CANTO DO BACURI: Uma estranha sensação (2)

Algumas considerações foram feitas a Uma estranha sensação, de Orphan Pamuk, num artigo anterior. Entretanto, acho que outros comentários são necessários e justos. Apenas um artigo, me parece insuficiente. Quer dizer, o romance remete-nos a outras questões. Quando se lê um romance, estamos atrás de algumas respostas ou simplesmente por um deleite passageiro em apreciar uma boa literatura. Claro, este ponto é importante. Mas no meu caso, talvez seja o caso de outras pessoas, a literatura nos traz informações preciosas a respeito do ser humano em sua profunda ambiguidade. Isso me interessa. Aprecio a boa literatura, igualmente aquela narrativa em que revela coisas ocultas e o comportamento de um determinado grupo social ou a cultura de um segmento étnico.
Em relação a este último ponto, Uma sensação estranha, é um caso exemplar. O desenrolar da vida de Mevlut é por si, a própria construção de uma maneira de ser do povo turco. Ele teria vivido num momento em que a Turquiava passa por momentos de transformação. Com a instalação da República em 1923, a Turquia se tornou um país secular, abandonando a tradição dos sultões, da dinastia dos Otomanos a partir do século XIII. Aquilo durou 700 anos. O que isso tem a ver com a vida de Mevlut, o nosso protagonista? Ele era um jovem do interior, esforçado, que vendia boza pelas ruas. Num certo momento, deixa o interior do país e vai se aventurar em Istambul. Esta é uma cidade atraente, não apenas para os turcos.
Um vendedor de boza é algo atrasado, diante da industrialização das bebidas e mercadorias higienicamente mais saudáveis. Mas Mevlut sempre vendeu boza, a sua fonte de renda. O que seria boza, afinal? Não sei direito, mas o que transparece é uma bebida feita em casa pelo próprio vendedor com teor de álcool. Diziam que a boza não tinha álcool, como o próprio Mevlut fazia questão de anunciar. Enquanto isso, o Islão não recomenda o consumo de álcool. Entretanto, não vivemos mais no período de obediência restrita às leis corânicas. O criador da República Turca, Kemal Ataturk, desejava um país laico, moderno, mais europeia e menos asiática. Ser Ásia era um retorno ao passado de glórias, que deixou de existir. Aquela bebida tradicional que vendia Mevlut ia contra a tradição,  mais do que conforme os padrões modernos. Ter álcool em sua composição também seria negar os ensinos do sagrado Corão. Mas o profeta Maomé, que o Deus o tenha, fosse mais tolerante do que se imaginava. Esta é a beleza da cultura em sua contradição.
Este vendedor de boza teria herdado a profissão do pai. Sair pelas ruas com um peso fora de comum nos ombros, percorrendo vielas, ladeiras e bairros ricos, não tornaria o vendedor rico. Não tinha problemas para Mevlut. Era simples demais. Não se envolvia em discussões sobre política e nem religião. Mas ele era conservador, podia se dizer. O que desejava era um dia constituir uma família e trabalhar para o seu sustento. Quanto ao amor, sim, este assunto mereceria atenção. Seu amor era por uma prima, que conheceu de longe, no casamento de um parente. Parece que naquela país, os casamentos são realizados, em grande parte, entre primos.
Ele não fugiu à regra. Em meio aos convidados viu a menina de rosto bonito, não apenas bonito, era linda. Apaixonou-se por ela. Por anos seguidos escreveu cartas de amor, enviados até ela por outro primo. Não recebia resposta, mas havia, de certo, uma correspondência. Passados anos, já adultos, Mevlut deseja ardentemente casar-se com Rayiha. Costume era o pai da noiva pagar um dote para o pai da futura esposa. Falava-se de que uma moça bela podia render riquezas para a sua família, caso arranjasse um marido velho e rico. Este arranjo poderia parecer de que a filha tinha sido vendida para ser esposa de alguém. Nunca foi o caso de Mevlut, um vendedor de boza, sem dinheiro em reserva, a viver numa viela pobre de uma casa sem certificado de posse. O chão era de terra. Nos anos 50, 60, estas casas, digamos favelas, conhecidas por gecekonde, ocupavam a periferia.
Antes do casamento, ao invés dos procedimentos legais, Mevlut sequestra Rayha, com a ajuda daquele mesmo primo, Suleyman, e somente depois o matrimônio é realizado. Mas tem um ponto fora da reta: Rayha não era a moça linda, a quem direcionara as cartas de amor, mas a sua irmã mais velha. Fica decepcionado, mas casa-se com ela. Toda a sua vida foi junto desta, com que teve duas filhas adoráveis. Repete de certa forma a história do Pentateuco, de Jacó interessado por Rachel, teve que casar também com Lia. Nem sempre o desejado se realiza, como que a vida fosse uma constante errância de quem assim procede. Rayha era a irmã linda, ao contrário da irmã Samiha.
Pode ser que o amor seja, no caso, uma artimanha do demônio? Quem sabe, os antigos tivessem razão. Assim, a Turquia mudou: abandonou a escrita árabe e adotou a latina, com o calendário a mesma coisa. Ainda assim, nunca a Turquia se tornou Ocidente, como desejava o presidente Taturk, o grande herói nacional. Uma vez viúvos, Mevlut e Samiha estão livres para casarem, da maneira apaixonada, como naquelas cartas de amor: nada mais lindo que os olhos de Samiha. Cartas endereças para ela. No entanto, não acaba assim, como nas novelas de televisão, ou nos filmes de Hollywood. Ao vender boza nas ruas, numa Istambul moderna e rica, Mevlut anuncia: booooooza. E contemporiza: realmente amei Rayha. Não amaria mais Samiha? E a Turquia o que é? Que Mevlut possa dizer algo.

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