CANTO DO BACURI > Mari Satake: Quarta-feira de cinzas

Em outros tempos, conforme vinha chegando o carnaval, era um tal de arrumar a mochila e correr para algum lugar bem afastado da agitação do dia a dia e se dar ao prazer do desfrute, simplesmente descansando. Sem livros, sem jornais ou televisão. Eram tempos em que nem imaginávamos que nossas mãos e olhos, um dia, poderiam ficar reféns daquele minúsculo objeto que hoje nos dá a falsa sensação de que estamos conectados com o mundo.
Constato. Sou saudosista. Tenho saudades. Saíamos de São Paulo e levávamos a vida como simples bichinhos da natureza. Comendo na hora em que a fome apertava, dormindo quando o corpo já não aguentava mais depois de brincar de desbravar a natureza durante o dia. Desde que não chovesse, é claro. Mas também, se chovesse, sempre se arrumava algo para fazer no aconchego do abrigo. Bons tempos aqueles. Mas longe de mim achar que poderia tentar novamente.
Quarta-feira de cinzas chegou rápido. Parece que foi ontem ainda a quinta-feira, dia 20 de fevereiro, quando saí para o habitual trabalho das vésperas de Carnaval e no final do dia, ao voltar para casa, fiquei imaginando as mil e uma coisas que faria por aqui, nos próximos dias. Mil e uma não fiz, creio que apenas, mil e outras. Ficar em casa tem sido bom. Ando descobrindo que organizar e mexer nas gavetas e prateleiras há muito estabelecidas, faz um bem danado. Sempre se acha livros para por na roda em busca de novos leitores e papéis com anotações que não farão falta nenhuma. Isso tudo porque acredito piamente que vivo me livrando dos guardados inúteis.
Mas, enfim as horas se esgotaram. Radiante, o final de tarde da terça-feira anunciava que finalmente, o ano novo iria começar. Na televisão o apresentador anunciava a campeã do carnaval de São Paulo. Campeã pela primeira vez, a escola levou para a avenida, ôps! para o Sambódromo, a valorização do conhecimento. E pasmem! com homenagem a um dos maiores educadores de todos os tempos, Paulo Freire.
Mais um tanto de notícias e se constata, a insatisfação popular se fez presente por todo o país, principalmente nos blocos do carnaval de rua.
Por outro lado, a outra ala convoca a população a apoiar o fechamento do congresso nacional. Um espanto! Teria sido a resposta para a manifestação dos insatisfeitos? Convidam o bando de satisfeitos para manifestar apoio àquele que vem fazendo misérias com a classe trabalhadora.
O que acontece com a imensa população do país? Será que é condicionada a manifestar a sua insatisfação apenas nos folguedos de carnaval? Nos demais dias são simples executores das ordens recebidas de seus algozes? Calados e submissos. Até quando?
Um dia, alguém disse que o “morro” desceria.
O que nos aguarda? Tempos sombrios.

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