulcos e paravam. Nessas horas, os passageiros todos desciam e empurravam, e o ônibus prosseguia vagarosamente.

Tadakuni Yasunaga, o mais idoso dos nisseis de Promissão,nasceu em 25 de março de 1921 e vive ainda hoje nessa terra. “Eu me criei aos pés do professor”, costuma dizer. Com frequência, Tadakuni brincava com seus três irmãos no jardim da casa de Uetsuka. Dizem que Uetsuka, ao ver de longe a chegada dos três irmãos, comentava com a empregada: “Lá vem os três valentes da família Yasunaga!” e pedia que lhes preparasse batatas ao vapor.

Um triste e grandioso funeral com a multidão lamentando a morte do ancião, em 6 de julho de 1935, Promissão [fonte: Imin no Chic hi Uetsu ka Shuhei – Ko ya no Hito (Shuhei Uetsuka, Pai dos Imigrantes – O Homem da Mata Selvagem, Toru Nomio, Nippak Graphics, 2007)]
Uetsuka residia em um casebre que mais parecia barraco. Por isso, “(…) no aniversário de 10 anos (da imigração), o povo da vila quis construir uma casa para o professor, como parte da comemoração. Mas ele recusou terminantemente, em seu forte dialeto de Kumamoto:

“Mesmo que vocês construam a casa, eu não vou morar lá.”

Enfim, resolvemos erguer um monumento comemorativo dos 10 anos. Por isso, para nós, este monumento é como se fosse a própria alma do professor.’ – diz Tadakuni, erguendo os olhos para contemplar o monumento, estreitando as pálpebras ao solar. Uetsuka manteve até o fim a sua condição de honrosa pobreza, tamanha a sua preocupação com os imigrantes.

Em seus últimos anos de vida, Shūhei permaneceu internado em um hospital de Lins por causa da debilidade física. Certo dia, entretanto, houve uma reunião de japoneses, onde sua presença era indispensável. Assim, teve de deixar o hospital e seguir para a reunião, aboletado junto com brasileiros na caçamba de carga de um caminhão. Ele era o único japonês ali.

Chovia esse dia, e a estrada se fez barrenta. O caminhão en-calhou em uma ladeira íngreme. Os passageiros desceram revoltados, e se puseram a empurrar o caminhão. Diz Tadakuni: “Com certeza, o professor achou que se não os acompanhasse, traria vergonha para os japoneses. “– e desceu também, embora adoecido e fraco, em meio à chuva.

Sua saúde decaiu por causa disso, e foi internado novamente. Uma semana antes de falecer, Tadakuni foi visitá-lo acompanhado por seu professor, da escola onde estudava. Uetsuka apertou fortemente as mãos de Tadakuni, e repetiu por diversas vezes: “Aguente! Aguente firme!”

Tadakuni tinha então 14 anos. “Naquela hora, eu não sabia bem o que eu devia aguentar. Mas agora, penso que ele queria me ver lutando por esta colônia. “Foram essas as últimas palavras que ele trocou com o lendário ancião.

Em 6 de julho de 1935, Shūhei Uetsuka foi repousar no cemitério da Primeira Colônia Uetsuka. Atraído sabe se lá por o quê, passou a vida acumulando sacrifícios sem conta pelos imigrantes

japoneses, afogando-se na pinga. E à idade prematura de 60 anos, enterrou finalmente seus ossos no Brasil.

Na 80ª missa budista em memória de Shūhei, celebrada em 5 de julho de 2015 – dia do seu falecimento, 120 pessoas visitaram seu túmulo. Tadakuni, que “desde os dias da juventude, limpava todos os dias o túmulo do professor Uetsuka para poder receber suas virtudes”, se alegra: “No funeral, há oitenta anos, a estrada se congestionou e muitos perderam a hora. Mas hoje, muita gente compareceu, o professor deve estar satisfeito. “Se alguém merece ser chamado de guarda do túmulo de Shūhei, será certamente ele, Tadakuni.

A princesa Mako visitou Promissão em 22 de julho de 2018. Reverenciou defronte ao Templo Komyo Kwannondo dedicado a pioneiros falecidos como Shuei Uetsuka, oferecendo flores e rezando em silêncio.
Após a passagem no Templo Komyo Kwannondo, a princesa Mako inaugurou, com corte de fita, o monumento erguido em homenagem ao Centenário da Colonização Japonesa em Promissão

Na praça em sua homenagem se erguem lado a lado a lápide memorial e a de haikai, e o templo da deusa Kannon. Tadakuni fala sobre cada um deles enquanto rememora o passado: “Em obediência às palavras do professor, eu permaneço nesta terra desde que aqui nasci. Minha maior felicidade é ver como as pessoas adoram o professor e vem visitá-lo. Dele eu aprendi que devo ajudar as pessoas” – disse, e juntou silenciosamente as mãos em prece.

Às margens da estrada Shūhei Uetsuka, via principal que passa ao lado do parque memorial do mesmo nome, plantaram-se ipês, que ele tanto apreciava. Os ipês se cobrem profusamente de flores todos os anos. Em julho deste ano, comemoram-se ao mesmo tempo os 100 anos da colonização em Promissão e os 110 anos da imigração japonesa, em um grande festival, no parque memorial.

Em um canto desse parque, está a lápide em que se acham esculpidos os seguintes haikais representativos de Hyōkotsu, que retratam o período inicial de sofrimento dos imigrantes:

Choro ao entardecer à sombra das árvores, colhendo café
O imigrante, que colhe o café, mostra coragem à luz do dia, mas ao cair da tarde, disfarça o pranto – o haikai retrata essa triste cena.

Tu, estrela luzente sobre campos inóspitos, pensarás quem sabe, nos fugitivos da noite?
Ao contemplar distraído a estrela sobre a plantação ressequida, finda a colheita, penso de repente: como estaria esta hora aquele imigrante, que fugiu da fazenda às caladas da noite?

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