CANTO DO BACURI: Quando Deus falava chinês

              Parecia algo irreal, talvez uma licença poética, uma criação da mente de Jorge Luis Borges ao ler em “Otras Inquisiones“ (1952), no capítulo intitulado “La Muralla y los libros,“ a existência de Shih Huang Ti (Xianyang Qin) o primeiro imperador da China. Naquele texto, o autor argentino revela o que me era distante, longe dos artigos de história chinesa: a destruição de livros. Este era o assunto principal. Que motivos tinha um governante em queimar todos os livros escritos antes de seu governo, considerados nocivos para a construção de uma nova ordem. Assim teria pensado Shih.

Mas outros fatos mostram caminhos prováveis para aquela decisão. Shih foi o criador do que seria posteriormente a China ao unificar os sete reinos. Ele próprio era o rei de Qin, um dos que coexistia junto a outros como Zhou, Han, Qi, Zhao, Wei eYan. O reino Qin teria surgido através de uma concessão do reino Zhou em tempos remotos, em torno do ano de 1.027 a.C. Ao impedir a invasão de povos bárbaros vindos do norte, protegendo o reino de Zhou. Eram eles bastante selvagens mas aptos para a guerra. Ao ser reconhecido pelos de Zhou, este concedeu ao povo Qin um território a oeste.

No alvorecer do século 3 a.C., a existência dos sete estados foi questionada por Shih, que resolveu de acordo com os seus planos submeter os outros à sua vontade, o que gerou guerras intempestivas e perdas de vidas. De fato, o exército Qin era o mais poderoso, o mais eficiente e mais terrível na guerra. Vinham justamente do oeste, região selvagem, que tinham enfrentado os outros povos beligerantes. Qin ataca primeiro o pequeno reino de Han (230 a.C), depois Zhao (228 a.C), e Zhou (224)a.C). Não demorou muito para que os outros caíssem em seguida, sem oferecer resistência. A vitória final aconteceu em 221 a.C.

Possivelmente, o povo Qin desenvolveu uma máquina de guerra capaz de colocar os oponentes em desvantagem com o uso de espadas longas e feitos de uma liga de bronze. Uma metalurgia sofisticada para a confecção em escala industrial teria existido. Pontas de flecha  de chumbo e estanho foram descobertas com medidas idênticas o que comprovaria a produção em grande escala. Haveria uma linha de montagem.

Outra arma de guerra utilizada foi a besta, um antecedente da espingarda, que lançava flechas a longas distâncias e de fácil locomoção. A respeito, os europeus passaram a usar esta arma somentes dez séculos depois. Havia um mecanismo no gatilho que possibilitava armar a besta e lançar fechas a uma distância de 300 metros. Aos 150 metros derrubaria fácil um inimigo a cavalo. Todas estas informações teriam sido revelados pela descoberta em 1974 no suposto túmulo de Shih, junto aos 8 mil guerreiros de terracota. Estes guerreiros de terra ainda estão sendo descobertas próximos do câmara mortuária de Shih, que se encontra intacto.

Todas estas condições favoráveis levariam Shih a vitória final. Outro favor importante para a unificação destes povos seria o pensamento de Shih, de acordo com as teses apresentadas na filosofia conhecida por legismo. Foi o lorde Shang, o responsável por justificar as medidas de repressão como políticas de Estado a fim de manter a ordem e o desenvolvimento do país. Era bem a atitude de Shih, que entre as medidas, depois de submeter os seis reinos derrotados, impôs uma ordem de que os familiares dos soberanos submissos deveriam se mudar para a capital. Claro, havia

um objetivo tático em agir desta forma como medida de contenção de supostas revoltas locais.

Entre os próprios soldados em guerra, havia prêmios aos que vencerem as batalhas e punições aos que perderem. Estava de acordo com o pensamento do legismo. Criado por Hanfeizi (morto em 233 a.C) enaltecia sobretudo uma espécie de totalitarismo no ato de governar, ou seja o combate a tudo que se encontra diferente da proposta do governo. Nada de democracia e respeito a outras idéias. Das outras idéias existentes, foram abolidas, como a do confucionismo e do taoísmo. Impor uma lei era condição de sobrevivência do regime, sem se preocupar em convencer a massa, como faria um confucionista, nem conviver com as leis de natureza dos ensinamentos de opostos do taoísmo.

Por outro lado, algumas mudanças significativas foram alcançadas, como a padronização das medidas e da utilização de uma escrita comum a todos os recantos do país. E desta forma, a medida que pode nos assustar, a queima de livros, foi incrementada por ele, pois os escritos antigos não condiziam com a nova realidade. Assim, qualquer leitura, principalmente dos clássicos foi desaprovada. De fato, tal atitude, o da leitura considerada um ato de ameaça à ordem então criada. Caberia à população apenas seguir as leis e submeter-se a possíveis sanções em caso de desobediência.

Prevendo que as fronteiras do norte encontravam-se abertas para um ataque dos bárbaros, deu inicio a construção da grande muralha. Ao final, convencido de que era afinal alguém acima dos homens comuns, ao ser considerado o Imperador da China (daí vem o nome Qin, que se pronuncia chin) colocou-se ao lado dos deuses, sendo ele um deles. O totalitarismo de Shih o incluia no rol de uma unidade em que compreendia os homens, os governantes e os deuses. Seria esta a vontade dos Céus, segundo ele próprio, o que, de fato, nunca convenceu os seus detratores.

Não se trata apenas dos que estavam distantes, em províncias longevas, planejando alguma rebelião, mas próximo dele, muito próximo. Isso é assunto para um próximo artigo.

 

 

Comentários
Loading...