Cônsul Noguchi se despede da comunidade nipo-brasileira e já planeja voltar ‘algum dia’

Yasushi Noguchi discursa na celebração do Ano Novo e inicio das atividades dos 110 Anos (Arquivo/Jornal Nippak)

Não era, defitivamente, a despedida que todos imaginavam depois de tanto tempo de convência. Tempo, aliás, que parece ter passado “voando”. Desde que foi apresentado à comunidade nipo-brasileira, em outubro de 2017, numa recepção realizada no Salão Nobre do Bunkyo – Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e de Assistência Social –, no bairro da Liberdade, em São Paulo, e que contou com a presença de presidentes e representantes das principais associações e entidadades nikkeis, o cônsul geral Yasushi Noguchi conquistou uma legião de admiradores. E olha que a “missão” não era nada fácil depois dos trabalhos de seus antecessores: o saudoso Kazuaki Obe, que exerceu o cargo de novembro de 2008 até junho de 2012 e que infelizmente viria a falecer em 2014 (então como embaixador do Japão no Uruguai); Noriteru Fukushima (de setembro de 2012 a maio de 2015) e Takahiro Nakamae (junho de 2015 a julho de 2017).
Seu primeiro pronunciamento oficial – surpreendentemente em português – não passou despercebido e logo chamou a atenção com comentários do tipo “o cônsul é gente boa”. De bon odori a maturis, passando por recepção às autoridades japonesas e cerimônias de posse, Yasushi Noguchi participou dos principais acontecimentos da comunidade, como as comemorações dos 110 Anos da Imigração Japonesa no Brasil, que teve como ponto alto a visita de Sua Alteza Imperial, a princesa Mako, até mais recentemente as cerimônias de abdicação do imperador emérito Akihito e a cerimônia de ascensão do novo imperadoor Naruhito ao trono japonês.
“Foi marcante, sobretudo, a visita da princesa Mako ao interior de São Paulo pois ela mostrou interesse em conhecer Marília, Promissão, Cafelândia e Araçatuba. Essa visita também impressionou muito a comunidade nikkei, principalmente no Noroeste do Estado”, disse ele, em visita à redação do Jornal Nippak no último dia 24.
Nesse período de dois anos e nove meses que esteve à frente do Consulado Geral do Japão em São Paulo – que abrange também Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e a Região do Triângulo Mineiro – Yasushi Noguchi perdeu as contas das cidades que visitou.
“Acho que o [Kazuaki] Obe e o Fukushima-san devem ter viajado mais”, diz, rindo. Mas guarda, de cabeça, a maioria das cidades que passou: “Fui a Pereira Barreto, Ilha Solteira, Guaraçaí, Guararapes, Araçatuba, Birigui, Marília, Penápolis, Cafelândia, Promissão, Andradina, Mirandópolis, Dracena, Adamantina, Presidente Prudente, Álvares Machado, Ourinhos, Bastos, Tupã, Pompeia, Registro, Itapetininga, Botucatu, Piracicaba, Guaratapará, Araraquara, Ribeirão Preto, Franca, Bragança Paulista, Suzano, São Bernardo, Mogi das Cruzes, Cuiabá, Campo Grande, Dourados, Naviraí, Osasco, Campinas, São José dos Campos…”, enumera.

Cidadão Araçatubense – Por sinal, no próximo dia 9 de julho, o cônsul Yasushi Noguchi será homenageado com o título de Cidadão Araçatubense na Câmara Municipal. A iniciativa é do presidente da Federação das Associações Culturais Nipo-Brasileiras da Noroeste, Shinichi Yassunaga, em parceria com a Associação Cultural Nipo Brasileira de Araçatuba e apoio da Câmara Municipal através da presidente Maria Teresa Assis Lemos Marques de Oliveira.
Ao Jornal Nippak, Yassunaga disse que trata-se de um reconhecimento pelo trabalho realizado pelo cônsul pela vinda da princesa Mako à região Noroeste e por sua presença em várias ocasiões na Assembleia da Federação e no Bon Odori da Noroeste, além da doação, por parte do Governo Japonês, de um micro-ônibus ao Hospital de Saúde Mental e Neurológico de Araçatuba da Associação de Amparo ao Excepcional Ritinha Prates.
A assinatura do contrato de doação foi realizada no dia 29 de janeiro, no Consulado Geral do Japão em São Paulo, através do Programa de Assistência do Japão à Projetos Comunitários.
Em função da pandemia, porém, o cônsul informou ao Nippak que não poderá receber a honraria. “Estamos estudando a melhor forma de prestarmos a homenagem”, disse Shinichi Yassunaga.

Shokonsai – Já em relação às cidades que não teve tempo de visitar por falta de tempo, fazem parte da lista Ibiúna e Piedade. Das localidades que visitou, disse que ficou chateado com o cancelamento da celebração do Centenário do Shokonsai (reverência à memória dos antepassados), realizado no Cemitério de Imigrantes Japoneses em Álvares Machado em função da pandemia.
“Disseram que em 99 anos nunca choveu no Shokonsai”, disse ele, que foi informado que a comemoração havia sido cancelada, mas foi retomada por iniciativa dos jovens e que, com a contratação de profissionais, a organização do evento está em andamento.

Crises – Coincidência ou não, Yasushi Noguchi chegou quando o país estava em meio à uma crise – crises, aliás, econômica e política – e está se despedindo em meio aquela que está sendo considerada a pior crise desde a Segunda Guerra: a pandemia do novo coronavírus.
E justamente por conta da Covid-19, o Bunkyo está programando uma despedida online no dia 14 de julho. “É triste, mas esse coronavirus não permite aglomeração”, conta Noguchi, lembrando que nessas ocasiões – de despedida do cônsul geral – é comum a realização de eventos na Residência Oficial e no Bunkyo. “Gostaria que fosse realizada, mas este ano está difícil”, justitifica Noguchi, explicando que os três últimos meses foram de muitas preocupações e trabalho no Consulado.
“Primeiro, prestamos muito atenção à saúde dos funcinários do Consulado porque se alguém testasse positivo o Consulado teria que fechar. Introduzimos o teletrabalho para a maioria e também facilitamos as informações no idioma japonês sobre que medidas os governos federal, estadual e municipal estão tomando para combater o coronavírus”, diz, destacando que os japoneses que moram aqui não entendem muito bem o que está acontecendo em São Paulo e no resto do país.

“Os três últimos meses foram de muito trabalho e preocupação” (Arquivo/Jornal Nippak)

Preocupação – Segundo ele, no Japão, os japoneses estão muito preocupados com o que está acontecendo no Brasil. “Por um lado, a cada dia está aumentando o número de casos positivos e também o número de óbitos – o Brasil já é o segundo maior país em número de infectados. Por outro lado, o presidente Jair Bolsonaro está saindo às ruas sem máscara, tirando fotos com simpatizantes, apertando as mãos e abraçando as pessoas. Essa imagem preocupa muito os japoneses que moram no Japão e no Brasil, que ficam se perguntando: ‘O que está acontecendo?’ Isso é muito ruim”, afirma Noguchi, acrescentando que, em contrapartida, “aqui em São Paulo, as medidas de quarentena são idênticas às medidas adotadas na Europa e nos Estados Unidos”, ou seja, estão dentro dos padrões internacionais.
Para ele, no Estado de São Paulo, tanto a flexibilização quanto o endurecimento da quarentena estão baseados em índices “transparentes e objetivos”, como a taxa de ocupação de UTI ou o aumento semanal do número de casos positivos e óbitos. “São essas informações que estamos transmitindo”, comentou ele, afirmando que nenhum funcionário do Consulado testou positivo. “Felizmente”, disse o cônsul, destacando que outra função importante do Consulado Geral do Japão em São Paulo nesse período de pandemia tem sido a de ajudar os japoneses que estão em outros países da América do Sul a retornarem ao Japão via Europa pelo Aeroporto Internacional de Cumbica, em Guarulhos.
Para Noguchi, desde o início dos casos no Brasil, o governo japonês classificou o país no nível 3, que corresponde aos territórios que desaconselha a viajar.
“Alguns países estão negociando a reabertura com o Japão, como o Vietnã, a Tailândia, a Nova Zelândia e a Austráliia, países com poucos casos de mortes e de infectatos e que mantêm muitas relações comerciais com o Japão. Quanto ao Brasil esperamos que isso aconteça em breve, mas vai depender dos números”, garantiu Noguchi, explicando que “ainda não me informaram o portfolio que terei no Japão”.
Segundo ele, a tendência é que fique no Japão mesmo, seja no Ministério dos Negócios Estrangeiros ou em outro Ministério. Mas disse que pretende aproveitar as oportunidades para divulgar sua experiência em solo brasileiro, onde “estreou como cônsul geral”.

Experiência – “Fiquei impressionado com a enorme presença de nikkeis no Brasil e mais impressionado ainda com a contribuição dos nikkeis para melhorar a sociedade brasileira. Acho que o próprio Japão desconhece essa enorme presença de nikkeis aqui no Brasil. Ou melhor, eles sabem algo, como por exemplo, que a comunidade aqui é a maior fora do Japão e há muitos descendentes de japoneses no Brasil. Mas morando aqui a gente pode conhecer e sentir melhor essa presença. Então quero divulgar essa rica informação. Acredito que terei oportunidade de transmitir essa minha experiência através de algumas palestras”, diz Noguchi que aproveitou para agradecer o “caloroso apoio” recebido da comunidade durante seu mandato.
“Espero que esse interesse em divulgar a cultura japonesa cresça cada vez mais entre os jovens. O governo japonês quer continuar apoiando a comunidade nikkei e esperamos, sobretudo, que essa tradição se perpetue e seja transmitida às próximas gerações”, finalizou Yasushi Noguchi, que pediu também que seu sucessor seja recebido com o mesmo carinho com que foi tratado durante sua permanência no país, que, aliás, ele espera retornar em breve. “Vai depender do meu portfolio, mas um dia quero voltar sim”, disse Noguchi. Indagado se como embaixador, ele sorriu.

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