Cultura Japonesa Vol. 4 – Ryoma Sakamoto – Os construtores e protagonistas da Era Meiji

Os construtores e protagonistas da Era Meiji

Ryoma Sakamoto

e o sonho da construção de uma nação oceânica


Texto original em japonês de Masaomi Ise
Referências: “Shonin Ryoma” (Ryoma, o comerciante) – Yo Tsumoto – Editora Nippon Keizai Shimbun Shuppansha, H19

Nos meados do século 19, um samurai de baixa hierarquia da suserania de Tosa sonhou em dar ao seu país condições de prosperar em liberdade, sustentado por um vigoroso comércio exterior e protegido por uma poderosa marinha, e assim enfrentar a ameaça de invasão das potências ocidentais.

 

 

        Ryoma Sakamoto

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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O Japão era nessa época um país medieval atrasado e fechado ao mundo. Nenhum navio estrangeiro podia entrar em seus portos, exceção feita apenas aos da Holanda e China, assim mesmo apenas em Nagasaki. O país estava dividido em mais de 200 suseranias ou hans, estados independentes, alguns pequenos, outros poderosos, governados por um daimyô – suserano, senhor das terras, cada um com seu exército de samurais.

O governo do país estava nas mãos do xogum, o mais poderoso de todos os suseranos, que exercia domínio sobre todos os demais. O Imperador, considerado descendente dos deuses que criaram o Japão, segundo a religião xintoísta, era por isso mesmo suprema autoridade, legítima e inconteste, mas não possuía exército. Todo o poder emanava dele, mas não o exercia. Apenas delegava. Até o xogum deveria ser reconhecido pelo Imperador para poder governar o país em nome dele. Mas o Imperador pouco interferia em suas decisões.

Com tantas suseranias existentes, os conflitos por terra e pelo domínio da nação eram incessantes. Diversos daimyôs procuraram se impor como xogum durante a fase histórica conhecida por Sengoku Jidai (1467 – 1568, Era dos Estados Beligerantes) mas permaneceram no cargo por pouco tempo.

Nisso surgiu Iyeyasu Tokugawa, suserano de Mikawa (região leste da atual Província de Aichi) que, subjugando seus oponentes, se fez xogum em 1603. E a partir de então, membros do clã Tokugawa se revezaram por quinze gerações no cargo. Iyeyasu fez de Edo (Tóquio) sede do Tokugawa Bakufu (Xogunato Tokugawa), e impôs a paz sobre todo o território japonês, inaugurando uma nova era de relativa tranquilidade – a Era Edo, que perduraria por mais de 260 anos.

A pacificação trouxe estabilidade política, social e econômica e favoreceu o desenvolvimento das artes como em nenhum outro período da história japonesa. Por outro lado, o Japão continuava fechado aos estrangeiros, e pior, os longos anos de paz induziam os samurais da classe governante do xogunato e das suseranias à desmotivação e mediocridade. O Japão se tornava nação frágil e desprotegida, à mercê da cobiça das potências ocidentais.

Havia, porém, mentes lúcidas atentas a esse cenário de crise nacional. Samurais, na maioria oriundos da classe inferior, iniciavam o Meiji Ishin (Restauração de Meiji), movimento de renovação política do país. Alarmados com o estado da nação, pregavam o fim do regime medieval do xogunato e a implantação de um novo governo estruturado em legislação moderna, regido de fato e de direito pelo Imperador. Naturalmente, o xogunato opôs resistência, e muitos desses samurais deram suas vidas pelo movimento.

O Meiji Ishin tem por raiz o “Incidente dos Kurobune (navios negros)”: em 1853, quatro navios de guerra da esquadra americana das Índias Orientais sob o comando do almirante Matthew Calbraith Perry invadem as águas da Baía de Edo. A visão desses enormes navios negros movidos a vapor assusta os japoneses, desde o Imperador até os plebeus, que constatam com os próprios olhos a enormidade do atraso do seu país. Isso os desperta do entorpecimento provocado pelos 260 anos de paz interna imposta pelo xogunato Tokugawa.

O Brasil também passa hoje por momentos dramáticos. Em meio a uma recessão econômica das mais graves desde o fim da guerra, promove a maior festa internacional do esporte: a Olimpíada e a Paralimpíada, ao mesmo tempo em que decreta impeachment da presidente e destituição do presidente da Câmara dos Deputados. É uma situação ímpar em toda sua história. A Polícia Federal, por intermédio de diversas investigações, a começar pela operação Lava Jato, expõe seguidas suspeitas de espantosos esquemas de corrupção que envolvem grandes empresas representativas do Brasil. Conturbações como essas, ao mesmo tempo políticas e econômicas, são raras no mundo. E nos remete ao Meiji Ishin: a Restauração de Meiji, e a Ryoma Sakamoto, cujas histórias descrevemos a seguir.

Bom seria se o Brasil pudesse descobrir nelas quem sabe “a ponta do fio da meada” dessa crise em que se acha. (A Redação – Jornal Nikkey Shimbun)

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A América segundo John Manjiro

 

Dizem que a realidade supera a ficção. É o caso deste personagem, John Manjiro, cujas incríveis peripécias desafiam os melhores romancistas de ficção. Nasce em 1827, filho de uma pobre família de pescadores. Aos 14 anos de idade, sai para pescar com quatro outros companheiros e perde-se no mar. Mas conseguem todos chegar a uma ilha deserta, onde sobrevivem por 143 dias, até serem resgatados por um navio baleeiro americano.

Levado aos Estados Unidos e adotado como filho pelo capitão do navio, William H. Whitfield, Manjiro é por ele matriculado na Escola Oxford em Fairhaven, Estado de Massachusetts, onde aprende inglês e navegação marítima. Trabalha por alguns anos em um navio baleeiro, mas decide retornar ao Japão. Trata de arrumar dinheiro para o regresso trabalhando em garimpo de ouro, na Califórnia, na época do Golden Rush, e com o dinheiro conseguido, retorna ao Japão. Desembarca em Okinawa, é preso (a viagem ao exterior era proibida) e enviado à suserania de Satsuma, onde passa por longo período de interrogatório.

Porém, seus conhecimentos de inglês e de navegação eram preciosos para o Japão dessa época. Logo promovido a hatamoto (samurai vassalo do xogum), passa a exercer funções diversas: professor, consultor e intérprete oficial do xogunato. Nessa situação, participa ativamente das negociações do Tratado de Kanagawa (tratado de comércio e de abertura dos portos) com os Estados Unidos. Mais tarde, durante a guerra Franco-Prussiana de 1870, estuda ciência militar na Europa. Finalmente, torna-se professor da Universidade Imperial de Tóquio, e falece em 1898, aos 71 anos de idade.

Dizem que Ryoma Sakamoto se encontrou pela primeira vez com John Manjiro quando o ano de 1852 já estava para terminar. Manjiro acabara de retornar ao Japão nessa época. Por recomendação de um amigo, Ryoma fora ao seu encontro para ouvir dele sobre a América. Ryoma tinha então 18 anos de idade.

Manjiro lhe contou que uma enorme quantidade de navios baleeiros flutuavam no mar de New Bedford em Massachusetts, onde estivera. O porto estava protegido por cerca de vinte canhões. Os maiores possuíam 8 polegadas (24 cm) de diâmetro. Uma só bala bastaria para destruir a muralha dos castelos japoneses, e milhares estavam armazenadas no depósito de munições.

Mas nem mesmo um tiro desses canhões poderia destruir um navio de guerra. Um navio desses levava quase 500 pessoas normalmente, mas em período de guerra, poderia carregar até 1500 pessoas.

Ryoma perguntou também sobre a arte da navegação. Manjiro lhe respondeu que obtivera nos Estados Unidos o certificado de Primeiro Navegador, conferida apenas a marinheiros de alta classe. Assim, não se perdia em alto mar mesmo sem sombra de terra à vista, se dispusesse de mapa, oitante e bússola.

Tudo isso soava como um fantástico conto de fadas a Ryoma, que mal podia conter o entusiasmo que despertava em sua alma.

 

A chegada dos “navios negros”

 

Em 1853, Ryoma foi para Edo (Tóquio), onde pretendia aperfeiçoar-se em kenjitsu, a arte marcial da espada japonesa, da qual era praticante exímio. Kenjitsu é a forma antiga do kendô moderno, esporte hoje em dia praticado no mundo inteiro, inclusive Brasil.

Mal acabara de chegar à cidade em 4 de junho desse ano, Ryoma soube que “navios negros americanos foram avistados no mar de Uraga (cidade portuária na entrada da baía de Tóquio)”. Chegava-lhe a oportunidade de ver com os próprios olhos os navios de guerra dos quais Manjiro lhe havia falado.

Litografia que descreve a chegada dos navios negros

A esquadra americana vinha capitaneada pela fragata Susquehanna, com 78 metros de comprimento, 14 m de largura e armado com dezenas de canhões – verdadeiras fortalezas flutuantes aos olhos dos japoneses. Outros três navios desse porte compunham a esquadra.

Ryoma foi convocado pela suserania de Tosa, sua terra natal, para fortalecer a defesa do litoral de Omori, área onde se localizava a mansão de Shinagawa, sede da representação dessa suserania em Edo. Pôs mãos à obra, construindo aterros e erguendo muros junto com outros. Não tardou muito para que os termos da mensagem enviada pelo governo americano, recebida das mãos do almirante Perry, comandante da esquadra, chegassem até aos ouvidos dele.

A mensagem dizia que, da Califórnia, um navio a vapor poderia cruzar o Pacífico e chegar ao Japão em questão de 18 dias. A produção da Califórnia alcançava 60 milhões de dólares anuais, que poderia ser comercializada com diversos produtos japoneses para proveito de ambos os países. Desejava também permissão do Japão a navios baleeiros americanos que pescavam baleia nas proximidades do país para carregar em seus portos carvão, água e mantimentos de que necessitavam. E por essas razões, gostariam de firmar com o Japão um acordo comercial.

Tratava-se na verdade de uma intimação. A esquadra americana se dispunha a entrar em guerra se o Japão não concordasse, e levou seus navios a dispararem tiros de festim no mar de Shinagawa, impressionando dezenas de milhares de samurais de diversas suseranias que se aglomeravam no litoral.

Diziam os americanos que os Estados Unidos haviam declarado guerra ao México havia pouco tempo, e arrebatado desse país grande parte de seu território inclusive a Califórnia, isso porque o México advertira os Estados Unidos contra a aproximação de navios a vapor americanos ao seu território.

 

“Que mal há em estabelecer
comércio com países estrangeiros?”

 

Quem assim argumentava era Zosan Sakuma, especialista em artilharia da escola holandesa, de quem Ryoma era adepto.

Segundo Zosan, se o Japão entrasse em guerra naquele momento, as possibilidades de vitória seriam nulas. E uma vez derrotado, o país entraria em colapso. Todos seriam feitos escravo dos estrangeiros.

Mesmo porque bastariam apenas 5 ou 6 navios negros nas costas de Edo para aprisionar os navios cargueiros japoneses vindos de Osaka e interromper o transporte de provisões essenciais, especialmente arroz. Edo não aguentaria por 10 dias sequer. E transportar toda essa carga dos navios por terra, ao lombo de cavalos e bois, era tarefa irrealizável.

Zosan tem toda razão, pensou Ryoma. Por ora, o Japão não tinha outra escolha senão aceitar a exigência dos americanos e estabelecer comércio com eles, ganhando tempo para desenvolver a potencialidade do país de forma a fortalecer o poder de defesa.

Por outro lado, Manjuro, convocado pelo Roju (Conselho dos Anciões, órgão supremo da administração do xogunato) para opinar, respondia que os Estados Unidos não pensavam em conquistar o Japão. A Califórnia possuía muito dinheiro, estava em condições de provocar guerra contra o Japão, se fosse o caso. Entretanto, o Japão era pobre, não produzia muita coisa, e além de tudo, estava muito distante. Os americanos preferiam certamente manter amizade com os japoneses e receber deles suprimentos de carvão a enviar dezenas de navios de guerra para atacá-los, dizia Manjuro.

Também tem razão, pensava Ryoma. Um parente distante que Ryoma costumava visitar na infância, trabalhava com diversas embarcações de longo percurso para transportar comestíveis como arroz e katsuobushi até Edo. Era um comércio bastante lucrativo.

“E que mal há em estabelecer comércio com países estrangeiros?” – raciocinava Ryoma.

 

“Quero sair para o oceano aberto”

 

Após quase 1 ano em Edo, Ryoma regressava em 1854 para Tosa, sua terra natal (atual Província de Kochi). Junho chegava ao fim. No ano precedente, fora visitar Shoryo Kawada, um pintor famoso. Kawada hospedara John Manjiro em sua casa e registrara seus relatos por escrito.

Nessa visita, Kawada sugerira a Ryoma: “O que acha de aproveitar este período excepcional e iniciar um comércio?” E explicou a ideia, com base em uma conversa que tivera com Manjiro.

“Dizem que nos Estados Unidos, é costume reunir amigos e constituir algo como um grande grupo de sócios, para juntar dinheiro à vontade e financiar empreendimentos. Vocês deviam pensar nisso, em arrumar um jeito de reunir sócios companheiros. E comprem, por exemplo, um navio a vapor, por que não?

Eu digo, juntem amigos, usem o navio para transportar passageiros que andam pelo Japão inteiro de um lado a outro, e também mercadoria e alimento produzidos pelas suseranias. Ganharão com certeza dinheiro suficiente para pagar carvão e óleo para o navio, e mais, salário para todos!

Além disso, aprenderão a pilotar navios, e pouco a pouco, vocês ganharão experiência em navegação. A questão é começar já, o quanto antes possível. Mesmo improvisando, mesmo “prendendo ladrão para depois tecer a corda”, não importa! Se não, quando é que vamos alcançar os países estrangeiros?”

Esse discurso não deixou de animar Ryoma, mas ele ponderou que o país ainda não dispunha de gente talentosa para pilotar um complexo navio a vapor. Porém Shoryo retrucou:

“Acontece que esses altos funcionários do governo que recebem hoje em dia gordos salários não têm um pingo de idealismo. Você só vai encontrar idealismo em mentes talentosas existente entre samurais de classe baixa que querem empreender, mas não têm um centavo para investir, e entre camponeses e plebeus, ali estão os idealistas. Eu tenho entre os meus alunos alguns talentos oriundos dessa classe. Dê trabalho a eles, e eles responderão com seus talentos!”

Havia liberdade nos navios a vapor: liberdade para cruzar a imensidão do oceano, e também, liberdade da rígida hierarquia imposta por castas sociais. Ryoma estava ansioso por sair ao largo, em busca do oceano aberto.

 

“Queria aprender a pilotar um navio a vapor”

 

Em 1862, Ryoma desertou a suserania de Tosa. Embora tivesse obtido licença para abrir uma academia de kenjitsu na suserania, não queria mais permanecer ali.

Retornou a Edo e, munido de uma carta de apresentação fornecida por John Manjiro, foi procurar Rintaro Katsu, a quem pediu que o recebesse como discípulo. Katsu era vassalo do xogum e oficial instrutor da Academia Naval de Nagasaki, pertencente ao xogunato. Havia realizado a proeza de cruzar o Pacífico comandando o navio Rinkai-maru, levando uma comitiva em missão oficial do xogunato que se dirigia para os Estados Unidos.

Katsu, samurai de grande visão, começou por perguntar:

“– E o que quer fazer, como meu discípulo?”

“– Queria aprender a pilotar um navio a vapor”, respondeu Ryoma.

Por volta dessa época, iniciava-se no Japão um movimento entre samurais idealistas de diversas suseranias não envolvidas com o xogunato. Esse movimento tomava por base dois princípios: o Sonnô, que exigia fundamentalmente respeito máximo ao Imperador, descendente das divindades que criaram o Japão segundo a religião xintoísta; e o Jô-i, que pregava a expulsão dos estrangeiros, considerados bárbaros e impuros, e o afastamento deles do país. Por isso mesmo conhecido por Movimento Sonnô – Jô-i, foi alvo imediato da interrogação de Katsu:

“– E o que me diz do Sonnô e do Jô-i?”

“– Não é possível expulsar os estrangeiros agora.”

“– Sei. Então, não se oporá a eles, e comercializará com eles, da forma como eles quiserem?”

“– Aí está! Isso eu quero saber. Se não os liquidarmos, eles tomarão conta de nós. Mas hoje, não temos condições de derrotá-los. Então, teremos de esperar até que ganhemos força para subir à arena e “lutar sumô” com eles, não acha?”

Katsu começou a rir.

“– Veja só, vem do interior de Tosa, mas está bem a par do que acontece no mundo!” – disse, e o admitiu como discípulo. Possuía mentalidade esclarecida. Não se importava muito com o status de alto funcionário do xogunato que detinha, e se preocupava mais com o futuro da nação.

Ryoma presenciara a chegada dos navios de guerra a vapor americanos. O Japão precisava modernizar-se com urgência, e para isso, era necessário romper tabus.

 

Criação da Marinha de Guerra

 

Katsu instruía Ryoma sobre diversos assuntos enquanto o mantinha a seu lado na função de responsável por sua segurança pessoal.

Caso o Japão tomasse a iniciativa de iniciar guerra para a expulsão de estrangeiros, como pregava o Jô-i, ingleses e franceses ocupariam Tsushima, Iki e Sado. Os Estados Unidos fariam o mesmo com o arquipélago de Izu e a Rússia, com Ezo. Mesmo a Ilha de Awaji não estaria a salvo. Com isso, as rotas de navegação estariam todas bloqueadas, e a nação, encurralada. A crise resultante espalharia revoltas por toda parte.

O povo não suportaria esse sofrimento. Muitos passariam a mancomunar com os estrangeiros. E então, o Japão se faria vassalo dos estrangeiros.

Prevendo essa situação, Katsu havia submetido ao xogunato um documento em que defendia a criação de um exército e marinha suficientemente poderosos para enfrentar as potências do ocidente. O plano consistia em estabelecer no Japão seis zonas marítimas protegidas cada uma delas por uma esquadra.

Os recursos necessários seriam obtidos concedendo às suseranias o direito de comércio exterior. Assegurada essa fonte de rendimentos, cada suserania financiaria navios de guerra a vapor em proporção ao próprio poder econômico. Esse plano permitiria construir uma marinha de guerra de 300 navios.

Havia um problema, no entanto. Era possível adquirir navios de guerra com dinheiro, mas faltava gente para colocá-los em operação. Katsu e Ryoma iniciaram preparativos para construir uma academia da marinha em Kobe. Tadahiro Ohkubo, que pouco tempo atrás havia sido conselheiro do xogum, os incentivou:

“Ouvi dizer que vocês conversaram com Katsu e se preparam para abrir uma academia naval. Isso é muito importante. O xogunato encomendou à Rússia e Holanda navios de guerra para expandir em larga escala a marinha. Entretanto, precisamos de aprendizes para tripular esses navios e conduzi-los livremente em alto mar. Não é coisa que funcionários incompetentes, que não enxergam um palmo diante do nariz, consigam fazer. Compete a vocês aprender a navegar livremente mar afora, e com toda urgência.”

Em abril de 1863, o xogum Iyeshige decidiu construir em Kobe o Centro de Treinamento da Marinha, colocando-o sob a direção de Katsu, destinando-lhe uma verba de manutenção de 3 mil ryo (moeda da época) por ano. Ryoma participou ativamente da fundação e organização do Centro.

 

“Kameyama Shachu”

 

Mas o xogunato Tokugawa estava sendo questionado por suseranias poderosas, que o consideravam incapaz de gerir a nação e conduzi-la com segurança para um futuro melhor. A ideologia do Son-nô ganhava força entre elas.

O xogunato contava, porém, com uma forte coligação de suseranias aliadas, muitas delas pertencentes a membros do clã Tokugawa.

Das suseranias inclinadas ao Sonnô, a poderosa suserania de Choshu (atual Província de Yamaguchi) assumia postura mais extremista. Opunha-se ao xogunato e pretendia entrar à força em Quioto, para “proteger” o Imperador.

Em junho de 1864, o exército de Choshu e as forças da coligação favorável ao xogunato, entre elas as da também poderosa suserania de Satsuma (atual Província de Kagoshima), entraram em confronto nas proximidades do Portal de Hamaguri em Quioto. Derrotado, o exército de Choshu era expulso de Quioto e se recolhia às terras da suserania.

Nessa oportunidade, dezenas de samurais aprendizes do Centro de Treinamento da Marinha, vassalos da suserania de Inaba, abandonaram o Centro para participarem da batalha a favor de Choshu, lutando contra as tropas do xogunato. Por isso, Katsu foi destituído da direção do Centro de Treinamento da Marinha e convocado de volta a Edo. O Centro seria fechado.

Katsu deixou então Ryoma e seis outros discípulos desertores da suserania de Tosa sob a proteção de Yoshinosuke (Takamori) Saigo, da suserania de Satsuma. Fato é que Saigo, já nessa época desiludido com o xogunato, pensava em criar uma poderosa coligação entre Satsuma e Choshu para derrotá-lo e construir um novo Japão. Tendo percebido em Ryoma uma personalidade carismática e capacidade de liderança, Saigo tratou de conservá-lo para que mais tarde, servisse de mediador entre Satsuma e Choshu. De imediato, Ryoma procuraria contrabandear mercadorias estrangeiras de necessidade.

Em 1865, Ryoma, contratado por Satsuma, recebeu alojamento em Kameyama, região montanhosa nos subúrbios de Nagasaki, e também remuneração mensal (salário). Criou juntamente com seus companheiros uma empresa, a “Kameyama Shachu” (Companhia Kameyama), que utilizaria como base para a realização do comércio contrabandista.

Ryoma Sakamoto (3º a partir da esquerda) com os membros do Kaientai (Companhia de Comércio Marítimo)

Em maio, Ryoma se infiltrou em Shimonoseki na qualidade de mensageiro de Saigo para se encontrar com Kogoro Katsura, líder de Choshu, e lhe propor aliança com Satsuma. Choshu se encontrava então em situação crítica – um exército de 150 mil homens da coligação aliada ao xogunato marchava contra ela. Dessa vez, porém, a suserania de Satsuma não participava mais dela. Contudo, fato é que no conflito do Portal de Hamaguri, Satsuma se alinhara ao xogum e lutara contra Choshu. Compreensivelmente, ninguém em Choshu morria de amores por Satsuma.

Os samurais de Choshu até diziam:

“– Aliança com os ‘macacos’ de Satsuma, depois do que fizeram? Quem diz besteira como essa merece ser decapitado!”

Assim, a missão de Ryoma deixava de ser simplesmente espinhosa e se tornava quase impossível.

 

O comércio, chave da aliança entre Satsuma e Choshu

 

Ciente dessas dificuldades, Ryoma começou propondo:

“Em breve o exército do xogum estará nas cercanias de Choshu. Pois então, o que acham da ideia de introduzir em Choshu espingardas e navios a vapor, comprados do estrangeiro por Satsuma?”

Katsura o encarou surpreso. Para Choshu, que devia enfrentar e derrotar as forças formidáveis do xogum, era uma oferta de dar água na boca.

Sem faltar à promessa, Ryoma importou por intermédio da Companhia Kameyama 7500 fuzis modernos e um navio a vapor, e os entregou a Choshu.

Por outro lado, Satsuma, que deixara de participar da campanha contra Choshu, juntava uma força considerável em Quioto e pressionava o xogum. Mas precisava de mantimentos para alimentar a tropa. Saigo então pediu a Ryoma que fosse a Choshu pedir um empréstimo em mantimentos.

“– Umas 500 sacas de arroz serão suficientes”, disse Ryoma despreocupado, e partiu imediatamente a Yamaguchi, em Choshu, para negociar com Katsura, que concordou de boa vontade.

Assim, Satsuma e Choshu conseguiram construir uma aliança sobrepujando ressentimentos antigos por intermédio de auxílio recíproco mutuamente proveitoso. Ryoma foi o arquiteto dessa aliança.

Por sinal, esta campanha contra Choshu terminaria com a derrota das forças do xogunato.

 

Nação Oceânica – um sonho realizado

 

Concluída a negociação do empréstimo de mantimentos, Ryoma se hospedou na residência de Sukedayu Ito, próspero comerciante de Shimonoseki. Em conversa com o comerciante regada a saquê, Sukedayu contou que pretendia abrir comércio de produtos do mar com os estrangeiros quando o conflito entre Choshu e o xogunato terminasse. Segundo ele, um barco veleiro de carga custaria mil ryo para se construir, mas bastaria umas três viagens a Eso (Hokkaido, Kurilas e Sacalina) para recuperar esse custo.

Navio a vapor Iroha maru que Ryoma utilizava nos seus negócios internacionais

Ryoma se impressionou.

“– Veja só! Com certeza, o lucro será maior com um navio a vapor!”

Ele e seus companheiros da Companhia Kameyama se restringiam naquele momento em adquirir armas e outras mercadorias que a coligação Satsuma-Choshu necessitava, mas pensava em levar o comércio a Eso e Xangai, e expandi-lo até Cantão e Luzón tão cedo o conflito terminasse. Utilizando navios a vapor, poderia atravessar o Oceano Pacífico e estabelecer comércio também com os Estados Unidos. Com isso, o Japão se tornaria mais rico, e então seria possível construir uma força naval de bom tamanho para defendê-lo dos estrangeiros. O sonho de Ryoma se inflava.

Ryoma, porém, não teve tempo para realizá-lo. Seria assassinado em Quioto, em novembro de 1867. Não se descobriu o autor do crime. Outros, porém, mantiveram esse sonho, entre eles Ichizaemon Morimura, o “idealista do comércio internacional”.

Mais ainda, a Marinha Japonesa, nascida do Centro de Treinamento da Marinha mostrou-se capaz de defender a independência da nação japonesa durante os conflitos com a China e a Rússia, e se fortaleceu a ponto de se transformar em uma das três maiores forças navais do mundo, emparelhada à dos Estados Unidos e da Inglaterra.

Verdade é que o sonho de Ryoma, de fazer do país uma nação oceânica, residia no coração de todos os japoneses e foi concretizado pelo idealismo desinteressado de muitas, muitas pessoas. 

 


Capítulo extraído do livro Cultura Japonesa Volume 4.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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CULTURA JAPONESA 4
Os textos foram extraídos do site de língua japonesa “Curso para a Formação de Japoneses da Geração Internacional”, e aqui traduzidos e publicados com a permissão do autor, Masaomi Ise. Estes tem por intuito expor de forma compreensível as peculiaridades da história e da cultura japonesas.

Edição: Editora Jornalística União Nikkey Ltda. – Jornal Nikkey Shimbun
Publicação: Biblioteca Jovem de São Paulo de 15 de Dezembro de 2016
Redator-chefe: Masayuki Fukasawa
Autores: Masaomi Ise, Masayuki Fukasawa
Tradução: Shintaro Hayashi
Revisão português: Aldo Shiguti

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