CANTO DO BACURI > Mari Satake: Setembro chegou

Sim, setembro chegou! Mas e daí? E daí que nada. Apenas caraminholando com os próprios botões, velhas lembranças de infância que se estenderam anos adiante.
Agosto sempre foi um mês que achava antipático. Vai ver que era porque vinha logo em seguida ao mês das curtas férias escolares de julho. Mas será? Não deve ser não. Sempre aguardava com certa alegria a data da volta às aulas no meio do ano. Mas que agosto era um mês que eu não gostava, isso é verdade.
A mãe me dizia para deixar a implicância de lado. À sua maneira, tentava mostrar que era pura implicância minha. E tinha outro jeito? Com o tempo, parei de implicar. Já que jeito não tinha.
E adorava a ideia, setembro vai chegar! A partir de setembro tudo mudaria. O frio iria embora, o quintal e o jardim da casa ficariam mais verdes e floridos. Tudo se renovaria. Setembro traria de volta a esperança, traria de volta a primavera, traria de volta dias mais alegres e felizes.
Hoje é primeiro de setembro. Pela janela, vejo as mirradas árvores. Estão mais cheias de folhas novas, algumas já trazem um colorido a mais. Mas o que mais me chama a atenção, é o canto da passarada. Como uma alucinante sinfonia. A impressão que tenho é que hoje, todos os pássaros se puseram a cantar mais cedo, como a comemorar a chegada da primavera que se aproxima. Era madrugada ainda, ao ouvir a passarada, lembrei-me da velha vizinha que se punha a gritar do alto de sua janela, dizendo que queria dormir mais. Nunca ouvi seus berros e nem mesmo acredito que ela os desse, mas achava engraçado quando ela dizia que gritava para a passarada.
Lembranças, lembranças…. o fato é que setembro chegou e logo mais a nova estação. Em meio ao confinamento, creio que ainda só cabe continuar no posto de observação, com as mesmas medidas protetivas incorporadas desde o início da pandemia. Estamos todos muito cansados, stressados, mas mesmo assim não é hora ainda de corrermos às praias, parques, ruas e avenidas.
Pertenço ao time daqueles que sempre ficam pensando no sentido, na finalidade disto ou daquilo. E agora, nestes tempos de modo de vida alterado, não poderia ser diferente. O que teremos pela frente? Não sei. Alguém saberia responder com precisão?
Hoje sabemos que a capacidade do cérebro humano é quase que infinita, com materializações impensáveis a cinquenta, cem anos atrás. Exemplo simples é o aparelho celular que temos à nossa disposição. Com ele, resolvemos quase que tudo.
E, no entanto, ao mesmo tempo que a mente humana é capaz de criar maravilhas tecnológicas capazes de estender nossas vidas, diariamente, somos bombardeados pelas aberrações que invadem o nosso cotidiano.
O que é que falta à mente humana? Capacidade de reflexão?
Talvez, este tempo de confinamento, seja apenas um alerta que é preciso que todos repensem seriamente sobre a forma como vem conduzindo a sua vida no planeta. Talvez, tenhamos uma trégua. Os números que nos informam, até dão indícios que talvez, possamos ter uma trégua sim.
Cientistas há tempos vem afirmando que precisamos cuidar melhor do planeta. O Corona vírus que nos afeta nesta pandemia, talvez seja apenas uma amostra da resposta que a natureza nos dá diante dos maus tratos sofridos pelo planeta desde sempre.
Apesar dos números, apesar da primavera que há de chegar como sempre, não é hora ainda de baixarmos a guarda. Os números ainda não nos trazem segurança. Vidas importam e é preciso cautela.
Fique em casa.

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