Com foco na modernização, Santa Cruz anuncia mudança em seu quadro de diretores

(Jiro Mochizuki)

Referência em várias especialidades, como oftalmologia, neurologia, ortopedia e cardiologia, entre outras, além de ser reconhecido pelos equipamentos de última geração –, o Hospital Santa Cruz (HSC) está anunciando mudanças no seu quadro de diretores. O economista Marcelo Tsuji – que já exerce o cargo de Diretor Financeiro – passa a responder também pela Diretoria Executiva, pasta que antes era ocupada pelo superintendente geral, Leonel Fernandes. Houve mudança também na Diretoria Técnica, com a saída de Júlio Yamano e a entrada de Renato Hassegawa para o seu lugar.
Segundo o presidente do HSC, Renato Ishikawa, as mudanças fazem parte do projeto de reestruturação do hospital em busca de modernização. “Estamos olhando para o futuro e o Marcelo Tsuji fez carreira nos Estados Unidos, além ter atuado em várias empresas de consultorias. Precisamos de cabeças novas e profissionais com esse perfil”, conta Ishikawa, acrescentando que continuará respondendo normalmente como presidente até o término do seu mandato, em março de 2021.
“Mas é o Marcelo Tsuji que estará presente no dia a dia do hospital”, disse Ishikawa, explicando que, por enquanto, o novo diretor executivo acumulará também o cargo de diretor financeiro. Na sexta passada, dia 21, Marcelo Tsuji e Renato Hassegawa foram apresentados à comunidade nikkei pelos vice-presidentes da instiuição, Mário Sato e Masato Ninomiya durante almoço mensal da Câmara de Comércio e Indústria Japonesa do Brasil, que reuniu empresários e lideranças.

Estabilidade – Economista formado pela USP com pós-graduação na Universidade de Cambridge, na Inglaterra, Marcelo Tsuji tem mestrado e doutorado pela USP em Filosofia e Matemática. Com carreira acadêmica, teve, ao mesmo tempo, carreira em business como consultor e durante 15 anos foi economista chefe do professor e economista Delfim Netto e sócio-diretor de várias empresas de consultorias. Atualmente trabalha na Prospectiva, uma das maiores empresas do país em análise estratégico e risco político.
Dono de um currículo assim, Tsuji é muito respeitado no meio, mas ainda é pouco conhecido dentro da comunidade nikkei. Apesar disso, esta é a sua segunda passagem pelo Hospital Santa Cruz. A primeira foi de 2004 a 2007, quando também foi diretor financeiro na gestão do então presidente Paulo Yokota. “Acompanho o Santa Cruz há muito tempo e vi a instituição passar por muitas crises. A gestão do Dr. Renato Ishikawa trouxe estabilidade, mas como ele mesmo costuma dizer, estabilizou no mesmo tipo de modelo que a gente vem desde o ano 2000”, conta Tsuji, que reassumiu o posto em 2018, já na gestão de Renato Ishikawa.

Reinventar – “Ocorre que, de uns cinco anos para cá, o mercado de saúde no Brasil mudou muito com a entrada de fundos estrangeiros – um tanto agressivo – e com hospitais fazendo fusões”, explica. Segundo Tsuji, para sobreviver neste cenário, o Hospital Santa Cruz precisa se “reinventar”.
E é aí que ele espera contribuir com toda sua experiência. Sua missão, entre outros desafios, será a de preparar um plano de gestão de modernização, além de colocar pessoas novas na Diretoria. “Novas, mas com poder de decisão”, observa. E o primeiro a fazer parte da nova equipe foi o médico Renato Hassegawa.

O novo Diretor Técnico Renato Hassegawa e o Diretor Executivo, Marcelo Tsuji: “O mercado mudou” (Jiro Mochizuki)

Distanciamento – Formado em Medicina na USP com especialização em endoscopia no Sírio-Libanês – onde ficou até 2006 –, Renato Hassegawa já trabalha há 14 anos no Santa Cruz e também é assistente no Hospital Universitário da USP.
“Conheço bem o corpo clínico do Santa Cruz”, diz Hassegawa, cujo trabalho será o de “diminuir espaços”. Como, por exemplo, da administração com os médicos. “Esse distanciamento gera uma série de problemas. O corpo clínico fica desagregado e passa a não trabalhar em sinergia com a direção do hospital”, diz Hassegawa, afirmando que “o Santa Cruz também envelheceu não só na parte de estrutura fisica”.
“Sempre respeitando os colegas mais antigos, mas a gente vai tentar agregar os espaços vazios, trazer profissionais que possam agregar e que façam o hospital ficar mais alinhado com a nova estratégia de privilegiar procedimentos de mais complexidade e continuar atendendo a população”, explica Hassegawa, destacando que a ideia é mudar o conceito do hospital, que hoje é visto como de baixa complexidade.
“Às vezes hoje o hospital tem uma unidade coronária, ou de oncologia mas que são subutilizados porque as pessoas associam o hospital com uma coisa de baixa complexidade. Poucas pessoas, sabem, por exemplo, que temos centros cirúrgicos capacitados para executar operações de alta complexidade. A gente quer utilizar essas especialidades e mudar o perfil de atendimento do hospital, mas mantendo o atendimento básico à população”, observa Hassegawa, que é da opinião que “as crises tem que ser resolvidas na fase aguda”. “Se ficar uma coisa crônica ela vai se agravando com o tempo.

Cultura japonesa – Marcelo Tsuji ressalta que, o mais importante nesta mudança será “manter o que o hospital tem de bom”. Uma delas é a tradição ligada à cultura japonesa “Essa tradição da cultura japonesa que a gente sempre teve no hospital, de procurar atender bem as pessoas e ter uma atenção especial com os pacientes, isso a gente nunca pode perder porque faz parte das nossas origens, da nossa tradição”, conta Tsuji.
“Mas dentro dessa linha temos que procurar uma modernização, como fizeram várias empresas japonesas que passaram por crises nos anos 90 e 2000 e que tiveram que se reiventar mas que conseguiram sobreviver. É o que a gnte vai procurar fazer, modernizar o hospital, mas sempre de olho nas nossas raízes”, explicou Tsuji, afirmando que “tenho plena consciência que o Hospital Santa Cruz ainda é motivo de orgulho para a comunidade japonesa”. “E agente vai lutar por isso, ou seja, para manter o hospital como símbolo da comunidade japonesa”, garantiu ele, acrescentando que a situação financeira do Santa Cruz vai bem, obrigado.

Investimentos – “Financeiramente o hospital está equilibrado. No ano passado, parece que a dívida aumentou, mas foi porque o hospital investiu pesado em equipamentos, pois o Santa Cruz estava bem defasado em termos tecnológicos”, disse Tsuji, lembrando que, em 2019, foram investidos cerca de R$ 20 milhões na aquisição de equipamentos, principalmente para o Centro Cirúrgico. “Não foi uma divida para pagar contas”, destaca Tsuji, afirmando que, “o que está faltando agora é uma modernização da gestão e, talvez, do foco do hospital. “A partir de agora, a gente tem que focar mais em procedimento de alta e média complexidade, além de dar ênfase em transplantes”, diz Tsuji, explicando que outro ponto crucial será criar um centro forte de oncologia que o hospital ainda não tem.
“A população está envelhencedo muito e isso aumenta a incidência de certas doenças como o câncer, por exemplo”, conta, acrescentando que, em termos fisicos, a preocupação é quanto a ampliação do hospital. Segundo ele, esta etapa já está em andamento, “e vamos lutar para sair este novo prédio que deve ocupar 8 mil metros quadrados. “Neste projeto de modernização, de gestão de mudança de funcionamento, este prédio novo vai ser fundamental porque a gente vai conseguir criar centros cirúrgicos modernos”, diz, acrescentando que, em termos de leitos, o hospital passará dos atuais 170 leitos para 220 leitos quando a obra for concluída.
De acordo com Marcelo Tsuji, estudo feito pelo hospital revelou que, com essa quantidade de leitos, em 2024 o Santa Cruz “provavelmente vai chegar em um estrangulamento”. “Por isso, até do ponto de vista técnico essa ampliação é fundamental para a sobrevivência”, diz ele, afirmando que, para os pacientes, “não muda nada”.

Médicos – Ou melhor, muda sim. “Vamos procurar melhorar ainda mais. A gente vai focar em treinamento continuo”, conta, acrescentando que “nosso foco é, primeiro, o paciente, e o segundo, são os médicos, que estão um pouco esquecidos”. “Mas os médicos também são nossos clientes e eles tem que se sentir bem e ser bem atendidos. Talvez essa tenha sido uma das principais falhas nossas no passado mas que vamos procurar corrigir agora”, afirma Tsuji, explicando que o intercâmbio científico e cultural com instituições acadêmicas de ensinos e de pesquisas nacionais e internacionais devem ser ampliado.

Ipesc – Aliás, este é o principal objetivo do Instituto de Pesquisa e Ensino Santa Cruz (Ipesc) –, associação sem fins lucrativos, com autonomia administrativa e financeira, cujo estatuto social foi aprovado pelo Conselho de Administração e referendada pela Assembleia Geral da Instituição no dia 30 de agosto de 2018.
Fruto de um acordo com a Universidade de Tsukuba, firmado em setembro de 2016, visando estabelecer as bases para a ampliação do intercâmbio de médicos de diversas áreas para desenvolver projetos conjuntos de pesquisa entre o Brasil e o Japão, o Ipesc é resultado do grande esforço realizado pelos médicos, pesquisadores e direção do Santa Cruz e terá como principal finalidade desenvolver atividades de estudo e de pesquisa na área de saúde, ensino, extensão, cultural e esportiva. Também terá foco em organizar e promover cursos de especialização, capacitação, pós-graduação profissional, residência médica e multiprofissional.
Anteriormente, este papel era realizado pelo Centro de Pesquisa, Ensino e Cultura (Cepec) do Hospital Santa Cruz, que agora passa a integrar o conjunto de atividades desenvolvidas pelo Ipesc. Nos últimos meses, o Cepec realizou inúmeras iniciativas no campo científico: 12 eventos (seminários), 19 estudos clínicos em 2017 e nove pesquisas clínicas neste ano.
Para Renato Ishikawa, o Ipesc terá um papel importante ao aproximar renomadas universidades do Brasil e do Japão, estreitando os laços para “aprofundar os conhecimentos e progredir nos estudos científicos da área da saúde no país”, complementa Ishikawa. Ele observa que já foram formalizados protocolos de estudos entre o Hospital Santa Cruz, que agora passa a ser representado pelo IPESC, com as universidades de Tsukuba (Protontherapy), Osaka (estudo sobre a microbiota) e Tokyo Medical Dental University (ABC Method).

Mario Sato, Marcelo Tsuji, Masato Ninomiya e Renato Hassegawa (Jiro Mochizuki)

Parcerias – O prédio do Ipesc será inaugurado em maio próximo com a vinda do reitor da Universidade de Tsukuba, que deve mantar uma sala no local. Futuramente, a ideia é trazer professores japoneses para ministrar cursos de pós-graduação. Atualmente, o Hospital Santa Cruz mantém parcerias não só com a Univseridade de Tsukuba como também com Universidade de Tóquio e Kyushu. “Manter essas parcerias, e até ampliá-las, é um dos pontos que a gente não pode perder”, diz Marcelo Tsuji, que também pretende transformar o Santa Cruz numa vitrine para as empresas japonesas.

Plasac – Tanto Marcelo Tsuji como Renato Hassegawa são unânimes em afirmar que um dos “pontos de honra” será a continuidade do atendimento aos pacientes do Plasac, o plano de saúde do Hospital Santa Cruz que hoje conta com cerca de 8 mil vidas. Embora afirme que, para sobreviver no mercado um plano de saúde hoje tem que ter, no mínimo, 100 mil vidas, Tsuji diz que “é uma garantia nossa que o associado do Plasac não terá nenhuma mudança e continuará sendo atendido pelo hospital”. “Se ele é um assegurado do Plasac é porque gosta do atendimento do Hospital Santa Cruz. É um ponto de honra qualquer que seja a solução daqui para frente”, diz Tsuji.

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