CANTO DO BACURI > MARI SATAKE: Sobrevivência II

Segunda-feira caótica na cidade. Poucos carros nas ruas do bairro. Poucos pedestres. Ela mesma, não fosse o falso esquecimento na sexta-feira, não estaria andando debaixo daquela chuvinha insistente. Mas é dia 10, as contas não esperam e ela segue com o guarda chuvas em mãos.
Ruas vazias. Lojas fechadas. Em algumas, na porta cerrada, um acanhado bilhete pedindo desculpas ao público. Estão fechados devido à falta dos poucos empregados. Tampouco o dono. Eles não conseguiram chegar. Mais adiante, a calçada intransitável. Antes funcionava ali um banco. Há meses o imóvel está desocupado. No lugar do que seria o muro divisório entre calçada e propriedade colocaram um belo tapume. Metálico. Tudo chão abaixo. Deve ter sido efeito da chuva com vento forte de ontem, domingo.
Prossegue em sua caminhada, na avenida também o movimento parece ser de domingo ou feriado. Não vê os estudantes que normalmente circulam em bandos por ali. Os poucos ônibus que vê circulam vazios. Ali, o número de lojas fechadas é muito maior. Está certo que algumas delas estão assim há vários meses, mas estas, já não ostentam as placas de seu comércio. São os estabelecimentos ativos fechados que chamam a atenção.
Vai aos bancos. Pensa que será rápido. Poderá fazer tudo pelo caixa eletrônico. Triste ilusão. Até as máquinas estão vagarosas. Seu tempo de espera foi bem maior que o anunciado pela lei municipal. E o banco nem estava tão cheio. Missão cumprida. Ela segue para a próxima etapa. Outro banco. Agência molhada, pessoas irritadas, velhos como ela, na maior parte. Pessoas e máquinas parecem não se entender. Os dois funcionários de apoio que normalmente ficam plantados na área dos caixas eletrônicos, não dão conta dos chamados. Enquanto socorrem um, em torno deles, outras pessoas aflitas querendo solução para suas dúvidas, fora as outras plantadas em frente das máquinas, também gritando por socorro.
Passivamente, ela espera por sua vez. Finalmente chega. Porém, a máquina informa que seu cartão não é reconhecido. Pede sua identificação biométrica. Ela pede ajuda a todos os seus santos conhecidos e desconhecidos que a ajudem nesta missão. É atendida. A máquina reconheceu suas digitais sem maiores questionamentos. Informa em letras garrafais a necessidade de fazer a sua prova de vida, ali mesmo ou em qualquer outra agência do mesmo banco. Ok. Ela entendeu. Precisa provar que ela é ela mesma e está viva. Mas antes disso e antes que se esqueça do que tem a fazer ali, pega a sua listinha e passa a cumprir seu ritual, uma a uma, as operações vão sendo realizadas com sucesso usando apenas a sua biometria, as digitais de seu indicador direito, ainda reconhecíveis.
Novamente, lê a necessidade de fazer a sua prova de vida. Então, tá. Pacientemente, ela se dispõe a ficar mais um tempo ali naquela mesma agência para provar que está viva. O plantonista informa que sim, é lá em cima, no primeiro andar. Despojada de quase todos os seus pertences, ela tenta passar pela porta giratória. Uma, duas vezes. Ah sim! Guarda-chuva tudo bem, fica enganchado na maçaneta da porta giratória, mas, o zíper da carteira e o celular não podem passar. Ela deve se dirigir à lateral da parede e depositar seus pertences na caixa receptora. E lá vai ela. Cumpridas as etapas vexatórias, segue em frente.
Longa espera. Desta vez, sentada. Dez, vinte, trinta minutos e ela desencana de querer controlar o tempo de espera. Continua em sua leitura, usando o seu 4G mesmo. Melhor que ficar entediada olhando para a cara aborrecida de quase todos ali. Finalmente, ouve o seu nome. Senta-se diante da atendente e diz a razão de estar ali. Ah, tudo bem! Já que está ali, ela mesma a funcionária, verificará a documentação original e fará algumas perguntinhas básicas. Pronto! Ah, sim! E com o impresso em mãos, já devidamente bem guardado em sua bolsa ela sai da agência com o comprovante de que ela é ela mesma e está viva.
Vivinha da silva. E se não abrir o guarda-chuvas poderá pegar um belo dum resfriado. Resfriado que poderá se agravar e com essa cara que tem, se bobear, vão logo achar que é portadora do letal vírus que apavora lá na China. Melhor não.
Muitas e muitas provas de vida hão de ser feitas ainda.
A chuvinha fina insiste em permanecer. A cidade de São Paulo se apresenta fria e garoenta. Correndo atrás dos prejuízos.

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