CANTO DO BACURI: Os ainus e a chegada dos colonizadores

Outras partes do mundo, além da América, também foram exploradas e colonizadas. Dos tempos antigos, sabe-se, que com a derrocada do Império Romano, toda a Europa Ocidental tornou-se campo de invasões dos chamados bárbaros. Esta foi a alcunha posta pelos civilizados em relação às tribos vindas das estepes da Rússia e outras regiões longínquas. Desta forma surgiu a Europa, como a conhecemos hoje. Mas possivelmente alguns desses povos, ao invés de imigrar para o oeste, foram empurrados para o lado oposto, passando pela Sibéria, sendo colocados fora do continente. Isso é demonstrado através da presença de exploradores do extremo oriente setentrional, cuja carta cartográfica data de 1754, do russo Gerhard Friedrich Muller, publicada pela Academia Imperial de São Petersburgo. Soube-se da existência do Alasca, das ilhas Aleutas, chegaram a Kamchatka, a Sacalina, ilhas Kurilas e Hokkaido, no Japão.
No livro “A ilha de Sacalina”, de Anton Tchékhov, Todavia, 2018, ele cita a partir de uma viagem realizada naquela geografia inexplorada, entre 1891 e 1894, a presença de nativos. Povos em estado primitivo de existência, vivendo em tribos e de economia rudimentar, cuja etnia ainda devia ser motivo de estudos de antropólogos e geneticistas. A região mais próxima ao Estreito da Tartária, de onde passou do continente para a Ilha de Sacalina, Tchékhov realizou uma varredura a serviço do governo russo, que consistiu em levantar dados e elaborar um dossiê a respeito dos habitantes da ilha. Naquela região a cidade que ele faz referências como sendo de importância é Aleksandrovski. Fala muito a respeito dos guiliaques, com bastante ênfase, povo dócil, avesso à violência e guerra.
Ao se dirigir para o se chamava Sacalina do Sul, um outro povo surge nas anotações de Tchékhov. São os ainus. Estes também marcaram presença no Japão, que com a vinda de povos da cultura de arroz, a situação dos ainus se complicou. Cada vez mais vão sendo empurrados para o norte, chegando a Hokkaido e também a Sacalina. Ainda existem ainus, em número cada vez mais decrescente tanto em Hokkaido como em Sacalina. De acordo com Tchékhov, “os povos nativos de Sacalina do Sul, os indígenas locais, quando lhes perguntam quem eles são, não dizem que são uma tribo ou nação, respondem apenas: aino. Na tradução em português a forma de escrever é aino, não ainu, como dizem os japoneses. Isso quer dizer: Homem.
Quando da chegada de Tchékhov à ilha, os japoneses tinham saído de lá. A respeito, seja russo ou japonês, o contato com as tribos locais não foi favorável para os nativos. A doença surgiu como fator da dizimação destes povos. Seja os guiliaques mortos devido a infestação pela varíola, também os ainus pereceram por causa da sífilis, trazida pelos japoneses. Conforme Tchékhov, os japoneses teriam submetido os ainus a trabalho forçado, que teve fim com a vinda dos russos. Entretanto, a liberdade conquistada pelos ainus foi prejudicada pela indolência dos russos, pois aquele povo caiu numa indolência sendo que não havia mais salário e arroz trazida pelos japoneses. Diferente dos guiliaques, os ainus não conseguiam alimentar-se só de peixes e de carne. “precisavam de arroz e então, impedidos pela fome, apesar da aversão pelos japoneses, começaram a mudar-se para Mitsmai” p.243. Tchékhov não revela onde fica Mitsmai, mas provavelmente em algum lugar ao sul, de presença japonesa. (Tchékohv usa o nome Mitsmai e outras vezes Matsmai ou seria erro de digitação?)
Da maneira entendida por Tchékhov, os ainus são povos não beligerantes, vindos do sul, mudando-se para condições cada vez mais inóspitas, e não se submetendo a dominação dos demais povos. “Os mongóis os expulsaram da Ásia; os japoneses os expulsaram de Nippon e de Matsmai; em Sacalina, os guiliaques não deixaram que os ainos subissem além de Taraika; nas ilhas Kurilas, eles encontraram os cossacos e, desse modo, acabaram num beco sem saída”, p.245. Aliás, quando os ainus conseguiram ingressar nas Ilhas Kurilas, afirma Tchekhov, “nossos cossacos obrigavam os ainos a pagar tributos em forma de peles de animais”, p.244. Os cossacos chamam-no de peludos.
Claro, uma das características do ainu é ter pelos. São morenos, bigodes e barbas longas, cabelos pretos e duros, olhos escuros. Não possuem características da etnia mongol e nem os olhos estreitos como os chineses, assim constatou Tchékhov. Não se sabe de onde teriam se originado os ainus. Coloca Tchékhov de que, em sua época, pertenceria a uma raça vinda das ilhas da Ásia. Supõe-se de que se referia às ilhas da Polinésia e da Micronésia. Uma outra tese tratar-se-ia de um povo paleoasiático expulso do continente pelas tribos mongóis e passou para as ilhas do Japão através da Coréia.
Este povo primitivo vive nas iurtas, tipo de acampamento feito de galhos e peles de animais, fácil de ser desmontado. O cheiro de peixe seco inunda o ambiente tornando-o sufocante e pestilento. Numa dessas ocasiões, Tchékhov constatou que num canto havia um pequeno urso, sendo cuidado. O animal seria uma oferta às entidades dos ainus, portanto, sacrificado posteriormente. Seria uma cultura bastante primitiva, de religião shamânica ou, ainda, totêmica.
Muitas outras anotações foram realizadas por Tchékhov. Para quem se interessar, leia o livro. Se for a Hokkaido, poderá visitar museus com motivos ainu ou, ainda, encontrar-se com um deles. Não será, contudo, com o ainu em seu estado natural e em consonância com a vida selvagem do meio ambiente. Será outra coisa…

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