CANTO DO BACURI: Morte em Veneza

Morte em Veneza

Sempre que podemos, retomamos ao tema, seja no campo da literatura, bem como no cinema. Trata-se de “Morte em Veneza”, que na tela grande foi realizada por Luchino Visconti, de 1971. A obra original é de Thomas Mann, cujo livro foi lançado em 1912. Nisto, o filme trata-se de uma leitura cinematográfica, abusando das imagens, do olhar cúmplice das lentes de Visconti. Se a linguagem da literatura se preza pela elaboração de imagens através da criatividade das frases e composições da escrita, no cinema a linguagem é bastante peculiar. É a linguagem do cinema, imagens visuais e auditiva, que Visconti utiliza com efeitos catárticos.
O romance se refere a uma viagem realizada por Gustav von Aschenbach a Veneza. Ele é músico, que segue uma disciplina rígida como maestro. Ele busca uma perfeição. Sabe-se de que esta história teria sido inspirada no compositor austríaco Gustav Mahler.
Quando assisti ao filme pela primeira vez, a morte era previsível em relação ao próprio protagonista. Como o assunto girava em torno do envolvimento platônico de Aschenbach por um menino chamado Tadzio, provavelmente a morte seria causada pelo amor descontrolado. Seria algo parecido como Lolita, de Vadimir Nobokov, que foi levado ao cinema em 1962.
Se na literatura de Mann a escrita se valoriza pela ambiguidade, no cinema são as imagens que sugerem e a música que incomoda pela dramaticidade. A música é de Mahler em grande parte. No momento de desespero, as falas estão ausentes enquanto a música cria um ambiente de tensão e angústia, e Aschenbach caminha sem direção. Tadzio é alguém dissimulado, que logo percebe o descontrole de Aschenbach em velar as emoções. Existe em certo momento tentativa para isso, que em vão perde força. Nisso, por alguma maldade juvenil, Tadzio encontra a oportunidade de impor o controle sobre o homem em sua decadência. Seria este o tema do romance de Thomas Mann, a decadência como fator das emoções num redemoinho de descontrole da nossa natureza mais recôndita.
Existe na alma humana zonas desconhecidas, que procuramos ocultar através de uma moral rígida, sentimentos vários, que fez alarde com as revelações de Freud entre o final do século XIX e começo do XX. Chama-se inconsciente. Mais que se negue a sua existência, nos tornamos presas de suas artimanhas. Aschenbach sempre se colocara distante de qualquer ameaça que o ponha em desvantagem. Muitas vezes a arte se coloca distante da vida, pois a arte é pura, o que não acontece com a vida. Temos algo a esconder, que negamos ser parte de nós, que não contamos a ninguém, nem a nós mesmos. Para Aschenbach o menino Tadzio seria um motivo de sedução pelo mistério que lhe apresenta. Não se sabe direito se Tadzio é um menino ou menina, uma criança ou adulto, sempre enfiado em vestes que beira o ridículo, as de marinheiro.
Veneza fica à beira do mar Adriático e canais penetram pela cidade, possibilitando a navegação de gôndolas. É justamente numa gôndola que Aschenbach chega a Veneza conduzido por um gondoleiro que faz o próprio trajeto, desobedecendo as ordens do passageiro. A imagem do gondoleiro é semelhante de Caronte, aquele que conduz as almas pelo rio Estige em direção a Hades. Haveria morte em Veneza mas de quem? Possivelmente Aschenbach pode ser forte candidato para que Caronte o leve até a outra margem.
Visto o filme pela segunda, uma terceira vez, não se tratava apenas da morte de Aschenbach, perdido em paixão mórbida. Havia em Veneza o surto de cólera. Muitos haveriam de padecer, pois a cólera espalhara pelas ruas e canais. As autoridades sanitárias trabalhavam nas ruas, desinfetando e pulverizando as calçadas. Todos tinham conhecimento do vírus mas não se preocupavam com isso, os veranistas continuavam a desfrutar das férias. Quando Aschenbach questionava alguém se havia algo de estranho, a resposta não podia ser mais evasiva. “Existe um exagero”, diz o gerente do hotel. Nenhum jornal local divulga sobre o assunto, ao contrário dos jornais estrangeiros.
Mais do que nunca, a morte está presente em Veneza. O próprio Aschenbach poderá estar infectado. Por problemas técnicos, não há mais trem para Munique. Terá que permanecer em Veneza. Não apenas ele, outros em igual condição, ficam por lá. Simplesmente ignoram o acontecimento, não se apavoram, pelo contrário agem de maneira indiferente. Os hóspedes se encontram em área externa, tendo o céu da noite como grande mortalha. Foi quando ingressa no local um trupe de artistas de rua, a cantar músicas de escárnio. Parece zombar de todos e da situação em que se encontram. Naquela canção existe uma repetição de gargalhadas, algo demoníaco que zomba da vida diante da morte que se aproxima.
Em Veneza, considerada um polo turístico, qualquer informação sobre o vírus provocará a falência econômica. Mas para onde fugir, se todo o sul da Itália tinha sido contaminado. Somente uma fuga em massa poderia ser a salvação. Para onde? Não era o caso de Aschenbach, que vivia na Alemanha, além dos Alpes, ainda distante desta ameaça. Isso nunca vai acontecer, pois ele deverá permanecer em Veneza e morrer. É a Morte em Veneza. Podia se morrer de uma loucura de paixão ou de cólera. Acho que este último seria o motivo para Aschenbach permanecer em Veneza. Ele foi lá para morrer e conhecer toda a miséria do mundo e da alma humana. Os corpos podem padecer a qualquer momento, o que não se dá com a arte.

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