COMUNIDADE BRASILEIRA NO JAPÃO: Conheça o Green Kids, grupo de rap formado por filhos de decasséguis brasileiros e peruanos

Green Kids é um grupo de rap multinacional com origem brasileira, peruana e japonesa (Yukiharu Takahashi)

*Yukiharu Takahashi

Na província de Shizuoka, a cerca de dez minutos de carro da estação de Iwata, fica o Iwata Toshincho Danchi, um complexo habitacional popular. Ao redor desse complexo se espalham plantações e casas sobradas.
Cerca de 60% dos moradores deste complexo são nikkeis que foram ao Japão para trabalhar de decasségui saindo de países da América Latina, como Brasil e Peru. Foi aqui que surgiu o grupo de rap Green Kids.
O grupo é formado por Acha (Wang Asahiko, 24 anos), nikkei do Peru; os irmãos gêmeos Flight-A (Alan Shimada, 22 anos) e Swag-A (Alex Shimada, 22 anos); Barco (Bruno Kenji Saito Yoshitani, 22 anos); e Dj Pig (Futamata Crespo Alex) – estes últimos, nikkeis do Brasil (Pig é o único do grupo nascido no Brasil e que foi ao Japão aos 12 anos levado pelos pais) – e Crazy-K (Gota Ooka, 21 anos), que é japonês.
O GK é um grupo de rap multinacional com origem brasileira, peruana e japonesa. O líder, Acha, é yonsei (descendente japonês de 4ª geração), mistura de peruano, chinês e japonês. Os outros também são mestiços que possuem ascendência brasileira e japonesa.
Acha, Flight-A e Swag-A nasceram no próprio Danchi, enquanto Barco se mudou de Hamamatsu para lá, onde cresceu. Pig e Crazy-K cresceram na cidade vizinha de Fukuroi.
Quando o Japão revisou sua Lei de Imigração, em 1990, descendentes de japoneses de 2ª e 3ª geração passaram a morar lá em busca de trabalho. Na crise de 2008, ano da quebra do Banco Lehman Brothers, o número estimado de decasséguis era de 360 mil pessoas.
Os brasileiros constituíam uma parcela de 310 mil pessoas, mas esse contingente caiu para cerca de 173 mil em 2015 depois que muitos retornaram ao Brasil ao perderem seus empregos. No entanto, em decorrência do recente déficit japonês de mão de obra, o número voltou a crescer para cerca de 207 mil (2019).
Na cidade de Iwata, por exemplo, o número de brasileiros que era de 7.519, em 2008, caiu para 3.535, em 2014, e atualmente subiu para 4.825.
Antes da crise de 2008, o Toshincho Danchi era uma zona degradada com fama de perigosa e que era evitada até pelos brasileiros.
No dia em que Pig chegou ao Danchi pela primeira vez, o dinheiro da máquina de venda automática tinha sido recém-roubada. O local estava apinhado de carros de polícia com os giroflex ligados.
Segundo Pig, “naquela época, tinha uma viatura estacionada no Danchi 24 horas por dia”.
O GK foi formado em 2013, mas só ganhou destaque graças à música “E.N.T”. É a abreviação inglesa de Toshincho, ou seja, “East New Town (Cidade Nova do Leste)”. A letra da música começa da seguinte forma: “O começo foi neste Danchi! / Eu cresci nesta cidade, East New Town / Minha turma dos tempos de moleque se reuniu / Meu primeiro roubo foi no Yagi Kyodai (Irmãos Yagi) e Yanagiya”
Yagi Kyodai e Yanagiya são supermercados da região. O primeiro roubo de Acha, líder do GK, foi um yaki gyoza (pastel chinês frito) do supermercado. Os pais estavam ocupados demais, trabalhando para sustentar a família, e não tinham condições de cuidar do filho. Na escola, ele sofria bullying. Sem ir para a escola, perdia a merenda e perambulava dentro do Danchi de barriga vazia.
De acordo com a letra de E.N.T., “roubar para matar a fome era coisa normal”. Eles cravam na letra da música os sentimentos de dor, tristeza, raiva e alegria que experimentaram dentro do Complexo.
Para Flight-A, “não é só na letra de E.N.T”. “Todas as nossas músicas são baseadas em nossas experiências. Essa é a nossa força no GK”, diz.
Muitas famílias nikkeis que foram ao Japão de decasségui usam o português e o espanhol dentro de casa. Evidentemente, as crianças têm pouca oportunidade de praticar o japonês. As línguas mais comuns que se escutam dentro do Complexo também é o português e o espanhol.
No dia da cerimônia de entrada na Escola de Ensino Fundamental da região, os irmãos gêmeos choraram ao chegar a hora de se apresentar diante da turma, porque não conseguiam falar japonês.
A aparência deles também era diferente do japonês médio. A mãe é descendente, mas o pai é da Bahia e os irmãos são morenos. A partir desse dia, os dois passaram a ser chamados de “gaijin (estrangeiro)”.
Há 45 anos, eu mesmo tive a experiência de vir ao Brasil como imigrante. Minha esposa é sansei (descendente de japonês de 3ª geração). Assim que a Lei de Imigração Japonesa foi revista, em 1990, muitos parentes de minha esposa foram ao Japão. Algum tempo depois, ela passou a receber muitos pedidos de conselho dos parentes por questão do bullying nas escolas.
Quando as crianças brasileiras se matriculavam em uma escola japonesa, quase que obrigatoriamente eram batizadas com as seguintes frases: “gaijin (estrangeiro)” e “jibun no kuni ni kaere (volte para seu país)”.
A psicóloga Kyoko Nakagawa nasceu em Tóquio e mora em São Paulo. É uma “semi-nissei” que migrou para o Brasil quando ainda era pequena. Ela realizou um estudo sobre a situação educacional dos filhos de decasségui em Homi Danchi, na cidade de Toyota, província de Aichi, entre setembro e novembro de 2003.
As consequências do bullying sofrido nas escolas pelas crianças é muito grande. Foram entrevistados 135 adolescentes brasileiros de Homi Danchi, da cidade de Kariya, província de Aichi, e também da cidade de Hamamatsu, província de Shizuoka. 58% dos entrevistados começou tentando frequentar as escolas públicas japonesas, porém, por ocasião da entrevista, apenas 10% continuava a frequentar. O motivo mais frequente para a desistência era o bullying. Uma grande parte dos filhos de decasséguis acabavam tendo medo de ir à escola.
Os membros do GK passaram pela mesma experiência. Barco também sofreu a mesma agressão verbal dos colegas da Escola Fundamental que frequentava.

Pig: “Os colegas não conheciam a história dos imigrantes japoneses” (Yukiharu Takahashi)

Pig foi ao Japão quando já tinha 12 anos e não sabia falar nada da língua. Avançou para o Fundamental 2 sem saber falar.
“Quem me ensinou japonês foi um colega chamado de delinquente na escola”, lembra.
Os atritos entre estudantes japoneses e filhos de decasségui se repetiam em diversos pontos do Japão. A municipalidade dava assistência para o aprendizado da língua japonesa das crianças estrangeiras, mas, provavelmente, era insuficiente.
Segundo Pig, “não havia colegas que conheciam a história dos migrantes japoneses a ponto de entender por que os descendentes brasileiros voltavam para o Japão como decasséguis”.
Os livros didáticos do ensino fundamental 2 dedicavam somente uma ou duas páginas para explicar as migrações japonesas para as Américas do Norte e Sul.

Flight A: “Sempre nos tratavam como gente inconveniente” (Yukiharu Takahashi)

“Sempre nos tratavam como gente inconveniente”, conta Flight-A.
De acordo com Swag-A, “o professor que nos ensinava japonês era a única pessoa que tratava bem os alunos gaijin”.
Seu irmão explica que “como não entendia japonês, ficava dormindo na hora das provas”. “Na hora de recolher as folhas de resposta, minha folha estava babada”, diz Flight-A.
Quando os dois avançaram para o Ensino Fundamental 2, a “Sala de Aula Especial” os aguardava. Era uma sala distinta, separada dos outros alunos. A primeira aula desta sala era Educação Física.
Swag-A conta que “fazíamos a limpeza das valas de esgoto ou a preparação do percurso para a corrida de maratona dos outros alunos”. “Falavam que a educação obrigatória era para os japoneses e que não tinha relação com os gaijins…”, lembra.
Pig conta que também teve de ouvir isso repetidas vezes. “Odiava escutar isso”, lembra Pig.
A respeito desse movimento de exclusão das crianças de nacionalidade estrangeira da educação obrigatória, o professor Daisuke Onuki do Departamento Internacional da Universidade de Tokai, que já morou no Brasil, diz o seguinte:
Segundo a ‘Pesquisa Sobre a Escolaridade das Crianças Estrangeiras’ realizada pelo Ministério da Educação, Cultura, Esportes, Ciência e Tecnologia do Japão em 2019, dentre os 123.830 crianças estrangeiras em idade de estudo, possivelmente 19.471 (se incluir as crianças com previsão de voltar ou que já voltaram para o país de origem: 22.488 crianças) não frequentam a escola. Ou seja, pode significar que 16 a 18% das crianças de nacionalidade estrangeira (uma entre seis crianças) não frequentem a escola.
A “educação obrigatória” trata-se da “obrigação que os responsáveis tem de oferecer uma educação básica às suas crianças” e, para as crianças, significa a garantia de ter seu “direito de receber uma educação básica”. Esse direito é garantido a todas as pessoas. Como declarado explicitamente na declaração internacional dos direitos humanos, a educação fundamental 1 e 2 deve ser oferecida a todos obrigatoriamente e de graça.
Mas, isso não ocorre na prática. As crianças que nascem e crescem no Danchi, consequentemente, se afastam das escolas. A vida se tornava cada vez mais degradada e o Danchi estava cheio de veteranos e colegas que, como eles, não tinham para onde ir.

“O gueto onde nasci é Iwata Toshincho / Desde pequeno experimentei de tudo / Briga, drogas, roubo e putas / Os veteranos eram drogados” (Real Daily)

Mesmo no Danchi, os irmãos gêmeos e Acha são os casos mais exemplares dessa realidade. Eram tratados com desdém até pelos brasileiros e peruanos que moram no Danchi.

Barco: “Fiz de tudo, com exceção de assassinato, estupro e drogas” (Yukiharu Takahashi)

Segundo Barco, “me disseram que não era para me aproximar deles”. Ele também repetiu furtos e recebeu um ano e meio de educação correcional na Casa de Menores Kitsuregawa, na província de Tochigi.
“Fiz de tudo, com exceção de assassinato, estupro e drogas”, afirma Barco.
Crazy-K caiu de para quedas no degradado complexo Toshincho Danchi.

“Acho que foi no 3º ano do Fundamental 2 / Eram iguais a mim / Nós não tínhamos sonho ou esperança / Éramos desdenhados” (E.N.T)

Ele chegou a ser enviado para a casa de detenção juvenil. Os irmãos gêmeos e Crazy-K planejaram um furto. Dirigiram sem habilitação e pararam o carro no estacionamento do supermercado. Entupiram o carrinho do supermercado com o que queriam e correram para o carro sem passar pelo caixa. Carregaram o carro com produtos furtados e fugiam imediatamente. Bateram e deram perda total no outro carro.
Swag-A lembra que ficou aguardando no carro sem entrar no supermercado, “mas a polícia rapidamente descobriu que éramos gêmeos e fui capturado também”. A mãe dos gêmeos saiu pedindo desculpas a todos: à polícia, ao supermercado e ao dono do carro que teve perda total.
“Eu fazia coisas tão fora da realidade que começaram a me chamar de Flight. Causei muitos problemas à minha mãe. Ela andava de bicicleta nos procurando por todo o canto com medo de que aprontássemos algo, por isso chegou a ser conhecida como a policial de bicicleta de Toshincho”, diz Flight-A.
O “Relatório de Análise Detalhada da Pesquisa sobre as Condições de Vida em Toshincho Danchi, na Cidade de Iwata” (março de 2016, conduzido pelo pesquisador Shigehiro Ikegami, Professor Titular da Universidade de Arte e Cultura de Shizuoka) contém dados sobre os desejos dos pais em relação à educação de seus filhos.
A resposta mais comum foi ‘formado em uma faculdade ou universidade (do Japão)’” com 30,6%. Em seguida, ‘graduar-se na escola especializada’ com 24,7%. 21,2% dos pais e responsáveis esperam que suas crianças concluam o ensino médio no Japão. 20,0% dos pais e responsáveis acreditam que a conclusão do Ensino Fundamental 2 do Japão ou de uma escola internacional seja suficiente, e muitos pais desejam que seus filhos tenham pelo menos um diploma do Ensino Médio em uma escola japonesa ou um diploma de Ensino Médio ou de grau superior em uma escola internacional .
Dentre os filhos de decasségui há professores do Fundamental 2 e advogados aprovados no exame de ordem. Existem aqueles que se tornam universitários que vão estudar de bolsa no Brasil, mas não são poucos os jovens que se desviam dessa rota. Nenhum dos membros do GK se formaram no Ensino Médio.

Swag A: “Cheguei a me ressentir de ter nascido neste Danchi” (Yukiharu Takahashi)

“Por que sou tão miserável? Cheguei a me ressentir de ter nascido neste Danchi”, diz Swag-A.
Os pais trabalham nos locais indicados pelas agências de recrutamento de pessoal, mas são os primeiros a serem dispensados quando necessário. Na crise de 2008, muitos nikkeis ficaram sem trabalho.
A mãe de Acha trabalhou duro para economizar e abrir um restaurante peruano. A crise atingiu logo em seguida e o restaurante fechou as portas pouco tempo depois.

Com apenas 15 anos, Acha chegou a ficar sozinho no Japão (Yukiharu Takahashi)

Em 2011, os pais de Acha voltaram um tempo ao Peru. Acha ficou no Japão sozinho. Ele só tinha 15 anos e a luz do apartamento foi cortada por atraso no pagamento. Ele fazia as refeições na casa dos gêmeos.
“O veterano me ofereceu drogas, mas não me interessei e recusei”, recorda.
No entanto, depois que começou a morar sozinho, experimentou cheirar a droga.
“Uma vez foi o suficiente para não poder parar mais”, admite.
Na época, havia lojas em frente da estação de Iwata ou dentro da cidade de Hamamatsu que vendiam drogas legais sintéticas. Acha passou frequentar essas lojas de canudo na boca para cheirar as substâncias.
O Danchi ficou ainda mais decadente. Sem lugar para ficar, a turma passou a se juntar na frente do Salão de Reuniões do Danchi.
Quando se está na verdadeira escuridão, não se enxerga nada. Nem suas mãos e pés, nem o rosto dos companheiros que estão do lado.

“Nos amparávamos, mesmo cegos”. (Real daily)

Agora não tem porque desinstalaram, mas, antes, havia uma máquina de vendas na frente do Salão. Bastava colocar uma moeda de dez ienes para a máquina se iluminar e revelar as bebidas que estão à venda. A turma passava a madrugada reunida na frente dessa luz, sem qualquer motivo específico.
“Para nós, a iluminação da máquina era uma ‘luz divina’”, diz Flight-A.
A luz artificial da moeda de 10 ienes era a luz da esperança para os jovens.
Os dedos que apenas tateavam na escuridão que parecia não ter fim encostou em algo.
“Será que a gente não consegue fazer isto?”, disse alguém.
No smartphone da mão rolava um vídeo do youtube.
Era sobre um campeonato de rap entre colegiais.
O rap é um movimento que começou nas festas realizadas no Bronx de Nova York durante a década de 1970. Caracteriza-se pelos versos rimados entoados ao som do ritmo. Os grandes expoentes são jovens pobres de origem negra ou hispânica. Era uma época em que a segurança pública era péssima e os confrontos entre as gangues eram frequentes. À medida em que o rap foi ganhando força, os jovens das gangues passaram a se expressar pela música em vez de apelar para a violência.
Começaram a surgir jovens no próprio Toshincho Danchi que escreviam e cantavam rap.
Acha observa que “existiam alguns grupos, mas estavam todos isolados, no início”.
“O Acha e a gente estávamos divididos em grupos separados”, conta Flight-A.
Os grupos se reuniram na frente do Salão de Reuniões e se uniram. Era o nascimento do GK. Há muito verde e plantações ao redor do Danchi e o nome da banda se refere a nós, os moleques que moram nesse complexo cercado pelo verde. Isso foi em 2013.
Pouco tempo depois da guerra, compor o tradicional haiku japonês ficou popular na sociedade nikkei do Brasil. Os imigrantes queriam voltar realizados ao Japão e não planejavam permanecer definitivamente.
A educação dos filhos de antes da guerra dava mais importância à educação japonesa. A poesia composta com apenas 17 sílabas conquistou esses filhos de japoneses e foi usada para expressar os sentimentos complexos dos jovens que balançavam entre as naturezas japonesa e brasileira. No haiku é preciso incluir alguma expressão que indique a estação do ano. As quatro estações não são muito distintas no Brasil, o que dificultava as composições brasileiras. Apesar disso, esses pioneiros criaram suas próprias expressões e compuseram com paixão. Talvez tenha servido de atividade espiritual para os jovens nikkeis que buscavam consolidar sua própria identidade tendo de viver aqui no Brasil.
O que atraiu o coração dos yonseis que nasceram no Toshincho Danchi foi o rap. Nas regiões em que vivem muitos brasileiros, existem escolas que dão aula seguindo o currículo brasileiro. No entanto, a mensalidade dessas escolas é cara. Somente parte das crianças decasséguis têm condições de se matricular nessas escolas.
As crianças que vão às escolas públicas japonesas dos Ensinos Fundamental 1 e 2 têm de enfrentar o bullying, o preconceito e a incompreensão dos educadores. Não têm a oportunidade de receber educação, mesmo ela sendo obrigatória.
Para eles, que passaram por essa experiência, o meio que encontraram para fazer uma reflexão sobre a própria vida era o rap.

“Não faço isso para ganhar dinheiro / só estou perseguindo algo que gosto / não adianta ser imitação de outro / aprendi a realidade crua neste Danchi decadente” (E.N.T)

Algumas salas ficavam vazias durante o dia quando o dono saía para trabalhar, reuniam-se nessas salas para pensar nas letras. Á noite, reuniam-se na máquina de vendas diante do salão de convenções, tiravam a máquina da tomada, ligavam os equipamentos de som e treinavam até meia-noite. Os moradores da vizinhança reclamavam, e os carros da polícia se aproximavam para mandar a turma se dispersar. Mas isso não era suficiente para acabar com a paixão deles.
O processo de composição das letras começava com cada um colocando para fora os sentimentos sedimentados dentro do coração.

“Sofri muita inveja e ciúmes / como era gaijin, também sofria discriminação” (Escape)

A paixão pelo rap era tanta que Acha tinha parado de se drogar.
O nome do GK começou a ficar conhecido entre as casas de shows ao vivo das regiões de Shizuoka e Aichi. O primeiro show ao vivo foi em Toyota, em 2015. As empresas ligadas à Toyota empregam muitos nikkeis. Os admiradores do grupo da região onde moram foram assistir ao show.
Eles já haviam se “formado” do Fundamental 2 e alguns já estavam empregados, como por exemplo, nas linhas de montagem de fábricas.
“Se alguma casa nos chamasse, nos metíamos dentro de uma minivan e íamos para qualquer lugar, mesmo sem receber cachê”, comenta Flight-A.
Em um ano, eles apresentaram 63 shows nessas casas, sem receber qualquer cachê. Precisavam pegar a via expressa Tomei e isso implicava em custos para pagar o pedágio e o combustível. As despesas eram rateadas pela turma.
Segundo Flight-A, a vontade fazer shows era tanta que “íamos nem que fosse para ter uma participação de apenas 8 minutos”.
Nas manhãs seguintes, ao voltar a Toshincho, tinham que ir direto para o trabalho.
A popularidade foi aumentando aos poucos e começaram a ganhar cachê. O cachê, eles decidiram economizar. As contas do dia-a-dia seriam pagas com o que ganhavam nos empregos.
O GK passou a ser conhecido no Japão inteiro graças ao vídeo clipe do E.N.T que produziram em 2018 usando o dinheiro economizado dos cachês.

“Tenho em minhas mãos, de trocados a diamantes / Até mesmo alguém como eu comecei a subir um pouco na vida” (Worry)

Eles cantaram “E.N.T” diante do Salão de Reuniões. Os moradores do Danchi se juntaram para assistir. As cenas vão se sucedendo: da varanda do Danchi até as escadarias. Por último, o clipe termina com os carros patrulhas e seus giroflex ligados. O vídeo foi ao ar no Youtube e já ultrapassou 300 mil visualizações.
E não é só isso. Flight-A fez uma participação solo numa audição do programa “Rap Star Tanjo! (Nasce um Astro do RAP!)” transmitido pela ABEMA TV (Rede de TV da internet). Ele passou pelas preliminares e participou das finais. Ficou em 4º lugar na 3ª temporada do programa (2018).
“Quando cheguei ao local do show, em Tóquio, já estava quase na hora do concurso começar. Estava tão cheio de pessoas que tive de torcer de lá do fundo”, conta PIG.

“Mesmo em uma favela você pode receber a luz dos flashes”. (E.N.T)

O GK finalmente está começando a conquistar um lugar ao sol. Quando foi criado, haviam 13 membros.
De acordo com Flight-A, “uns casaram, outros saíram do grupo para trabalhar”. Esses não foram os únicos motivos.

“Nosso companheiro que sumiu, ele continua na cadeia” “Não esqueci daquela promessa! / os dois que saíram, olhem para nós, agora! / eu, que não sabia compor letras, hein? / Agora sou o líder / sou responsável pelo Green Kids, nós” (E.N.T)

No braço direito de Flight-A tem uma tatuagem escrita “Toshincho” e no braço direito de Swag-A tem “0538”, o prefixo da cidade de Iwata. Para eles, a origem de tudo está no Danchi.

“Não vamos fugir, nem nos esconder. Estamos aqui / Subiremos de vida daqui do 0538”. (Escape)

“Sinto que galgamos as escadas degrau a degrau”, diz Flight-A.
A realização do sonho ainda está lá na frente. Eles trabalhavam durante o dia e realizavam três a quatro shows por mês. Graças ao coronavírus, os shows foram cancelados e alguns integrantes perderam seus empregos. A realidade é muito dura para a segunda geração dos decasséguis que cresceram no Japão. Mesmo assim, o GK continua a cantar e não param de seguir em frente.

“Ainda que este momento seja doloroso, precisamos ficar aqui / Já não temos tempo para voltar atrás…” (Worry)

“O ambiente não tem nada a ver / pelo contrário, sou grato a esta cidade” (E.N.T)

Eles não desistiram, nem perderam o foco, mesmo diante das adversidades.
Acha destaca que “gostaria de viver só de shows e de realizar um tour pelo Japão”. “Para isso, precisamos criar mais músicas”, emenda Flight-A.
O próximo objetivo é gravar um clipe no Brasil.
Tem uma letra assim.

“As raízes não mudam”. (Real daily)

Até hoje, eles vêm rebatendo o ódio voltado às suas raízes.

“O ódio, transformamos em amor e força”. (Worry)

Barco revela que adotou esse apelido “imaginando os ‘kurofune (navios negros)’ que, no passado, forçaram o Japão a abrir os portos para o estrangeiro”.
Em português, grandes embarcações como o “Kurofune” se chamariam naus ou navios. “Barco” se refere mais a uma embarcação de menor porte. O GK pode ser um pequeno barco negro pressionando a sociedade japonesa a conviver com os nikkeis e os outros estrangeiros.
Segundo o Ministério da Saúde, do Trabalho e do Bem-Estar Social do Japão, atualmente, o país abriga cerca de 1,66 milhões de trabalhadores estrangeiros. Também há muitos chineses e vietnamitas. Certamente, mais e mais crianças de estrangeiros nascerão.
Para Flight-A, “queremos ser a esperança dessas pessoas”. “Mesmo que a vida seja dura, o sonho se realizará se você se esforçar”, afirma.
As letras compostas pelo GK são o grito deles que lutam por terem suas vidas no Japão. Mas, ao mesmo tempo, me soa como o grito de nascimento de uma nova identidade.

*Yukiharu Takahashi é jornalista e atualmente reside no Japão, onde nasceu. Na década de 80 ele trabalhou no extinto Jornal Paulista

Grupo passou a ser conhecido no Japão em 2018 (Yukiharu Takahashi)
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