CANTO DO BACURI > Mari Satake: Tempos difíceis

De modo geral, desde que me entendo como ser pensante, posso dizer que me enquadro no time daqueles que acham que é preciso estar sempre alerta, a vida não é fácil. Se por um lado, as coisas estivessem bem do meu lado, era preciso não deixar de olhar para os meus arredores. E o que via do lado de fora, me desassossegava. A mãe desde sempre ralhava comigo dizendo que era preciso ser mais otimista e cuidar mais do que realmente me dissesse respeito. Às vezes, eu retrucava, dizendo que era otimista e se eu conseguia enxergar aquelas coisas que me cercavam e elas me incomodavam, então me diziam respeito sim. Nossas discordâncias não iam muito além disso e a convivência era pacífica. Convivên cia que não foi muito longa, morando no interior do estado, logo tive que fazer as malas e vir para a capital. Era preciso estudar em uma boa faculdade e naquela época, era na capital que elas estavam.
Vim para a capital, terminei a faculdade e por aqui fui ficando sem nunca ter pensado em retornar ao convívio com a mãe. Não demorou muito e a mãe se foi para o lugar que não sabemos. Se é que existe este lugar. Na época, achei aquela partida desproposital. Pensava, agora que a vida dela estava ficando bem mais tranquila e sem grandes preocupações, tinha que ter ido? Mas enfim, talvez assim fosse melhor para ela. A mãe se foi e aqui ficamos nós, pai e filhos cuidando da vida. Cada um em seu canto, é verdade.
Depois, tantas coisas se passaram. Tantas turbulências e transformações vi acontecendo. Muitas crises no mundo do trabalho, discriminações por ser mulher, por ser descendente de orientais. Mas persisti, sobrevivi. Em algumas ocasiões, lembrava da mãe que dizia não ser possível um mundo sem divisões, sem diferenças. Elas existiam para nos impulsionar, dizia. Gostando ou não no que dizia a mãe, sempre prossegui naquele caminho que havia escolhido.
Vivi a virada do século. Fui obrigada a me inserir no mundo das novas tecnologias para sobreviver no mundo do trabalho. Inventei de buscar coisas novas na vida para não virar um autômato do mundo corporativo. Vivíamos bons tempos naquela época. Apesar de todas as mazelas, vivíamos tempos de esperança. Naqueles tempos era muito bom viajar pelos interiores do país e constatar o movimento nas cidades, nas praças. Acreditava piamente que um novo mundo mais justo e feliz era possível e estava a caminho.
Só que não.
Outra vez, crise no meu mundo do trabalho. Para mim, era hora de bater em retirada do mundo corporativo. Felizmente, o tempo passa.
Novos tempos.
O país parecia colapsar. A grana circulava, os postos de trabalho continuavam ocupados e, no entanto, os noticiários falavam da grande crise econômica. Tínhamos uma presidenta da república legitimamente eleita, mas setores contrários a ela buscavam a sua derrubada. Armou-se o circo. E ele se deu.
De lá para cá, temos o que vemos diariamente.
Final de 2020, 15 de outubro, hoje parece que já saímos da casa das mil mortes diárias, mas o total já ultrapassa os cento e cinquenta mil. Mortos por uma simples doença. Uma gripezinha. Uma gripezinha é o que nos querem fazer crer. Uma gripezinha que mata milhares.
Eu não quero ser morta por esta gripezinha. Apesar de cansada da vida entre quatro paredes, eu por aqui permaneço. Trancada entre as paredes. E hoje, bateu uma imensa saudade da mãe que nos momentos mais tristes sempre dizia, vai passar. Tudo vai melhorar.
Fique em casa.

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