CANTO DO BACURI: Oriente a ser descoberto

Algumas culturas encontram-se tão distanciadas de nós, que, inúmeras vezes, ignoramos a sua existência. Parece um detalhe no mapa, que passa despercebido. Justamente nos dias atuais, que a Europa e a América são tomados pela corrente migratória de países da África e América Central. Existe um fascínio em migrar para os Estados Unidos. Não se sabe muito a respeito deles. No caso da Europa, são grupos de refugiados vindos da África para se fixar em países desenvolvidos. Ao lado do pavor que este fenômeno desperta está o desconhecimento daquela cultura. Trazem sem sua bagagem uma religião diferente, hábitos e costumes.
Saber um pouco sobre eles nos torna mais humanos, pois todos comungam princípios iguais como os sentimentos. Recentemente li dois romances de autores orientais, de cultura muçulmana: Istambul, de Orhan Pamuk, Companhia das Letras, e O silêncio das montanhas, de Khaled Hosseini, Globo. O lançamento não é recente, mas pode ser encontrado nas livrarias. Em relação a Istambul, por muito tempo vinha demonstrando interesse em lê-lo. Orhan Pamuk foi o ganhador em 2006 do Prêmio Nobel de Literatura. Atualmente vivendo nos Estados Unidos, é professor de literatura da Universidade de Colúmbia.
Este autor turco tem como inspiração Istambul, justamente a sua vivência naquela cidade, que nesta obra demonstra um incômodo e uma ligação que não pode ser rompida. Não se trata de uma autobiografia, mas uma ficção, recuperando passagens de sua memória, mas também inventando fatos e uma tentativa de entender o que seja o povo turco. A Turquia de Pamuk é contraditória, como deve ser o seu povo, em particular os que vivem em Istambul. O lado ocidental de Istanbul é Europa, o outro é a Ásia. Fica localizado num ponto cortado por um canal, o Bósforo, tendo acima o Mar Negro, abaixo o Mar de Mármara. Mais a ocidente fica o Mar Egeu, no Mediterrâneo. Nos tempos heroicos da antiga civilização grega, na costa ocidental viviam também os troianos, famosos na épica de Ilíada.
Mas toda a glória ocidental vai se transformar com a queda de Constantinopla, tomada em 1453 pelos turcos. Passou a se chamar Istambul. O seu apogeu aconteceu durante a Dinastia Otomana, que deu início em 1299 e terminou somente em 1922. Durante este tempo, a cultura otomana foi a dominante, com os seus paxás, odaliscas, haréns e exuberância. O autor olha para o passado e lamenta a miséria em que se vive no presente. Daquilo que foi um dia, nada mais resta, senão ruínas.
Esta Turquia que com o fim do Império Otomano, que se deu após a derrota dos turcos na 1ªGuerra Mundial, inaugurando a república, este modelo ocidental de administração produziu mais desastres do que avanços. Se na história ocidental, a monarquia é suplantada pela república, vista como fato de melhoria e modernidade, o mesmo pode não acontecer em outras culturas. Assim pode ser visto a reflexão de Pamuk nesta obra. Se a dificuldade de se lidar com a democracia é uma realidade, de governos tirânicos, o autor louva o passado, mas também aceita o presente. Existe no povo turco uma melancolia muito característica, que nada tem a ver com a ideia que se tem no ocidente. Ele próprio defende esta melancolia como parte daquela cultura, um fator não apenas de identidade, mas também instrumento de superação das dificuldades.
No outro livro, O silêncio das montanhas, Khaled Hosseini, tem como paisagem as planícies do Afeganistão. Autor vive nos Estados Unidos. Tanto o primeiro como este, fazem uma literatura de exílio. Sua narrativa é densa e de maneira não linear. São dadas a diversas vozes a função de contar. O Afeganistão fica acima do Paquistão, que por sua vez faz fronteira com a Índia. Também tem a oeste o Irã. O que se sabe sobre ele? Dois são os acontecimentos que encheram os noticiários: o Buda de Bamiyan, destruído pelos fundamentalistas do Talibã, em 2001, e também da Guerra do Afeganistão, naquele mesmo ano.
Os personagens de Hosseini são simples moradores de uma aldeia, próximo a Cabul, a capital. Trata-se de costumes tribais que nos causam estranheza. Costumes como a venda de filhos para famílias de posses. Mas não se resume nisto, as pessoas estudam, como a língua persa, uma forma de ingressar numa cultura elevada. Muitos dos textos são escritos nesta língua.
Numa narrativa irregular, Hosseini vai revelando a irrealidade da condição humana, que o povo simples aceita como uma condição que não pode reverter. Seus personagens passam a vista por outras culturas, como a vida na França, na Grécia e nos Estados Unidos. Tão distantes assim, os meninos jogam futebol e tem as suas preferências: Zidane, Maradona e Ronaldo. Aquele povo sofrido vai enfrentando as dificuldades de adaptação a uma nova realidade. Os tempos são de paz agora, mas, de alguma forma, sempre o perigo estará à espreita.
Tanto um como o outro autor, tem como novidade literária a produção de uma ficção fora do país de origem, uma espécie de grito de liberdade dos povos refugiados. Mas parece que esta literatura não é totalmente nacional, como se realizado no país. Tem uma visão do estrangeiro, que ajuda a entender, em parte, pois o que não se entende não pode ser explicado. Apenas narrado…

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