CANTO DO BACURI > Mari Satake: Quatro meses de quarentena

Não. Não está fácil.
Era janeiro ainda, naqueles dias em que tudo parece andar mais devagar e ainda, desfrutando da brisa à beira do mar sem fim do nordeste brasileiro. Foi a primeira vez que li a respeito, achei que era algo que acontecia num lugar muito distante e não nos afetaria. Pensamento que não durou mais que algumas poucas horas. Talvez, tenha durado apenas o tempo de buscar e encontrar mais notícias falando a respeito.
Estava hospedada num hotel muito cheio, com pessoas de idiomas variados. Olhava-as e ficava imaginando por onde mais teriam andado aquelas pessoas? Teriam elas ou alguma delas entrado em contato com o furioso vírus ou ao menos passado perto? É claro que compartilhei minhas indagações sem resposta, apenas com os meus botões. Afinal, que direito eu tinha de estragar as férias dos demais com quem eu estava?
Como todo período de férias, aquele também passou muito rápido e sempre chega o dia de voltar à sua realidade. Em questão de poucas horas, estava aqui de volta a SP, de volta a casa que habito. Chegar em casa, retomar o velho ritual do cafezinho de boas-vindas, desfazer a bagagem, separar as lembranças e claro, tomar pé da realidade do nosso cotidiano.
E tomar o pé na realidade, inclui também prestar mais atenção às notícias que chegam das várias partes do planeta. A cada dia, mais preocupantes. Se por um lado, por aqui, tínhamos aquelas a que já estávamos habituados desde o ano anterior, as que chegavam de longe, se mostravam cada vez mais perto e para qualquer ser pensante que, assim se possa chamar, normal seria pensar que quando a coisa chegasse por aqui, seria brava. Muito brava. Normal seria agir e tomar medidas por antecipação. Mas não. Nada foi feito. De braços cruzados, ficou-se à espera. Enquanto se esperava, o país do carnaval prosseguiu. Como sempre, por aqui aportaram, foliões e seus admiradores vindos das vária s partes . E eles chegaram aos montes, sem controle nenhum. Não deu outra. Sobre os fatos, mazelas e números mal contados que nos acometem não é necessário replicar, todos sabemos.
Mais de quatro meses se passaram desde aqueles casos iniciais da Covid 19. Os que puderam e podem fazer a quarentena e são dotados de um mínimo de senso de responsabilidade, pacientemente obedecem à regra do isolamento social. Mas em quatro meses muitas coisas podem acontecer e nem sempre é possível resolver as questões que se apresentam, de forma remota. Há horas em que é necessário dar a cara às ruas. Lembro-me da primeira vez em que foi necessário sair às ruas, sentia-me uma verdadeira transgressora. Em seguida, fiquei marcando os dias no calendário e a cada manhã, juntava as palmas agradecendo pelo fato de ter acordado mais um dia bem, sem os sintomas causados pelo vírus.
A rotina mudou desde então. Em isolamento social, sem poder sair às ruas, a ordem passou a ser, cuidar, cuidar, cuidar. Cuidar da limpeza das compras que chegam, operação de guerra 1. Cuidar da limpeza da casa que teve contato com o elemento que chegou de fora, operação de guerra 2. Cuidar da limpeza das roupas que estava vestindo, operação 3. Cuidar da limpeza do seu corpo, da cabeça aos pés, imediatamente após as tarefas até aqui listadas, operação 4. Fora, as habituais tarefas, aquelas que independem do fato de ter recebido ou não alguma compra, como por exemplo, cuidar da sua alimentação. São no mínimo três ao dia. Cuidar das roupas, vestuário, cama, mesa e banho. Cuidar d a limpeza do pó que se acumula pela casa. São muitas as horas no dia para cuidar do nosso pequeno cotidiano.
Em minhas conversas com a maioria das amigas, a conversa é sempre muito parecida. Todo mundo se ocupando das tarefas do pequeno cotidiano. E se cansando bastante.
De minha parte, gostaria de ler mais, ver mais filmes, de exercitar mais Shodô, de brincar mais com pincéis e tintas. Gostaria também de tricotar mais ou de bordar mais. E claro, de escrever mais. Mas, acaba que o tempo passa e mal dei conta de cuidar de meu pequeno cotidiano.
Confesso. Não está fácil. Muito triste é suspeitar que muitas das atividades que gostava de fazer, precisam todas ser repensadas. Também esta é uma percepção que tantas outras pessoas me falam.
O que nos aguarda? Não sabemos. Mas, ainda digo, fique em casa e se cuide.

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