CANTO DO BACURI: Um caso mal resolvido

Muitos passavam por aquela rua. Se fosse adiante, mais um quarteirão, chegava à Igreja Matriz Nossa Senhora de Mont Serrat. Por isso, havia aquelas senhoras velhas, vestidas de roupas negras e véu de igual cor. Passavam também, bem pela manhã, os operários que trabalhavam na fábrica de tecelagem. Era também a rua em que encontrava um dos principais armazéns da cidade, a Ferrari. Havia também a Coletoria Federal, a Caixa Econômica Estadual, além do Banco do Comércio e da Indústria. Quer dizer, quase todos passavam por aquela rua, independente do destino.
Foi lá também que passou o senhor Hirokazu Hironaka, conhecido naqueles sítios, seja no campo seja na cidade. Era conhecido de todos os japoneses, que por lá viviam. Pode-se dizer, era influente. De tal forma era influente que passou a atuar como Nakaudo. O que pode ser isso? Fiquei sabendo a respeito depois: alguém que fazia as apresentações de uma família que tinha um filho em idade de casamento, para uma outra, com uma filha, com igual pretensão. Casamentos arranjados. Não se casava, portanto, com qualquer um, de acordo com os seus interesses e apetites românticos.
De muitos casamentos, o nakaudo Hironaka podia se orgulhar de ter sido o intermediário. Nem sempre! É o que aconteceu com Jo Matsuyama e Akemi Mori. Depois do acontecido, sem que a culpa pudesse recaria sobre Hironaka, ainda assim, quando caminhava por aquela rua, a rua social e econômica daquela cidade, havia um mal estar entre os moradores japoneses. Parece que o céu se tornava mais escurecido e uma ventania sinistra passava a varrer a rua, somente aquela rua, levantando poeira e atiçando os cães vadios. Poderia haver silêncio nos rostos dos que sabiam do acontecido, como falassem: “você foi o responsável pela infelicidade deles”.
O próprio Hironaka não podia prever os acontecimentos. Ele só fez as apresentações, sendo a decisão unicamente da noiva e de seus familiares. De fato, não tinha sido a primeira das apresentações. Com ênfase, era quarta das apresentações, sendo as anteriores, duas recusas por parte da família da noiva e uma de sua contraparte. Se não acontecesse dessa vez, talvez não ocorreria mais nenhuma outra. Destas apresentações, o primeiro era feio demais, de uma família que nunca tinha se firmado em cidade alguma. Era muito arriscado. Akemi também não se simpatizou por ele. O segundo não era nem bonito e nem feio, com quase quinze anos a mais que ela, viúvo e com dois filhos pequenos para cuidar. Ficou sabendo que este penhorara dois tratores e um caminhão por um empréstimo da safra que não vingara. Este também não agradou. O terceiro que foi recusado pelo próprio futuro noivo nada tinha a ver com Akemi. Ele próprio confessou que não podia se casar, pois tinha dívidas no passado com um amor que tinha partido com um outro.
Quando a família Mori acabou cedendo na quarta tentativa, malgrado consultou Akemi se tinha sido do seu agrado. Jo Matsuyama era alguém comum, sem os vícios da bebida, trabalhador, com poucos amigos, e de uma família nova na cidade, ou melhor, no campo, que cultivava hortaliças. Assim, o casamento aconteceu. A família Mori era conhecida na cidade, que explorava uma pastelaria, que devido a um ponto privilegiado, foi crescendo e se destacando. Os japoneses que viviam na cidade, antes tinham trabalhado no campo por algum tempo, mudando-se depois para a zona urbana a fim de dedicar ao ramo comercial. Havia, então, bares de japoneses, sendo o principal, dos Mori. Outros, tinham quitandas e estúdios de fotografia. Também havia uma farmácia, quase uma drogaria, que se ampliou bastante.
Em menos de um ano, o casal Akemi e Jo conheceram as amarguras da separação. Houve um desquite. Cada um foi para um lado. Nesse meio tempo, Akemi ficou grávida, mas não teve o sucesso do nascimento. Talvez tivesse sido melhor, pois seria traumático uma separação com um filho pequeno. As separações não eram tão comuns naquela época. Em se tratando de família de japoneses, um tanto quanto irregular. Era o primeiro casal de descendentes de japoneses a separar-se naquela época, e naquela cidade. Claro, sobrara os comentários. De quem teria sido a culpa? Nada havia que desabonasse em relação a Akemi. Era moça boa, de família trabalhadora. Mas ela tinha uma certa índole à intolerância. Quanto a Jo, caladão como era, pouco se sabia.
Akemi tornou-se um peso para a família, que tinham que conviver com uma filha sem marido, ainda mais, próximo dos trinta anos. O que seria dela? A própria Akemi, não pensava nada a respeito. Continuava com os seus afazeres, ajudando a mãe na pastelaria. Chegou a pensar em fazer um curso de datilografia, assim poderia arrumar um emprego como secretária. Desistiu. Acabou se tornando enfermeira e trabalhando no Posto de Saúde local.
Mas o inusitado, por mais provável que fosse, aconteceu. Naquela mesma rua, a cem metros de distância, passava Akemi tomando uma direção, do lado oposto vinha Jo. As janelas de alguns espiavam o que acontecia. Quem poderia mudar de calçada, se isso realmente acontecesse. Por um momento, a impressão é de que todos olhavam para aquele ponto, japoneses e não japoneses. Apostavam: ”a moça é que ia mudar de calçada”. ‘Acho que vai ser o homem”, diziam outros. Num certo momento, aconteceu o encontro, sem que ninguém mudasse da calçada.
“Kon nichi wa”, disse mostrando impessoalidade.
“Kon nichi wa”, respondeu.
A culpa, se pudesse falar desse jeito, tinha um responsável: nakaudo.

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