CANTO DO BACURI: Quando Agosto chegar…

Tenho títulos a serem lidos, que quando tive a oportunidade acabei adquirindo. Não leio em seguida. Acaba sendo posto na estante, para que o momento da leitura aconteça. É o que aconteceu com Agosto, de Rubem Fonseca, durante o período da pandemia. Aproveitando meus dias de exílio, tomei o livro. Edição publicada pela Coleção Folha, dos Grandes Escritores Brasileiros, de 2008. De capa dura, encadernação de alta qualidade, adquirida com preço mais em conta do que nas livrarias.
O assunto era o principal motivo de ler este livro. Sabia de que Agosto se tratava dos momentos finais do suicídio de Getúlio Vargas. Não era um livro de história, pelo contrário, enveredava pelos caminhos criativos da ficção. Como um fato ocorrido poderia ser representado pela literatura? Quer dizer, uma representação daquilo que foi, não corresponderia da maneira como realmente aconteceu. Neste encontro e desencontro entre a História e a Literatura, o romance Agosto explora em todas as suas possibilidades em se criar uma narrativa policial e suspense.
Mais uma questão a abordar. Quando lemos alguma obra literária, o fazemos simplesmente para satisfazer um passatempo? Isso pode ser verdade, para os apreciadores de boa leitura. Entretanto, deve existir outras razões. O livro não é lido por acaso. Penso que a leitura é uma forma de produzir um diálogo com o autor e os personagens a fim de elucidar as questões inerentes à nossa existência e a relação com o mundo. Nisso, Agosto tem a ver também com a história vivenciada.
Antes podemos falar do estilo ácido de Rubem Fonseca, que conduz num mundo cruel, isento de moralidade, de interesseiros, ladrões e matadores. Por isso, a prosa dele é direta, de um realismo avassalador que mostra a miséria humana sem rodeios e explicações com algum sentido. Não há, de fato, nenhum sentido no mundo deste autor. Existe apenas a narrativa, como fosse uma crônica jornalística, isento de julgamentos ou possibilidades de melhoria. Getúlio Vargas se mata com um tiro no coração. Rio de Janeiro, capital federal. Existia um tumulto provocado por interesses de partidos políticos que defendiam Vargas e os opositores a ele.
Não se pode dizer que existiam os partidos políticos do bem e os do mal, como normalmente acontece durante as polarizações. O que se tem é apoiadores interesseiros brigando em satisfazer as suas vaidades. Retomando a história, Getúlio era visto como grande líder, defensor dos pobres, criador dos sindicatos, mas que não escondia uma admiração por Benito Mussolini. É dito de que a reforma trabalhista tinha por modelo o fascista vigente na Itália. A tônica de Agosto não é abordar estes aspectos. Trata-se de um comissário de polícia, o dr. Alberto Mattos, que se encontra em meio do suicídio do presidente e de outros fatos ilícitos na cidade do Rio de Janeiro.
Assim pode ser considerado um romance policial. Os dilemas de Mattos criam um ambiente em que coloca a prova a nossa capacidade de crítica social. O próprio Mattos é um crítico, portanto alguém que não se coaduna com aquele mundo. Mais de uma vez, o colega, o inspetor Pádua, teria advertido “você está na profissão errada”, ao que recebe como resposta “não sou eu, é você”. Enquanto Mattos procura seguir o código civil, o mesmo não corresponde com Pádua. Como sempre existiu o jogo de bicho, isso uma contravenção, o suborno era comum entre os policiais. Era uma colaboração eles somarem ganhos em seus salários baixos. Assim acontecia. Mas nada disso ameaçava os princípios de Mattos, considerado incorruptível, alguém que negava os próprios fatos. Situação vai tomar um rumo inesperado, quando um bicheiro ofendido com o delegado resolve mandar um matador de aluguel.
Se temos os fatos históricos que marcam um período delicado, que é o suicídio de Getúlio, de outro temos um delegado inspirado que sozinho pretende instalar uma ordem que não existe. Tinha acontecido também o assassinato de um empresário, que coube à delegacia de Mattos elucidar. Seria este a principal tarefa de Mattos: encontrar o assassino. No caso que antecedeu o suicídio de Getúlio foi a tentativa de matar o senador Carlos Lacerda. O mandante teria sido um filho dele, Lutero Vargas, que ordenou ao chefe da guarda pessoal do presidente, Gregório Fortunato – o Anjo Negro – a contratar um matador. Mas o tiro do assassino acabou matando o brigadeiro Vaz.
Quanto ao assassinato do empresário, também havia um assassino. Até chegar a este, o que se revela é um complicado trama envolvendo políticos que se rendem a corrupção para beneficiar estes empresários. Havia corrupção no governo, envolvendo a base de sustentação. Em meio a isso, estão as altas patentes das Forças Armadas, que são leais a Getúlio, outros a Carlos Lacerda. A imprensa também defende um ou outro, conforme interesses do momento.
Uma coisa não ficou esclarecida: que motivos tinha Getúlio em suicidar. Se renunciasse apenas ou ser deposto, sofreria as consequências do exílio. Acontecera desta forma em 1945, com o fim do Estado Novo. É uma questão que ninguém responde. Talvez fosse uma vaidade, a de morrer para ficar na história.
O que aconteceu com o comissário Alberto Mattos é tudo aquilo que não propõe um romance de final feliz. Naquele mundo, não existe lugar para ele. Nem para os que acreditam num mundo melhor. Assim se afirmou: “plus ça change, plus c’est la même chose”. Algo como “mais que se mude, mais fica a mesma coisa”.

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