CANTO DO BACURI > Mari Satake: Mães de verdade

Final de outubro, começo de novembro, sempre temos em São Paulo a Mostra Internacional de Cinema. Durante este período, desde sempre, gosto de percorrer pelas salas que passam os filmes da Mostra e nem me perguntem qual critério utilizo para a escolha dos mesmos. Não sei. Mas sei que gosto muito deste período do ano. Quando era mais jovem, era escasso o tempo para assistir os inúmeros filmes que gostaria, contentava-me então, com uma ou outra sessão noturna da sexta-feira e dos sábados e domingos. Achava que quando não tivesse mais a obrigatoriedade da presença diária no trabalho, veria todos os filmes que me atraíssem. Já vai para quase dez a nos que aquele sonhado dia chegou, mas não houve um ano sequer que eu tivesse conseguido ver todos os filmes que me atraiam. Sempre acabo tendo outras urgências e compromissos para atender e acabo não conseguindo ver muita coisa.
Este ano, apesar da pandemia que vivemos, não foi diferente. Lá pelo meio de outubro, outra vez me vi com a velha inquietação querendo saber a programação. Devia ser por volta do dia 15, teve um dia que precisei comparecer a uma agência bancária perto do Conjunto Nacional, resolvido o problema, eis que me pego atravessando a rua com o firme propósito de ir até a central da Mostra. Foi triste. Mas caí em mim antes de adentrar pelo recinto. Ainda pensei, ah! mas tem a livraria. Mas sem acerto, nada de perambular pelas ruas, galerias ou shoppings.
Missão cumprida, problema resolvido, apesar do pequeno deslize, nada mais restou fazer a não ser, pagar o estacionamento e voltar para a rotina dos dias de confinamento. Pelo menos, por estes dias, terei os filmes da Mostra, sem precisar sair de casa, pensei. E como sempre, fiquei muito mais na vontade de ver. E para arrematar o meu logro, ainda acabei perdendo o prazo de validade da locação de um dos filmes. Ontem, domingo, tentei ver uma das ultimas locações e tive o desprazer de constatar que o prazo de validade havia expirado no dia anterior. Óh céus! Mas calma, ainda havia um que relutei em alugar achando que logo, logo estaria no circuito comercial. Óh céus, novamente! Qu em &eacu te; que disse que logo, logo estaremos em condições de voltar a frequentar as salas de cinema? Eu, pelo menos, não pretendo.
Mas enfim, ainda bem, que ainda havia adquirido a locação de Mães de Verdade de Naomi Kawase. Belíssimo filme que trata com muita delicadeza tanto questões atuais da vida na sociedade japonesa como também de aspectos relevantes, desde sempre, de questões que tratam do delicado tema da adoção de uma criança.
A história originalmente escrita por Mizuki Tsujima e com as adaptações da diretora, gira em torno de um casal que deseja ter um filho e assim, realmente constituir uma família. A gravidez, no entanto, não chega. Vão em busca das razões e descobrem a infertilidade do homem. Apesar do drama instalado na vida do casal, ambos, maduros o suficiente, conseguem encarar bem a situação decidindo adotar uma criança.
O filme é conduzido com idas e vindas ao longo dos últimos seis ou sete anos, a idade atual da criança. Se por um lado, temos a mãe adotiva e sua dedicação exclusiva à criação do pequeno Asato, há também a mãe biológica, a mãe que gerou aquela doce criança que desde, muito pequena ainda, sempre soube da existência da mãe que a gerou. A mãe do mar distante.
Nessas idas e vindas ao longo do tempo, conhecemos a doce e sonhadora jovem Hikari de 14 anos. Inocente, vive sua grande paixão juvenil com um colega de colégio sem os devidos cuidados para se proteger de uma possível gravidez que acaba acontecendo logo. Imatura e totalmente dependentes de pais que não aceitam a gravidez precoce da menina, Hikari acaba aceitando a solução imposta pela família. Segue para uma instituição longe de sua cidade natal para viver a sua gravidez em companhia de meninas ou jovens na mesma situação que ela e sob a supervisão da acolhedora responsável pela instituição, a grande mãe daquelas desprotegidas meninas e respons ável pelo encaminhamento dos bebês às famílias que os acolherão. Ali, Hikari vive dias de relativa tranquilidade, sabendo que após o nascimento da criança, seu filho será entregue a pessoas que tenham condições de criá-lo. Hikari despede-se de seu pequeno afirmando que sempre o seguirá, pelo menos em pensamento.
O convívio de Hikari com sua família jamais voltará a ser mesmo. Em pouco tempo, perceberá a impossibilidade de retomar o curso de sua vida como se nada tivesse acontecido. Obrigada a amadurecer à força, vive por alguns anos obstinada em busca de seu filho mesmo sem ter condições de criá-lo.
Se por um lado, vemos os dramas da jovem Hikari, que aparentemente vive uma aparente não vida, com o único pensamento de retomar a criança. De outro lado, vemos também a preocupação da família do pequeno Asato fortemente empenhada nos mínimos cuidados para a proteção da criança, sem desconsiderar em nenhum momento o respeito da verdadeira mãe biológica do pequeno.
Ficou no ar, mas a sensação é que a partir do empenho da mãe adotiva em favorecer um encontro entre os dois, mãe biológica e filho, muitas coisas poderão se esclarecer para a jovem Hikari, de forma que ela possa retomar a sua vida.
Com a mão delicada de sempre, este é mais um belíssimo filme de Naomi Kawase que nos faz refletir sobre a questão da maternidade e os sentimentos envolvidos.

Comentários
Loading...