Cultura Japonesa Vol. 2 – Yasuhiro Yamashita

A construção da personalidade através do Judô

Yasuhiro Yamashita

Como supervisor da Equipe Nacional de Judô do Japão,
Yamashita não procurou criar ‘os mais fortes do mundo’,
mas sim, ‘os melhores do mundo’.


Texto de Masaomi Ise – de 5 de agosto de 2012
Referência: [1] A Força para Prosseguir Carregando (Tradução literal) – Yasuhiro Yamashita – Shincho Shinsho – Heisei 24

Yasuhiro Yamashita(2005)

 

Forte dor na perna direita

 

Em agosto de 1984, Yamashita lutava pela medalha de ouro no judô nas Olimpíadas de Los Angeles, categoria peso livre. Ele começou bem. Venceu Corey do Senegal em 27 segundos.
Entretanto, uma grande provação o aguardava na segunda luta contra Schnabel da Alemanha Ocidental da época. Sofreu distensão muscular da panturrilha direita no instante em que procurava aplicar um uchimata aproximando seu corpo ao do adversário que recuava os quadris.
A luta continuava. Yamashita aparentava tranquilidade. Caiu sobre Scnabel que procurava derrubá-lo com um seoinage e, com um golpe de estrangulamento, levou-o à desistência.
Terminada a disputa, quando se erguia para cumprimentar o adversário, uma dor lancinante percorreu seu corpo só ao tocar o chão com o pé. Procurou andar como se nada tivesse acontecido, mas o público percebeu imediatamente que seus passos não eram normais e se agitou.

 

Encostado contra a parede

 

A luta seguinte já era a semifinal. Teria por adversário o francês Del Colombo. Até aquele momento, Yamashita viera vencendo esse adversário por ippon em todos os confrontos. Porém, não conseguiu evitar um osotogari desferido por Del Colombo que visava sua perna direita ferida, e foi derrubado para trás. “Kooka!” – assinalou o árbitro. Yamashita conseguira girar o corpo instantes antes de cair evitando que suas costas tocassem o tatami. Com isso, evitou um ippon. Mas o público se agitou. Afinal, ele perdia ponto para um adversário estrangeiro pela primeira vez.
Yamashita se achava em um beco sem saída. Um pensamento lhe passou pela cabeça, provocado por pessimismo e insegurança: “Talvez seja derrotado agora!”. Mas procurou recobrar-se:
“Não cheguei até aqui para terminar com uma luta vergonhosa. Vim buscar a medalha de ouro! Dei tudo que tinha, e por isso, estou aqui. Não vou me deixar derrotar só por causa de um ferimento como este!”
Com espírito fortalecido, partiu para um osotogari. Viu que o adversário retraía a perna esquerda e transferia ligeiramente o peso do corpo para o pé direito. Instintivamente, atacou esse pé com outro osotogari. Del Colombo rolou pelo tatami. “Wazaari!”
Sem perda de tempo, imobilizou o adversário e venceu por ippon em técnica combinada. Vencer, venceu, mas o estado da perna piorou ainda.

 

O entusiasmo dos japoneses

 

Enfrentava agora o egípcio Rashuwan na disputa pelo ouro. Ele era avantajado, bem maior que Yamashita. Um gigante de 192 centímetros de altura, 140 kg de peso que viera vencendo todas as lutas até agora por ippon. Yamashita já previra que a final seria contra esse adversário. Entretanto, a imagem que sempre lhe ocorria de como chegar à vitória não lhe vinha desta vez à sua mente.
Iniciada a luta, os dois se agarraram firmemente no centro do tatame. Rashuwan foi quem iniciou o ataque, dirigido contra o pé direito ferido. Yamashita recolheu instintivamente o pé para evitar o ataque. Imediatamente, o adversário visou o seu pé esquerdo com um haraigoshi. Yamashita não sabe dizer o que aconteceu nos segundos a seguir. Quando deu por si, dominava Rashuwan sobre o tatami. O árbitro anunciava imobilização. E a um minuto e cinco segundos do início da luta, a buzina soou longamente. “Ippon!”.
Observando depois o vídeo, Yamashita percebeu que abrira a perna esquerda desviando-se do haraigoshi de Rashuwan e o derrubara utilizando essa perna esquerda como eixo, em lugar de fazê-lo como de hábito com a direita – um movimento quem sabe instintivo, impensável em toda sua vida de judoca até então.
Ao regressar ao Japão, encontrou o país inteiro em ebulição. Yamashita, favorito indiscutível à medalha de ouro, se ferira gravemente durante uma luta. E pela primeira vez, fora derrubado por um adversário estrangeiro. Mas suplantara, e conquistara a medalha de ouro.
Teria conquistado a medalha de qualquer forma sem dificuldade, não fosse o acidente. Todos diriam então com certeza: “- Yamashita? Ah sim, ele é forte. Venceu, é claro, como se esperava”. E logo seria esquecido.
Yamashita lutou 528 vezes em sua vida. Obteve 528 vitórias, 16 derrotas e 15 empates. Foi campeão mundial por três vezes seguidas, e alcançou a marca de 203 vitórias seguidas em lutas. Nunca perdeu de um lutador estrangeiro. Entretanto, essa medalha de ouro conquistada em condições extremamente críticas permanece na memória dos japoneses, mais que o registro impressionante de suas lutas.

 

Orgulho como judoca, e orgulho como árabe

 

Rashuwan recebeu mais tarde o prêmio fair play concedido pela UNESCO.
Em entrevista concedida a uma determinada emissora de TV, Rashuwan explicou o motivo porque atacou com haraigoshi o pé direito de Yamashita logo no início da luta. “Foi uma tática. Intimidei Yamashita com ataque ao pé direito para visar o pé oposto, o esquerdo” – disse ele.
A luta se prolongaria se procurasse tirar vantagem do ferimento do adversário. Ademais, arrastá-lo de um lado a outro poderia agravar o ferimento dele. Rashuwan não quis recorrer a medidas covardes como essas.
Mas por outro lado, não procurou poupar deliberadamente o pé direito ferido de Yamashita por “piedade”. Buscou lutar de igual para igual, sem levar em conta o ferimento. Aí estava o fair play de Rashuwan.
Posteriormente, em um encontro com Yamashita, Rashuwan lhe diria:

“O presidente da Federação Egípcia de Judô veio me dizer que era para atacar o seu pé direito ferido. Eu lhe respondi: – Isso eu não posso fazer, por causa do meu orgulho, como judoca e como árabe.” [1, p85]

O orgulho do judoca se confunde com o orgulho do árabe. Pode-se dizer que nisso se encontra a universalidade do espírito do judô.

 

O objetivo do judô
está em construir personalidades

 

Em 15 de setembro de 1985, três meses após a entrevista de Yamashita à imprensa concedida em razão do seu afastamento da vida ativa de judoca, Yamashita juntava as mãos diante do túmulo do professor Jigoro Kano, na província de Chiba.

 

Jigoro Kano

 

Jigoro Kano foi o fundador da Escola Kodokan de Judô e é tido como o “Pai do Judô”. E por ter contribuído para o desenvolvimento do esporte e da educação japonesa, é também considerado o “Pai da Educação Física do Japão”.

Jigoro Kano estabeleceu três regras para o judô:
Em disputa: vencer competições. Defesa pessoal contra malfeitores;
Em educação física: desenvolver a capacidade motora e cultivar um corpo sadio;
No campo moral: preparar personalidades adaptadas e úteis à sociedade.

Em outras palavras, o judô deveria ter por fundamento aperfeiçoar física e espiritualmente seus praticantes e produzir material humano capaz de contribuir para o benefício da humanidade.
“Manter tradição não é manter procedimentos. Manter tradição é manter o espírito, a alma dos procedimentos.” – Yamashita gostava dessas palavras. Queria conservar o legado de Jigoro Kano: sua alma e seu espírito de educador.

 

Não pensar em produzir “os mais fortes”,
e sim, “os melhores”

 

Yamashita esteve no cargo de supervisor da equipe nacional de judô do Japão por cinco anos, desde a Olimpíada de Atlanta em 1996 até a Olimpíada de Sidney em 2000. Procurou nesse período preparar “os melhores” e não “os mais fortes”, em conformidade com a proposta de Kano.
Um exemplo foi Tadahiro Nomura, que conquistou a medalha de ouro por três vezes seguidas nas Olimpíadas de Atlanta, Sidney e Atenas na categoria de 60 quilos, pela primeira vez na história do judô. Tadahiro é visto muitas vezes como lutador genial.
No dia seguinte ao da conquista da medalha, embora estivesse extenuado tanto física como espiritualmente, Nomura se ofereceu para ser assistente a um outro lutador que se preparava para entrar em competição.
Infelizmente, ele foi derrotado. Terminada a luta, Nomura dobrou com todo carinho o traje de judô que esse lutador vestira. Yamashita, que observara a cena, comentaria depois que isso ficou tão gravado em sua memória que não lhe saia da cabeça.
Makoto Takimoto, medalha de ouro nas Olimpíadas de Sidney na categoria de 81 quilos, tingia de castanho seus cabelos, hábito estranho para a época. Era por isso considerado “garoto rebelde”. Certo dia, ao acordar de madrugada no acampamento de treino da seleção nacional japonesa de judô quando todos os outros ainda dormiam, começou a arrumar cuidadosamente os chinelos de banheiro (em hotéis, pousadas, alojamentos e casas ao estilo japonês, tem-se por costume utilizar chinelos exclusivos para entrar em banheiros) espalhados em desordem.
Essa cena foi também observada casualmente por Yamashita, que mais tarde, agradeceu Takimoto por isso. Dizem que Takimoto, acanhado e desajeitado como era, saiu bruscamente sem dizer palavra alguma.
Shin-ichi Shinohara acabou ficando com a medalha de prata na categoria máxima de 100 quilos, em final da Olimpíada de Sidney, devido ao “maior erro de julgamento do século”. Terminada a Olimpíada, a diretoria da Federação Internacional de Judô reconheceu o erro após analisar as gravações de vídeo da disputa. Mas em conformidade com os estatutos, o julgamento foi mantido uma vez que o juiz já se afastara do local da competição.
No entanto, Shinohara disse apenas que “perdi porque fui fraco” e não deu outra declaração além dessa. Preferiu manter elegância.
Esses competidores foram realmente “os melhores”.

 

“O judô está mesmo educando?”

 

Por outro lado, porém, enquanto bons judocas como esses estão sendo formados, as maneiras e a moral percebidas no ambiente em geral do judô japonês da atualidade revelam sintomas terminais.
Durante o verão do ano 2001, Yamashita foi observar a Competição Intercolegial de Educação Física japonesa, realizada na Província de Kumamoto, sua terra natal. O chefe da Comissão de Competição de Judô era um judoca veterano e conterrâneo. Ele viu Yamashita, e veio até ele para protestar, com a voz trêmula e lágrima nos olhos:
“– Ai, Yasuhiro! O judô é mesmo um esporte educativo? Está mesmo educando?”
Espantado por vê-lo tão alterado, Yamashita perguntou-lhe o que acontecera. Veio a resposta: todas as pessoas que compareciam ao estádio da competição intercolegial, desde competidores, instrutores, supervisores, membros de diretoria e até torcedores, violavam regras com a maior naturalidade.
Tanto o recinto das competições como as salas de espera estavam emporcalhados. Isso não acontecera na competição de handebol realizada lá mesmo dias antes. Até mesmo os voluntários da região se enfureceram em um só dia de competição: “Que espécie de gente é essa, do judô? Não queremos que voltem, nunca mais!”
Yamashita foi protestar junto aos dirigentes da Federação Nacional Japonesa de Judô:
“– O judô japonês pode continuar nesse estado? Não estaria em desacordo com aquilo que o professor Jigoro Kano, fundador do judô queria?”

 

“Temos que mostrar
que os judocas são algo diferentes…”

 

Yamashita se perguntava por que o ambiente do judô se deteriorara tanto.
“À medida em que o judô se transforme em esporte internacional, os japoneses terão mais dificuldade em vencer. É até natural, mas a expectativa do povo japonês só cresce com isso.
Essa expectativa provoca uma pressão excessiva, levando competidores e dirigentes a se preocuparem apenas em conquistar medalhas de ouro. E passam a dar pouca atenção ao fato de que, em judô, a questão não está em vencer ou perder.
O resultado é grave. Eu sei porque fui um dos que se importavam com o resultado da luta.

Mas não se deve esquecer que existem resultados que só aparecem lá adiante. Se os judocas não demonstrarem personalidade atraente, não conseguirão reunir bom material humano em torno deles. Devem perceber que, se ficarem obcecados em perseguir a medalha de ouro diante do seu nariz, estão pondo em risco a conquista dessa medalha dez anos adiante.” [1, p133]

Iniciava-se assim o movimento Renascença do Judô, com o propósito de “educar e formar personalidades por intermédio do judô”. Dentro desse movimento, Yamashita assumia a direção da Campanha pela Educação.

“Quem sabe o beisebol e o futebol pareçam mais atraentes para crianças e suas mães. Mas se passarem a sentir que os judocas são algo diferentes, talvez as mães passem a desejar que seu filho seja um deles. Seria ótimo se o ambiente do judô se transformasse a ponto de levar as mães do mundo a pensar em fazer do filho um judoca, e em consequência, as crianças começassem a praticar o judô.” [1, p135]

 

O espírito japonês
ensinado por intermédio das
artes marciais japonesas

 

A partir de abril do presente ano, o ensino da dança e das artes marciais japonesas passaram a fazer parte obrigatória do currículo de educação física no Japão. Com respeito às artes marciais, as escolas devem optar por uma das seguintes modalidades: judô, kendô e sumô.
Sobre o objetivo desse ensino, Yamashita adverte:

“Em suma, o objetivo pretendido com a obrigatoriedade do ensino das artes marciais não está propriamente em ensinar as artes marciais. Não se deve esquecer que as artes marciais não passam de um instrumento. O que se pretende é ensinar a cultura e o espírito japonês por intermédio seja do judô, seja do kendô ou do sumô.” [1, p184]

Por exemplo, na prática do judô, costuma-se efetuar zarei (cumprimento efetuado em posição sentada) antes e depois da luta.

“O judô não vê no adversário um inimigo. Mais importante é respeitar o adversário. Nós nos adestramos e aperfeiçoamos porque temos adversário. Mostramos esse sentimento ao cumprimenta-lo à maneira japonesa.” [1, p182]

Nas Olimpíadas de Londres, os japoneses não obtiveram uma única medalha de ouro na categoria masculina, pela primeira vez na história. Entretanto, é necessário que o povo japonês não questione esse resultado porque “sem medalha de ouro, não faz sentido”. Antes disso, se faz necessário sim questionar “se os competidores mostraram na luta comportamento digno de respeito como judocas”.
E se isso levar as mães japonesas a desejarem “criar os seus filhos para serem iguais a eles”, o futuro do judô e em consequência o do nosso país se abrirá.

 


Capítulo extraído do livro Cultura Japonesa Volume 2.

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