CANTO DO BACURI: Quando o tempo se repete

Retornei outras vezes àquela rua e não consegui mais reconhecer as casas. Tudo mudado. Várias décadas tinham se passado, desde então. Nem mesmo os vizinhos de antes moravam mais lá, nem a madrinha Olga, nem a madrinha Joana. Foi justamente naquela rua em que cresci e percebi o mundo acontecendo para o meu assombro e curiosidade. Era a rua em que as pessoas tomavam duas direções: o trabalho na fábrica de papel e a igreja matriz. Neste local, a minha mãe possuía a Mercearia Caçula, a mais antiga dirija por imigrantes japoneses. Um outro, que surgira na mesma época, um quarteirão e meio distante pertencia a um espanhol, o Navarro, que tinha sido também sócio de meu pai num caminhão Chevrolet usado dos anos 50.
Bem cedinho, a mercearia tinha as portas de ferro levantadas, expondo frutas fresquinhas: maçã argentina, laranjas peras, mexerica poncã e outras. Era o momento em que os operários daquela fábrica passavam para ir ao trabalho. Todas as manhãs, às 5 horas um apito longo e melancólico anunciava o início do dia. Os que não trabalhavam na fábrica também eram acordados. Sem tomar café da manhã, os operários aproveitavam para comprar o lanche na mercearia. As maçãs argentinas eram caras demais, mas poderia se comprar uma laranja. A rua estava ainda escura e a mercearia com as luzes das lâmpadas vermelhas acesas. Aqueles eram pessoas simples, usando roupas baratas e blusas surradas.
Quem não trabalhava na fábrica eram os profissionais liberais, como o da barbearia e o da relojoaria. Todos próximos à mercearia. Tinha também uma mulher costureira, cujo filho tinha ingressado num seminário. Cheguei a vê-lo algumas vezes com as suas vestes pretas, como as de um padre comum da época e um chapéu característico dos clérigos. Ele deve ter chegado para uma visita aos pais. Levava numa das mãos uma maleta preta. Era bem parecido com os outros padres que via, só que este era mais jovem.
Quando a noite caia, depois das seis da tarde, todos estavam cansados e o silêncio pairava pelas esquinas e ruas vazias. Antes, o pessoal da fábrica, em torno das quatro horas, retornava para os seus lares. Era muita gente, alguns pedalando as suas bicicletas. Havia um banquinho no quadro em que colocava um filho sentado. Um outro sentava-se no banco traseiro. Não existia televisão. Após o jantar, serviço pesado e árduo durante o dia, nada melhor do que o repouso numa cama limpa.
Foi naquela rua que aparecia o vendedor de biscoitos, que chamava a freguesia murmurando palavras que nunca consegui entender. Também passava o vendedor de biju. Somente este tinha um assobio especial, logo identificado pelos meninos. Tratava-se de um código para a chamada. Era um som que saia baixo e crescia proporcionalmente em escala. Vim a saber depois que era a flauta de pã. Em pouco, meninos das vizinhanças cercavam o vendedor. Também estava eu lá, com alguns contos para comprar um biju. Os vendedores de biju desapareceram completamente, não se vê mais pelas ruas, inclusive em bairros retirados de São Paulo. No interior também não deve haver? Fico em dúvida.
O vendedor de biju carregava o seu produto num latão, que conduzia nas costas seguro por uma correia. Havia uma tampa na parte superior. Dentro estavam os bijus. A palavra que coloco na forma “biju”, pode ser o se conhece também por beiju. Constava o biju de um cone cilíndrico de sabor doce, semelhante à casquinha de sorvete, O biju custava pouco. Mas todo vendedor de biju, nem sei se havia outros, tinha um atrativo a mais para a sua freguesia. Na circunferência da tampa havia uma roda cercada por números em volta. No centro do circulo havia um eixo e uma haste horizontal. Quem comprava biju podia por uma vez rodar a haste que devia parar num dos números. Grande parte dos números era 1, mas três vezes o número 2 e uma vez o número 3. Caso o freguês tivesse sorte, poderia ganhar dois bijus, sendo acertar o número 3 uma possibilidade remota. Normalmente, era o número 1 que caia, assim o freguês levava um biju, o preço justo pela guloseima.
Naquela ocasião, também estava esperando a minha vez para pagar e rodar a roda da sorte. Outros meninos tinham chegado mais cedo. Talvez tivesse sido o segundo ou o terceiro menino a girar a haste. Num momento de distração, o vendedor, como os outros viraram para o lado, alguma coisa acontecera. No exato momento, o menino que girou a haste transferiu o número 1 para o 3. Foi rápido. Fui testemunha daquele ato ilícito. Não dedurei o menino, mas aquela cena ainda me perturba. Não era, de fato, um problema meu.
Aquela roda da sorte do vendedor de biju parece ter mexido com o tempo. Houve uma alteração, provocada de maneira criminosa. Como fosse um pecado, de instantes, como num quebra-cabeças, as peças em algum lugar não se encaixavam mais. Não sei direito, coisas passadas passaram a se repetir. Tinha certeza de que aquilo tinha acontecido e aconteceria novamente. Não foi uma vez só, muitas vezes. Tenho a impressão de que as coisas se repetem e quando nos damos conta disso, sabemos os resultados. Muitas vezes os resultados não são agradáveis.
Tudo se parece com um filme que assistimos inúmeras vezes e, ainda que saibamos o que vai acontecer no final, não tiramos os olhos da tela. Assistindo, torço para que seja diferente desta vez, mas, no fundo, sei que o meu esforço será em vão. No momento que o menino transferiu a haste do número 1 para o 3 tudo mudou, sendo eu a única testemunha. Nunca dedurei ninguém. Não tenho arrependimento disso. Entretanto sei muto bem o que aconteceu naqueles dias, naquela rua. Eu tinha 5 ou 6 anos de idade. Aquilo que presenciei ainda continua produzindo as suas consequências. A história a todo instante se repete, de tragédia em tragédia, conduzido pelos deuses e castigado pelos pecados passados.

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