CANTO DO BACURI: Sacalina fala japonês

Muito pouco sabemos a respeito da Sacalina. Nem sabemos direito em que lugar fica. Assim retomemos o livro de Anton Tchékhov, A Ilha de Sacalina, Todavia, 2018. É a respeito de uma viagem empreendida pelo autor russo, de 1891 a 1894, quando se descolou para o extremo oriente do império russo, naquela região conhecida também por Tartária. Para quem gosta de geografia física, mapas, história dos povos das estepes, este livro enche os olhos e a imaginação. Entre estes, eu me incluo. Por isso, retorno à obra citada. O que separa o continente da Ilha Sacalina é o que se denomina Estreito da Tartária. Sendo o nome Tartária tomado na forma genérica, como foi utilizada pelos russos e demais povos do ocidente. Quer dizer, todo o lado oriental, compreendendo toda Ásia Central e Setentrional, a Sibéria, a Mongólia e a Manchúria.
Ao fim desta região, pelo estreito no mar Okhotsk chega-se a Ilha Sacalina. Mas também em sua geografia, Sacalina fica ao norte da ilha de Hokkaido, no Japão. Atualmente, Sacalina faz parte do território russo, mas no século XIX, poderia ser considerado uma terra sem dono. O que nos revela Tchékov no período em que visitou a ilha, os japoneses tinham passado Sacalina para os russos a partir de um acordo de 1875. Em troca, os russos entregaram ao Japão todas as ilhas Curilas. Este acordo ficou conhecido como Tratado de São Petersburgo.
Muitos foram os exploradores de Sacalina, europeus navegantes como Jean-François de la Péruse em 1787. A própria China que tinha conhecimento da ilha e dizia ser parte de seu império, sem que nunca tivesse tomado posse oficial. Nesse sentido, foram justamente os japoneses a mostrar interesse em explorar economicamente a ilha em seus recursos naturais. Teria sido obra de Mamiya Rinzo, a serviço do shogun Tokugawa, em 1808, o reconhecimento e o feitio dos primeiros mapas da região.
Em sua viagem de reconhecimento de Sacalina, Tchékhov inicia a sua exploração pela Sacalina do Norte, atravessando o estreito da Tartária, em que descreve as condições de seus habitantes. O governo russo tinha interesse na colonização da ilha, uma forma de justificar a posse. O que se encontra lá é a presença de forçados, prisioneiros e seus familiares, muitos deles na condição de colonizadores, portanto sem chances de retorno ao continente. Também Tchékhov fala a respeito dos nativos guiliaques e outros, que no final do século XIX padecem de um mal: a cólera.
Quando Tchékhov dirige-se para o sul da ilha, encontra uma outra etnia que também sofre da presença do explorador e doença: os ainu. Trataremos destes num outro artigo. É justamente ao visitar o sul, que Tchékhov passa a falar dos japoneses. Os japoneses teriam chegado em 1805 e a comercializar com os nativos. Peles de animais como a da zibelina eram vendidos para os japoneses e para os manchus. “Não há dúvida de que o direito às primeiras explorações cabe aos japoneses e que os japoneses foram os primeiros a ocupar Sacalina do Sul, diz Tchékov. N.A. página 253.
Em 1867, acertou-se num acordo de que Sacalina deveria pertencer a ambos os países. Os russos teriam direito com a parte norte e os japoneses com a sul. Foi assim que os colonizadores japoneses fundaram a cidade de Toyohara, que atualmente os russos denominam de Iujno-Sakhalinsk, sendo também esta a capital de Sacalina. Os japoneses chamam Sacalina de Karafuto.
No que se refere à economia, a agricultura não foi muito bem aceita na região, sendo, inclusive a alimentação dos nativos guiliaques a base de gordura de foca, também salmão, esturjão, baleia e carne sangrenta. O clima é muito frio, principalmente indo na direção norte. Para os guiliaques, cultivar algo se torna uma heresia, pois lidar com a terra ou planta irá provocar a morte de outro algo. Conforme diz Tchékhov, os japoneses que lá estiveram eram pescadores, que viviam em acampamentos militares e nunca traziam as esposas. Retornavam para a sua pátria durante o inverno, devido ao frio, mas alguns permaneciam. Os que retornavam embarcavam em jangadas de junco. “Não semeavam nada, não plantavam hortas e nem criavam gado, e traziam do Japão todo o necessário para a vida”, p.251.
No período em que os japoneses estiveram em Sacalina do Sul, a economia pesqueira teria auferido lucros consideráveis aos empresários e o lugar prosperara. Segundo Tchékhov, com a chegada dos russos, toda ocupação de Sacalina do Sul entrara em decadência econômica. Para os russos ainda, Sacalina era uma possessão a ser colonizada, sem grande valor econômico. De qualquer forma, Sacalina haveria de se tornar russa, o que vai acontecer posteriormente.
Somente com o fim da Segunda Guerra Mundial, o Japão irá perder o controle definitivo de Sacalina do Sul e as Ilhas Curilas para a então União Soviética. Isso aconteceu em 1945. Todos os japoneses que lá viviam foram repatriados. Os coreanos que lá estavam a serviço dos japoneses e se recusaram a retornar, tornaram-se coreanos sacalinos e incorporados na população local. A respeito do direito sobre Sacalina e Curilas ainda desperta apaixonadas discussões por parte de ambos os países. Enquanto se resolve esta questão, povos nativos como a dos ainus, habitantes tanto do lado russo como japonês, cada vez mais entram na lista dos povos a serem extintos.

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