CANTO DO BACURI: Meu nome é Vermelho

Pouco, muito pouco se conhece da literatura além Europa e Estados Unidos. Mas eles existem. Orhan Pamuk é um desses autores, oriundo da Turquia, vencedor do prêmio Nobel de Literatura de 2006. Com alegria podemos falar dele, que primeiramente apreciamos Istambul, de 2003, publicado no Brasil em 2006 pela Companhia das Letras. Depois fomos ler Meu nome é Vermelho, de 1998, entre nós, publicado em 2004, pela mesma editora.
O que se conhece da Turquia, se não fosse pela literatura de Pamuk? Não temos muito acesso a informações sobre aquele país, que se distanciou de nós, das poucas referências que temos, como a súbita tomada de Constantinopla pelos turcos em 1453. Ficamos sabendo depois que os turcos lutaram ao lado dos perdedores da Guerra de 1914 a 1918. É também desta época, que ocorre a derrocada do Império Otomano (do século XIII até o XX). O glorioso império otomano é tema constante do enredo criativo de Pamuk. A impressão que passa neste autor é uma constante memória de um tempo que ainda persiste na alma turca. Se em Istambul, Pamuk numa espécie de auto-biografia, com documentação fotográfica, mostra-nos a cidade em questão, cujo passado se tornou ruinas e decadência, neste romance “Meu nome é Vermelho”, os acontecimentos remetem ao século XVI.
Um universo misterioso se abre em Meu nome é Vermelho, cujo fio condutor debruça-se a partir de um romance policial, mas que o tempo todo cria uma tensão entre o ser nacional otomano e o estrangeiro. Para um otomano, o estrangeiro, representado mais precisamente pela cidade mercantil de Veneza, causa indignação e simultaneamente uma vontade de saborear das delícias de sua arte renascentista e profana. Este é o motivo de angústia.
Os otomanos em sua cultura, guerreavam e se influenciavam pelas culturas mais a Oriente, como o Irã, Mongólia, Turcomenistão e o Uzbequistão. São “todos” países muçulmanos da Ásia Central, que seguem ortodoxamente os ensinamentos do Corão. Isso seria também a característica primacial da cultura turca, ou mais precisamente dos otomanos. A própria Turquia fica um corpo ao lado da Europa, a outra mergulhada na Ásia. Ainda que seja oriental, o Ocidente se apresenta como uma tentação demoníaca. Era o que representava a pintura dos venezianos.
Na Turquia também existia no século XVI pintores, de uma tradição outra, que devia se submeter a uma conduta de imobilidade, totalmente ao inverso do que acontecia no Ocidente. Esta liberdade a ser promulgada pelo pensamento liberal e artes criativas personalistas ofendia a doutrina muçulmana e colocava em oposição com a tradição quase intocada dos otomanos. Pintura para os turcos devia estar de acordo com o que ensinava a religião. Não se tratava de uma cultura laica, ao contrário. Trata-se, pois de uma outra cultura, de uma civilização autônoma com valores próprios.
Em obras como “Meu nome é Vermelho”, de autor nativo de um país de cultura adversa nos enche de curiosidade e fascínio. Os considerados infiéis são justamente os cristãos, os ocidentais, vistos sob a perspectiva do olhar do outro. Mas Pamuk vive atualmente nos Estados Unidos. Segundo esta literatura, a pintura era considerada uma ilustração de livros, em meio a contos e poesias do passado. Esta ilustração devia seguir a um modelo próprio, de imitação dos traços dos antigos. Qualquer alteração podia ser considerado heresia. O que se ilustrava era a própria forma como Alá via o mundo e não como os homens viam em suas paixões.
Numa cultura que combate a idolatria, qualquer objeto que fosse motivo de adoração, inclusive arte, era considerada ofensa. Não era o olhar do artista que interessava, mas como o mundo criado por Alá e visto por ele devia ser considerado. Entretanto, havia uma rota de comunicação da Turquia com o Ocidente, tendo na cidade de Veneza seu principal polo de atração. Ainda que profana, na pintura renascentista havia um apelo da sensualidade que enlouquecia até mesmo o mais reservado dos conservadores muçulmanos.
Para eles, um pintor devotado a Alá, na idade avançada, ao perder a visão era considerado uma redenção. Nesse momento, o cego não pintava mais com os olhos humanos apegado às formas, mas com a força interna e memorialística, que remetia aos antigos. A arte como a pintura devia servir para mostrar o mundo a partir de Alá, a quem se honrava e submetia-se à sua vontade. Qualquer deslize, como neste romance, era motivo para um assassinato.
Quando nos acostumamos com os valores Ocidentais, de uma moralidade de padrão menos dogmático restrita à religião, alguns povos mantém vivos um comportamento norteado pela crença religiosa, capaz de direcionar e dar sentido à própria vida. Se no Ocidente a mudança é uma constante, no Oriente a permanência se tornou mais apropriado pelas características culturais daquele povo.
Mas verifica-se igualmente no Ocidente movimentos retrógados, de comportamento e valores, enquanto a tecnologia não cessa de desenvolver-se. Como então, uma tecnologia avançada pode servir para grupos conservadores, senão para disseminar cada vez mais uma atitude que não avança. É uma contradição. De qualquer forma, se o conservadorismo é uma tendência marcante, deve existir motivos para isso. Seria o medo dos avanços, no campo das ideias e comportamentos, enquanto o conservadorismo se apresenta como um terreno seguro de conforto e acomodação?

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