CANTO DO BACURI: O incômodo do O Parasita

Dentre a produção do cinema atual, a coreana tem apresentado criações que causam mal estar ao mexer nas estruturas sociais que ocultam determinadas fragilidades no sistema econômico vigente. Vencedor do Oscar com quatro premiações de 2020, O Parasita, do diretor Joon-ho Bong, deixou um rastro de destruição pelo caminho ao colocar em dúvida questões como a distribuição de renda justa, a ordem social do progresso e a ascensão social como direito de todos.
Neste filme de Joon-ho há uma malha de significados em torno da família Park e a Kim. Na maior parte do tempo a câmera mostra em tela grande a casa de Park, situado num bairro rico de Seul, construído por um famoso arquiteto, algo suntuoso, de grandes espaços para a habitação e, de outro, onde vive a família Kim. Bem ao contrário do primeiro, estes habitam um porão apertado e sujo, cuja janela fica na altura da rua. A câmera posto a partir do porão atravessa a janela e mostra cenas insólitas: um bêbado a urinar próximo de onde se encontram. Pobres e sem emprego fixo, o único luxo são os telefones celulares. Mas não têm acesso a um WiFi. Por isso, caminham pelas imediações do porão e conseguem um sinal de alguém que deixou livre o acesso. Este local é o banheiro.
Diante das dificuldades de sobrevivência a família Kim vira-se da maneira que pode, tirando vantagens de situações, como almoçar à custa dos outros. Mas tudo poderá mudar. Isso deverá acontecer quando os membros da família Kim conseguem introduzir na casa dos ricos o filho caçula para ensinar inglês a filha dos Park. De fato, o rapaz pobre nem era habilitado para aquela tarefa, mas devido a apresentação de um amigo influente, consegue o emprego. Não demorou muito para que a irmã também seja empregada para cuidar do filho caçula, que apresenta problemas emocionais. Da mesma maneira que o irmão, esta não era uma profissional da área.
Devido uma artimanha, o motorista é despedido, abrindo caminho para que o pai Kim ocupe aquele posto. Finalmente a mãe consegue o emprego quando a antiga governanta é despedida. Todos os membros dos Kim devidamente empregados. Esta seria a trama montada para justificar o título O Parasita. Os pobres são ardilosos para ascender socialmente, ao tornar-se empregados dos ricos. Para que isso se realize todos os meios são justificados, desde que se tenha uma finalidade. Articular planos era o que poderia determinar um possível sucesso. Não se pode dizer que todos os meios usados pela família Kim fossem lícitos. Nada disso. Tanto o antigo motorista como também a governanta eram pessoas das classes menos favorecidas, tal qual eles, mas uma vez que se apresentavam como um impedimento para a própria ascensão, foram postos fora do jogo da maneira mais vil.
Se nesse momento, os pobres da família Kim são considerados oportunistas numa sociedade que fomenta as diferenças sociais, estes aceitam o jogo das regras imposto por este sistema. Os ricos da família Park encontram-se totalmente alienados com a existência destes outros. Nem é o caso de considerar os ricos exploradores dos pobres, pois dinheiro não é um problema para eles. Quem pode pagar, não tem motivos para economizar, mais ainda em se tratando do salário de serviçais. A esposa de Park não necessita trabalhar, pois o marido consegue manter o conforto no lar. Possivelmente trabalha numa grande empresa com um salário exorbitante. Não apenas ele é rico, mas milionário. Ele trata bem o motorista, com quem tem mais contato. Por outro lado, o mesmo acontece com a esposa Park em relação a governanta, que mora no emprego. Certo momento, o marido pobre pergunta à esposa “como é a patroa”. De maneira direta responde: “Ela é muito gentil e rica” e corrige “é rica por isso é gentil”.
Na casa dos Park a câmera é colocada na imensa sala, que tem à frente uma parede de vidro que coloca à mostra todo o quintal. É algo magnífico e ao mesmo tempo irreal. Como alguém pode ter uma casa destas? É muito para poucas pessoas, ainda mais levando-se em consideração a ingenuidade da esposa e a sua indolência com o que acontece além dos muros da casa. A filha é mimada e igualmente ingênua, ao ponto de deixar-se apaixonar pelo professor falso de inglês. Mas o menino de cinco anos, o caçula, sob a tutela da filha Kim percebeu algo estranho nos novos empregados. “É o cheiro”, diz ele. Todos têm o mesmo cheiro. O cheiro que também percebeu o pai Park ao comentar com a esposa o que achava do motorista Kim. “Ele parece ousado, mas nunca passa dos limites”, disse e completou: “ele tem um cheiro bastante característico”. Não se pode dizer que o cheiro fosse realmente bom.
No subterrâneo dos Park, sem que ninguém soubesse havia um abrigo secreto construído durante o conflito das duas Coréia para o caso de uma invasão por parte do inimigo. Era um mundo a parte em que encontrava escondido o marido da governanta anterior. Por cinco anos vivera assim, alheio do mundo externo. Tinha falido e, portanto, perseguido pelos credores. Lá era o lugar que deveria estar, como um elemento marginal, um fora da lei. Lá também teve que se refugiar o pai Kim ao ser procurado pela polícia após matar o patrão Park.
Tentando a todo custo sobreviver e planejar maneira de ascender socialmente, isso não foi possível para o pobre Kim. Alguns acontecimentos estavam alheios à sua vontade. Uma tempestade aconteceu e inundou tudo o que restava da casa porão dos Kim, ao ser invadido por sujeira, ratos e baratas. Acreditar numa ascensão num mundo marcado entre os possuidores e despossuídos, sempre os últimos ficarão por baixo. Assim tinha que acontecer. E mais, o que os separava era um “cheiro de rabanete velho”, chegaram a esta conclusão.

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