Cultura Japonesa Vol. 2 – Dona Margarida Watanebe

A história da imigração japonesa no Brasil

Dona Margarida Watanabe

Mãe da colônia japonesa no Brasil


Extraído da obra: “O sol gira sobre terras selvagens”
– Kyuyo Kishimoto” – 1958, Editora Koya

Dona Margarida Watanabe

 

À sombra do sucesso alcançado pelos quatrocentos mil conterrâneos no Brasil, muitas tragédias ocorreram. O hino triunfal quanto pranto não esconde daqueles que ficaram no caminho! “Às costas de um general vitorioso, dez mil soldados anônimos expõem suas ossadas abandonadas no campo de luta” – essa é a triste regra das batalhas. Quantos da massa de emigrantes que buscaram a sorte em plagas estrangeiras não se feriram ou pereceram! A presença da Dona Margarida Watanabe, que com dedicação estendeu sua mão carinhosa aos anônimos perdidos em vale de lágrimas, não é apenas um orgulho para a colônia, como também, podemos sim dizer, para todo o Brasil. O socorro que levou aos 6500 imigrantes japoneses da região litorânea de Santos, vitimados por fome e frio durante a confusão estabelecida com o decreto de expulsão deles da área, e também às famílias daqueles que foram encarcerados por suspeitas diversas, trabalhando incansavelmente por dias e noites a fio foi de levar às lágrimas até os corações mais empedernidos.

 

Educação recebida
de casal de idosos estrangeiro

 

Família Torigoe na época que chegou ao Brasil em 1912. Fazia parte a Tomi Ikegami, nome de solteira, como a sua família constituinte – à esquerda, Tomi Margarida Watanabe com 13 anos, logo atrás Suejiro Torigoe, Kinosuke Haramura com 16 anos (centro) e a esposa Okita Torigoe (acervo de Kunito Mori)

O nome de família da Dona Margarida antes de se casar era Ikegami. Ela nasceu Tomi Ikegami. Seu pai administrava uma empresa de grande porte especializada em pesca de bonitos, estabelecida na cidade de Makurazaki, distrito de Kawanabe, Província de Kagoshima. Faliu, entretanto. Tomi, que perdera a mãe quando criança, viu-se assim desde cedo entregue aos rigores do destino. A saudade da mãe e os anseios de realização de seus pacíficos sonhos juvenis a fizeram vir para o Brasil em 1912, aos 11 anos de idade apenas, vencendo léguas sobre o mar a bordo do navio Kanagawa Maru. Uma tia, esposa do senhor Kenji Kida, e um tio, o senhor Tsunenori Ikegami, já viviam nessa época no Brasil. Tomi emigrou ao Brasil à procura deles integrando a família de Suejiro Torigoshi.

A situação dos imigrantes japoneses nesse período inicial da imigração era terrível. Famílias viviam amontoadas em um só quarto no fim da ladeira da rua Conde de Sarzedas em São Paulo. Os sonhos de Tomi de nova vida se esfacelavam melancolicamente.

Um mês após a chegada ao Brasil, Tomi empregou-se como doméstica na família do dr. Celestino, médico famoso de São Paulo.

Tomi foi bem recebida pela família do dr. Celestino, onde uma criança japonesa era novidade. Muito trabalhadora apesar da idade tenra, rápida para compreender, honesta e bem-educada, foi tratada com muito carinho. Acompanhava a filha a caminho da escola de belas artes, e recebeu dela instruções sobre artes manuais. Esse casal idoso de estrangeiros contratou também um professor particular para lhe dar aulas de português, e, enfim, criou-a até com mais carinho que a própria filha. A vida de Tomi, que passava a considerar o Brasil sua própria casa, foi toda ela formada nesse ambiente.

A esposa do Dr. Celestino era uma senhora profundamente religiosa, e assim, a família inteira era constituída de pessoas bondosas. Mas ela, em particular, amou a criança japonesa como se fosse a própria filha. A primeira educação recebida por esse espírito infantil ignorante de tudo foi adorar a Deus com as palavras da oração matutina.

Tomi se entregou à religiosidade desse lar piedoso, e à medida em que se via envolvida pelas almas das pessoas bondosas, esquecia por completo a desilusão que a vida miserável da fazenda de café proporcionara, e as horas de pranto incontido, de saudade dos pais por que passara, estendendo o olhar ao longe, em direção aos céus do Japão. E enquanto crescia envolvida pela piedade e pelo calor do afeto da velha senhora, superior até ao de uma mãe biológica, despontava nela o amor à humanidade da Dona Margarida de anos depois. As sementes das atividades sociais derivadas desse amor estavam sendo lançadas já nessa fase da sua vida.

O ambiente na juventude forma o espírito das pessoas. São poucas as pessoas que abandonadas, se tornaram importantes. Ninguém progride sem ser instruído e educado. Até se diz que mesmo cavalos caros, de bom pedigree, acabam transformados em meras cavalgaduras de carga se forem abandonados.

As chuvas sobre as Montanhas Rochosas nos Estados Unidos caem a oeste ao capricho da brisa e se transformam em águas do Oceano Atlântico. Quando caem a leste, percorrem longas distâncias até se fazerem águas do Pacífico. Milhares de léguas separam o destino dessas águas, a leste e a oeste. Da mesma forma, a vida de uma pessoa segue rumos diversos dependendo do ambiente e da educação na adolescência. Por diversas vezes Tomi pedira à sua mãe de criação para ser batizada, mas ela não lhe dera essa autorização. “Ainda é cedo, espere mais um pouco” – assim ela determinara.

A fé construída de noite para o dia nada significava. A verdadeira fé resultava de longos anos de fortalecimento necessário para torná-la inabalável ante as vicissitudes da vida, e não poderia ser conseguida senão ao atingir a idade madura. Assim, sua mãe a encaminhara para a fé, mas a conservara durante seis anos em observação para certificar-se de que ela não viria a ter dúvidas no futuro. E chegado o momento, quando ela julgou que Tomi já estava amadurecida, deu-lhe a aprovação para o batismo.

Inteligente e reservada, possuidora de forte senso de responsabilidade, Tomi recebia toda confiança da sua mãe de criação e do doutor Celestino. Guardava a chave do cofre da residência dessa família tradicional e cuidava de tudo como se fora a governanta da casa.

 

O casamento miraculoso

 

Após 14 anos de dedicação à família Burroul, o velho casal proporcionava à Tomi uma viagem ao Japão em agradecimento pelos excelentes serviços domésticos prestados.

As despesas tanto de viagem como de estadia foram todas custeadas pela família, um tratamento excepcional, nunca sonhado por alguém de tão pouca idade. Tomi pisava a saudosa terra natal, um presente valiosíssimo aos 25 anos apenas.

Essa viagem ao Japão constituía um grande anseio para Tomi, porque ela a considerava sua última viagem. Estava decidida a ingressar após a viagem ao monastério. Regressando à casa do Dr. Celestino, ela foi ajudar o padre Guido, que iniciara pregação do catolicismo entre os japoneses, ensinando o catecismo às crianças em português.

Cerca de 50 crianças participaram do primeiro batismo, ocorrido em 1926. Constava entre eles nomes como o de Yukishige Tamura, futuro deputado, e Massaki Ujihara, futuro médico.

Certo dia, ao procurar Dr. Takaoka e sua esposa para conversar sobre o batismo da filha deles, recebeu do casal uma proposta de casamento.

A mãe do Dr. Celestino lhe dissera certa vez: “Se você não quiser casar-se, eu lhe deixarei herança suficiente para que possa viver o resto da vida com minha irmã”. Tomi, que a considerava sua mãe, contou a ela sobre a proposta de casamento sugerida pelo Dr. Takaoka. A velha senhora permaneceu por um momento calada e de olhos cerrados, mas respondeu depois com voz tranquila:

“Quem sabe o casamento seja uma bênção para você”.

Foi para Tomi uma resposta de todo inesperada.

“Mas por que, mãe?!”

“As pessoas nascem com dons diferentes, e assim, não há uma única maneira de servir a Deus. Algumas mulheres servem ao Senhor como freiras, outras se casam e prestam serviço a Ele desde o seio da família e da sociedade, para a sua glória. Isso é, porém, bastante espinhoso, não é para qualquer mulher. Mas você é capaz de mostrar a glória divina no meio da multidão. Conduzir a sociedade a Deus é um trabalho muito grande, mas você pode realizá-lo”.

Tomi, porém, não conseguia aceitar essas palavras de sua mãe.

Em primeiro lugar, havia a incerteza nesse casamento com um homem desconhecido. E depois, não lhe era possível abandonar simplesmente o sonho longamente curtido, de ingressar na vida monástica. Assim, ela se escondeu na mansão da família em Mogi das Cruzes, onde a mãe, preocupada, foi buscá-la. E repetiu: “Creio que é melhor você se casar”.

As palavras repletas de verdade, ditas por sua mãe de criação de quem recebeu mais amor e cuidados que da mãe biológica levaram Tomi a recompor-se e voltar a São Paulo. Ela consultou isoladamente três padres aos quais respeitava sobre o caminho a seguir, se devia casar-se ou tornar-se freira. Os três lhe aconselharam a casar-se.

Diante do primeiro obstáculo posto em sua vida, Tomi sentiu as agruras de professar uma fé. Quem vive em fé é algumas vezes obrigado a seguir direção oposta às suas convicções fervorosas.

É fácil seguir adiante segundo experiência e convicções próprias, mesmo porque assim o futuro é previsível. O caminho alternativo, por rotas nunca imaginadas, se perde na escuridão.

Dona Margarida com o filho recém-nascido (acervo de Kunito Mori)

Lá estarão à espera riscos e perigos sem conta. Mas também, lá se encontra a suprema Vontade do Ser invisível. Ter fé é abrigar na alma a crença nesse Ser Invisível, é seguir por esse único caminho convicto de ser ele o melhor de todos, rogando no fundo d’alma: “- Salva-me Senhor, proteja-me Senhor …”; É unir vida e morte em um só espírito livre e desprendido, certo de que “por isto eu vivo, e por isto eu morro feliz”.

Viver segundo convicções próprias é viver no minúsculo casulo do próprio ser; é viver de sábias orientações oferecidas por outrem para assim ampliar e ultrapassar as próprias limitações. É viver a melhor vida que está no interior da própria alma. Dirão as pessoas que isso é felicidade ou infelicidade, mas o que elas enxergam é apenas o aspecto externo. Há infelicidades que não se mitigam nem dentro de um palácio, assim como se encontram sentimentos de gratidão mesmo dentro de um presídio.

A decisão pelo casamento, tomada por Tomi, nossa mãe salvadora da colônia – a Dona Margarida dos anos posteriores, foi guiada por sábias orientações. E depois de 8 meses de namoro na presença da mãe casou-se com o senhor Gihei Watanabe, estudante diligente que se formou em na escola superior de comércio do Rio de Janeiro custeando ele mesmo seus estudos. O noivo, senhor Gihei, tinha nessa época 30 anos e a noiva Dona Margarida, 27 anos. Ela prestara ao todo 17 anos de serviço à família do Dr. Celestino.

 

Atividades durante a guerra
impropérios dirigidos aos japoneses

 

O rompimento de relações diplomáticas entre Brasil e Japão ocorreu em 29 de janeiro de 1942. Imediatamente, dezenas e centenas de japoneses foram conduzidos ao cárcere por suspeitas diversas. Entre seus dependentes, alguns começavam a viver abandonados na rua, mas nada se podia fazer, pois, os consulados e as embaixadas haviam sido fechados. Nessa situação, grandes empresas de capital japonês, entre elas Tozan, Bratak, Hachiya, Brascott, Kaikyo e Tomen fundaram a Comissão Católica Japonesa de São Paulo (Nihonjin Kyusaikai) com fundos doados por eles. A época era de guerra, e a formação de partidos políticos ou associações por indivíduos considerados povo inimigo estava proibida. Assim, para evitar suspeitas e deixar claro que a Comissão tinha por bandeira a assistência social, ela foi colocada sob a autoridade de D. José Gaspar de Affonseca e Silva, Arcebispo de São Paulo e registrada como entidade religiosa. Dona Margarida Watanabe foi nomeada Diretora Presidente.

A Espanha era considerada país neutro. Em 7 de julho de 1943, o Consulado Espanhol de Santos telefonava à Associação para comunicar que os japoneses residentes na área litorânea haviam sido expulsos, e que o Consulado enviara quinhentos japoneses assim despejados para São Paulo. Avisados, o diretor Keizo Ishihara e o contador Masaru Takahashi se puseram em campo para procurar por toda parte esses japoneses, mas não conseguiam encontrá-los. Contudo, determinados como estavam em socorrer os conterrâneos em dificuldade, intensificaram a procura, até descobrirem por fim, ao cair da tarde, que eles haviam sido enviados à Casa dos Imigrantes. Os quinhentos compatriotas haviam sido expulsos de suas casas com a roupa que vestiam, e não haviam comido nada desde a manhã. Assim, foram comprar pão, café, leite e doces que distribuíram para os desabrigados.

Na manhã seguinte, outros quinhentos japoneses vieram enviados em trem de carga. Isso se repetiu todos os dias. Após uma semana, 6.500 japoneses estavam alojados na Casa do Imigrante.

Aconteceu que em 6 de julho de 1943, dois navios a vapor americanos e 3 brasileiros abarrotados de mantimentos e material bélico haviam zarpado do porto de Santos ao cair da tarde, e foram afundados por submarino alemão. Isso havia dado causa ao despejo imediato da população inimiga da área litorânea, alemães e japoneses, e ao transporte deles para São Paulo em trens de carga.

Era julho. As noites estavam firas e garoava. Não havia colchões ou cobertores. Mães e filhos passavam a noite abraçados em esteiras estendidas sobre o piso gelado de concreto, sem poderem dormir. Esse espetáculo deprimente era inadmissível, do ponto de vista humanitário. Um plano de socorro foi traçado: pedir a parentes e amigos dos imigrantes expulsos, residentes em São Paulo e cercanias, que os acolhessem em suas casas. Por sorte, as autoridades militares deram consentimento a esse plano, o que aliviou a situação. Mas muitos não tinham ainda aonde ir.

Eram milhares de pessoas nessa situação. A solução encontrada foi distribui-las pelas fazendas das regiões noroeste, sorocabana e paulista onde viviam muitos japoneses. A Comissão preparou lanches de sanduíche de salame, laranja e banana, e fez com que cada um dos remanescentes viajasse com o lanche nas mãos. A preparação desses lanches era um trabalho enorme. Senhoras da Comissão foram convocadas para ajudar nesse trabalho. Elas atenderam ao chamado e montaram os sanduíches na Casa dos Imigrantes.

Uma outra equipe se encarregou de levantar e registrar o destino de cada pessoa: para onde estavam indo, e quem os recebia. Esse trabalho levou duas semanas para ser concluído. Cuidar dos desalojados de Santos levou um mês e meio. Nesse tempo, duas pessoas enlouqueceram. Abortos ocorreram entre senhoras grávidas, provocados pelas noites de frio passadas sobre o chão de cimento gelado, por estresse e fadiga. Muitos gemiam, acometidos por febre alta. A Associação cuidou de todas essas pessoas.

As vítimas da confusão provocada pela guerra teriam sido incalculáveis, não fosse a presença da Comissão.

Dona Margarida levou ela mesma os lanches de sanduíches e frutas que preparara para entregá-los dentro do trem aos desalojados de Santos que partiam para o interior. E com palavras bondosas, procurava confortar cada pessoa a quem entregava o lanche. Dizia: “Senhores, estou trazendo os lanches que preparamos. Desejo-lhes felicidade e boa sorte”.

Nisso, um rapaz reclamou aos brados, raivoso: “Por que não trouxe nigirimeshi?”. Assustadas, as pessoas no vagão emudeceram ante a arrogância e grosseria do rapaz. Imediatamente, o diretor Keizo Ishihara se pôs à frente da Dona Margarida e, encarando o rapaz com firmeza, vociferou: “O que foi que você disse, rapaz?”

O senhor Ishihara fora em outros tempos marinheiro, e enfrentara mares bravios a bordo de navios em tráfego internacional. Assim, possuía traquejo em dominar desordeiros. Mostrava-se pronto a castigar o rapaz ingrato se ele ousasse responder, mas o rapaz, intimidado com a interferência inesperada, preferiu calar-se.

Terminado o trabalho de socorro aos despejados de Santos, iniciava-se um outro: O DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) iniciava caça aos suspeitos de espionagem. Cerca de 150 japoneses residentes no interior vieram presos a São Paulo, conduzidos sob escolta de soldados e investigadores para serem enviados ao cárcere. Vinham com a roupa do corpo apenas. Assim, a Comissão passou a entregar-lhes camisas, calças, meias, lenços, sabonetes, cartas e papéis em visitas de assistência aos encarcerados, para ajudá-los na situação difícil em que se encontravam.

A Comissão estava registrada como organização de caráter assistencial pertencente a sociedade religiosa. Assim, seus diretores tinham trânsito livre nas cadeias, como qualquer militar ou policial. Por esse motivo, familiares e parentes dos presos vinham até a Dona Margarida com comidas e outros artigos de necessidade para pedir-lhe que entregasse aos presos. Ela os atendia prontamente. Por outro lado, ela atendia também aos pedidos dos presos, de favores como compras e outros. Tanto era o trabalho que não encontrava tempo para descansar. Dedicava-se inteiramente de corpo e alma a essa pobre gente vitimada pela guerra movida por forte compaixão.

Entretanto, dissidências começavam a surgir entre os presos, que se dividiam em duas facções.

Pessoas conscientes da natureza da Comissão comandada por Dona Margarida formavam uma delas. A outra se compunha de pessoas hostis. Para os integrantes dessa facção, “essa gente (membros da Comissão) tem dinheiro do governo japonês. Nós somos vítimas desse governo. Exigimos tratamento melhor…”. Por isso, confrontavam a Comissão em tudo, com rancor.

Um deles chegou ao extremo de dizer: “Olha aqui, minha calça está rasgada! Vá comprar uma calça de casimira para mim!”

Certa vez, um homem chegou até Dona Margarida com um pedido: “Por favor, poderia me comprar cigarro? Não fumo há dias, e estou ansioso…”. Mais pessoas estariam nessas condições, pensou Dona Margarida, e foi prontamente comprar diversas caixas de cigarro. Abriu então o pacote, entregou ao homem um maço e se prontificava para distribui-los entre os outros quando alguém se aproximou, e disse: “Te peguei, “cachorra” (japoneses espiões da polícia que denunciavam seus compatriotas eram chamados de “cachorro”)! Então, você vem até a cadeia para ganhar mais dinheiro, vendendo essas coisas?”

Chamavam Dona Margarida de “cachorra”, ela que viera trabalhando noite e dia, mulher como era, empenhada de corpo e alma para aliviar o sofrimento dos conterrâneos. Era demais! Aquele homem nem se dera ao trabalho de verificar que ela comprara os cigarros para dar de presente a todos, e vinha lhe dizer que pretendia “ganhar mais dinheiro vendendo essas coisas”! Dona Margarida não achou palavras para contestar, diante de tamanho desaforo. Toda energia espiritual que a sustentara até aquele momento se desmoronava. A tristeza era tanta que nem chorar conseguia. Entregou todas as caixas a um homem, pediu-lhe que distribuísse a todos, e deixou o local em passos trôpegos. Esse desgosto, diz ela, não esqueceu até hoje.

Incompreensões, insultos e impropérios sempre perseguem aqueles que procuram fazer algo pelo bem da humanidade, pelo bem do mundo, em qualquer época. Muitos não conseguem suportar essas agressões e sucumbem.

Mas Dona Margarida, frágil mulher, resistiu. E com perseverança, prosseguiu em seu caminho.

 

Presos pela polícia militar por
suspeita de ligação com a
Associação Kokuryu (“Dragão Negro”)

 

Existem pessoas que sentem inveja dos bem-sucedidos, e propalam maledicências ou publicam críticas nos jornais sobre eles. E há também aqueles que, quando são presos pela polícia em virtude de alguma suspeita, abrem a boca imediatamente para desviá-la a terceiros denunciando estes e aqueles. Assim, basta interrogar um para se chegar a cinco ou seis outros suspeitos. Inúmeros foram os casos de japoneses denunciados pelos próprios conterrâneos durante a guerra e no período pós-guerra, a ponto de surpreender a própria polícia.

A colônia japonesa agradecia e louvava as atividades dos diretores da Comissão dirigida pela Dona Margarida. Eles estavam gastando muito dinheiro para salvar seus conterrâneos em dificuldades. Tanto bastou para que alguém começasse a espalhar com ares de entendido que “eles se apossaram de grandes somas da verba secreta do governo japonês, e estão utilizando a fachada da assistência aos japoneses para enfiá-las em seus bolsos”. Bem diz um ditado japonês: “Basta um cão latir distraído para que todos outros passem a latir furiosamente”. Foi o que aconteceu. A suspeita levantada por um induziu outros a suspeitarem de pessoas que trabalhavam com sincera dedicação à causa dos compatriotas, levando-as a caírem nessa sórdida armadilha.

Japoneses irados, que diziam “ser inadmissível que enquanto nós estamos comendo o pão que o diabo amassou, traidores da pátria estejam explorando os conterrâneos”, e denunciaram a Comissão à polícia. O DOPS suspeitou que o serviço de espionagem japonês estivesse agindo acobertado sob a fachada da Comissão, e que essa pretensa sociedade religiosa tivesse conexões com a temida Sociedade do Dragão Negro liderada por Mitsuru Toyama.

O DOPS conduziu interrogatórios extremamente severos particularmente com respeito à origem dos fundos substanciais da Associação. Havia um problema: as grandes empresas comerciais administradas por japoneses que contribuíam para a Comissão estavam com os ativos congelados, e impedidos oficialmente de realizar doações em dinheiro. Assim, as doações saíam de fundos não contabilizados reservados a aplicações especiais, mantidos por quaisquer empresas comerciais de vulto. Mas isso não podia ser revelado, pois as empresas seriam penalizadas por crime de ocultação de bens. Dona Margarida se viu sufocada, encurralada em um beco sem saída. Não podia permitir que os dirigentes das empresas fossem penalizados e que o socorro aos conterrâneos em dificuldades fosse interrompido.

Os olhos penetrantes do major que conduzia o interrogatório faiscavam.

Dona Margarida, que conservara sua fé a vida toda, curvou a cabeça involuntariamente. E rezou, pedindo socorro e proteção a Deus. Como por milagre, sentiu que a calma voltava ao seu espírito. O coração se aquietou, sua mente readquiriu a lucidez perdida. O que devia declarar fluiu naturalmente dos seus lábios:
“Esse dinheiro foi doado por funcionários de seis grandes empresas comerciais de japoneses e por voluntários conscienciosos preocupados em socorrer conterrâneos em dificuldades”.

Disse ela em voz clara e confiante, sem mostrar sinal algum de perturbação.

A porta mais importante e perigosa havia sido aberta. O ambiente tenso e sufocante se desanuviava em um instante. A força espiritual da Dona Margarida que empenhava sua vida alcançava a alma do major.

“Entendi. Entendi muito bem. A senhora está livre, pode voltar para sua casa”.

Assim se resolveu. O interrogatório da Dona Margarida fora severo. Se estendera por cinco longas horas, um dos mais longos interrogatórios registrados pelo DOPS.

Deixou, contudo, uma vítima.

O diretor Keizo Ishihara deveria ter comparecido ao interrogatório munido de um atestado expedido pelo Arcebispo de São Paulo, que o qualificava como membro da diretoria de uma organização de assistência humanitária. Entretanto, Ishihara extraviara esse atestado e assim, não pode apresentá-lo ao oficial encarregado do interrogatório. Por isso, acabou preso e passou oito meses encarcerado.

Era época de guerra, e medidas posteriores não tinham efeito. As decisões eram tomadas na hora. Explicações e provas deviam ser apresentadas na hora, e se não fossem aceitas, o suspeito era detido “para investigações”, e abandonado na cadeia por seis meses ou um ano.

A Comissão salvou até hoje a vida de centenas e milhares de pessoas, estendendo a mão aos japoneses da colônia atingidos por infelicidades. A própria entidade enfrentou e venceu riscos de existência, consequência da fé profunda da Dona Margarida.

 

Um grão de trigo

 

A atuação da Dona Margarida durante a guerra em extensa frente de atividades foi simplesmente notável. Tanto assim que suas realizações, incomparáveis às de dezenas de outras associações assistenciais, chegaram aos ouvidos da autoridade máxima da igreja católica, o Papa. Isso moveu o Vaticano, que enviou por três vezes contribuições à Assistência Social aos Japoneses por intermédio de Dom Gaspar, núncio apostólico em Brasília. A Comissão foi a única no Brasil a ter atuação reconhecida pelo Vaticano e a receber contribuições dele. Isso se deve ao trabalho desprendido da Dona Margarida, inspirado no nobre sentimento de amor aos conterrâneos que ela revelou.

Recebendo do Vaticano a primeira contribuição em forma de cheque (1943)

Outras contribuições vieram durante a guerra. Centenas de japoneses estavam sendo enviados à prisão e privados de suas posses. Crianças choravam famintas, as mães adoecidas. Dona Margarida assumia o papel de verdadeira mãe da colônia. Visitava os doentes em seus leitos, distribuía medicamentos e alimentos, emendava noite ao dia em trabalho insano para atendê-los. Nessa situação, a Cruz Vermelha da Suíça, país neutro, remetia contribuições por três vezes, por intermédio do arcebispo do Brasil. Foram recebidas com muita emoção, pois vinham em um período de grandes necessidades, mas sua fonte permaneceu em mistério durante a guerra. Terminada, porém, a guerra, descobriu-se que as contribuições tinham sido enviadas pela Casa Imperial japonesa. Essa revelação não só emocionou a Dona Margarida até as lágrimas como também lhe serviu de estímulo. Ela jurou em sua alma levar avante suas atividades com entusiasmo inalterado. Verdade é que a fama da atuação de uma senhora bondosa cruzara o mundo e movera não só o Vaticano como também a Casa Imperial Japonesa.

Mas finalmente, a guerra devastadora terminava. As relações diplomáticas restabelecidas, o Japão enviava seus cônsules e embaixadores. A ordem voltava no seio da colônia japonesa. E com isso, cessava em princípio a missão da Comissão. Ela poderia ser dissolvida. Contudo, os males sociais não só continuavam assolando a colônia do período pós-guerra como se agravavam dia a dia: a incidência da tuberculose se intensificava dramaticamente, assim como a quantidade de órfãos, de idosos para serem encaminhados a asilos, de doentes mentais, de casos de moças perdidas, engravidadas fora do casamento… etc, etc. Os serviços de assistência social às vítimas da guerra haviam cessado, mas Dona Margarida não encontrava descanso. Assim não era possível dissolver a Comissão. A paz retornara, o dinheiro no bolso das pessoas também, e com ele o lazer e a prosperidade. Contudo, as mazelas da sociedade também se espalhavam, contaminando-a com o seu vírus.

Era necessário aliviar Dona Margarida em seu trabalho ingente, dar-lhe folga suficiente para poder descansar. Pensando nisso, Kyunosuke Kanegae, líder em mecanização da agricultura na região da Central do Brasil, doou um jipe à Comissão. Essa iniciativa auspiciosa arrancou gritos de alegria dos associados, mas Dona Margarida pensava em outras coisas.

Fato é que a quantidade de vítimas pobres de tuberculose estava crescendo vertiginosamente. Todas as instituições sanitárias de atendimento gratuito estavam tomadas, e outro recurso não havia senão aguardar por vagas, os doentes em estado precário. A situação se agravava enquanto aguardavam internação. Eram por demais numerosos, e Dona Margarida se afligia. Precisava encontrar jeito para socorrer essas pessoas, e nisso surgiu a doação do jipe. Pensou imediatamente em construir um sanatório, problema central das suas aflições, rifando o jipe. A rifa, realizada entre voluntários, rendeu a quantia substancial de 945 contos de réis. Com esse dinheiro, Dona Margarida iniciou a construção de um sanatório para 40 pessoas em Osasco, concluída com sucesso. Assim, um único jipe se transformara em hospital que iria salvar centenas de pessoas atingidas por um destino infeliz. Belo exemplo de um grão de trigo que se multiplicou centenas de vezes em farta safra.

 

As residentes que fazem trabalhos manuais com a Dona Margarida (centro)

 

Atualmente, a lista das pessoas sob os cuidados carinhosos de Dona Margarida inclui 2 tuberculosos, 66 idosos carentes, 10 órfãos, 2 ou 3 doentes mentais por mês, e igual número de crianças naturais (em grande parte gerados por relacionamento inter-racial). A despesa mensal necessária para o custeio está em torno de 44, 45 contos de réis, e é inteiramente coberta por doações de voluntários.

Todo Natal, os órfãos são presenteados com roupas, brinquedos e doces. Os idosos asilados recebem toalhas, sabonetes, meias e outros artigos de necessidade.

Número igual de homens e mulheres estão asilados no Sanatório de Juqueri.

As mulheres enlouquecem por motivo de desarmonia conjugal ou por doenças ginecológicas. E os homens, na maioria moços, em grande parte por doenças contraídas em prostíbulos, como sífilis cerebral.

Dos órfãos cuidados pela Associação, alguns se tornaram enfermeiros. Há também aqueles que ingressaram para a vida monástica.

Cresceram também os casos de moças envolvidas em tragédia. São dois os motivos: a falsa interpretação do liberalismo, que leva as moças a desobedecerem aos pais e agirem a bel prazer com resultados fatais; e a ansiedade das mães em casar as filhas, obrigando-as a um casamento indesejado, dando como resultado a rebeldia das filhas, a decepção e, com frequência a procura da vida monástica. São o retrato doloroso da face oculta da colônia. Com o progresso da civilização, o vírus da doença social se dissemina até as entranhas da sociedade. A grande missão da colônia está em socorrer essas vítimas de tragédia estendendo uma mão carinhosa a todas essas pobres criaturas.Por felicidade, Dona Margarida está empenhando sua vida em plantar flores vermelhas à beira da estrada cinzenta percorrida por elas. Dona Margarida é sem dúvida grande orgulho da colônia.

Chibata Miyakoshi

Já faz seis anos desde que ela perdeu seu marido, Gihei. Diz ela:
“Após perder meu marido, eu fui socorrida pela Comissão. Ao ver essas pessoas atormentadas por cruéis sofrimentos, gemendo no vale de lágrimas, penso que sou ainda feliz. Se pude me dedicar ao serviço social apesar de ser dona de casa foi porque contei com a profunda compreensão do meu finado marido. E também pelo apoio que recebi dos meus colaboradores Frei Bonifácio, Masaru Takahashi, Keizo Ishihara e Chibata Miyakoshi.”

Neste ano, Dona Margarida completa 57 anos de idade (nasceu em 1900). Sua personalidade amadurece cada vez mais. Suas palavras e ações repletas de carinho, produzidas por seu espírito nobre e elevado, fazem jus a que milhares de pessoas a adorem como “mãe da colônia”.

Encerro estas linhas desejando à nossa Mãe da Colônia eterna felicidade.

 

Nota da redação

O texto aqui transcrito, de autoria do jornalista Kyuyo Kishimoto, se baseia em uma entrevista concedida pela Dona Margarida (Margarida Tomi Watanabe, 1900 ~ 1996, Kagoshima) ao jornalista. O texto foi publicado inicialmente em 1951 na revista Koya-no-Hoshi (edição de junho de 1951) sob o título “Margarida Watanabe e os que sofrem em vale de lágrimas”, e reproduzido na obra posterior acima referenciada do mesmo jornalista.
Tomi Ikegami nasceu em 1900, filha primogênita de um pescador de bonitos de Makurazaki, Província de Kagoshima. Para ajudar a família endividada com a escassez da peixes, veio para o Brasil em abril de 1912, com apenas 11 anos de idade, a bordo do navio Kanagawa Maru, em companhia de parentes. Começou a trabalhar como empregada residente na família do Dr. Celestino Burroul, médico do hospital Santa Casa. Mesmo criança, enviava dinheiro à família para pagar as dívidas. Com essa família, aprendeu, enquanto trabalhava nos afazeres domésticos habituais, etiqueta e linguagem refinados e se batizou aos 18 anos de idade.
Casou-se aos 27 anos com o contador Gihei Watanabe. Em janeiro 1942, a ditadura de Getúlio Vargas rompeu relações diplomáticas com os países do Eixo. Os imigrantes japoneses passaram então à condição de povo inimigo e receberam esse tratamento, e em março, muitas fazendas e empresas da colônia tiveram seus bens congelados. Em junho, diversos líderes da colônia foram recolhidos à prisão por suspeita de espionagem. Dona Margarida deu início nessa época às atividades da Comissão Católica Japonesa de São Paulo com o apoio de D. José Gaspar de Affonseca e Silva, Arcebispo de São Paulo. No ano seguinte, em 1943, cuidou dos 6.500 imigrantes japoneses abandonados no porto de Santos, estendendo-lhes a mão quando eles mais necessitavam de auxílio.
Em 1940, fundou a Associação Católica Nipo-Brasileira, da qual se tornou presidente. Em 1953, instituiu a Assistência Social Dom José Gaspar, no período em que muitos imigrantes japoneses estavam passando por dificuldades. Problemas de toda natureza eram levadas a Dona Margarida, que se empenhou seriamente em resolvê-los. Por ocasião da comemoração do 50º Aniversário da Imigração Japonesa, fundou o asilo para idosos Ikoi-no-sono (“Jardim de Repouso”). E por 74 anos desde a guerra, dedicou-se à assistência social. Foi agraciada em 1978 pelo governo japonês com a medalha de 4º Grau da Ordem da Coroa Sagrada. Em 1992 recebeu o Prêmio Eiji Yoshikawa, e em 93, o Prêmio Assistência Social da Empresa Mainichi. Faleceu em 12 de março de 1996, aos 95 anos de idade. Em 2015, iniciou-se no Japão um projeto para descrever sua vida em um filme. Corre no vaticano um pedido de canonização de Dona Margarida.

 


Capítulo extraído do livro Cultura Japonesa Volume 2.

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