CANTO DO BACURI > Mari Satake: Kiko

Kiko é uma amiga destes últimos dez anos.
Magrinha, elegante, sempre arrumada e sorridente. Às vezes me pego fantasiando que se minha mãe fosse viva, seria assim como Kiko.
Kiko gosta de cozinhar. Tem mãos de fada. Nem sei se fadas cozinham, mas se cozinharem devem cozinhar bem como a Kiko. Kiko também gosta de costurar e bordar. Boa parte das roupas que veste é ela mesma quem costura. Diz que é muito magra e o menor dos vestidos prontos são enormes para ela. Arrumar dá muto trabalho, é bem melhor começar um do zero do que ajustar, costuma dizer ela.
Kiko ficou viúva muito nova ainda. Tinha cinco filhos menores, dois meninos e três meninas. Todos na escola. Kiko não teve dúvidas, arregaçou as mangas e foi à luta. Durante muitos anos trabalhou como costureira particular. Arrumar uma boa clientela não foi difícil. Uma indicava para outra. Com o seu trabalho de costureira manteve todos os filhos na escola sem que precisassem trabalhar antes do término da faculdade.
Sobre estes tempos difíceis, Kiko costuma dizer que é sempre muito grata à Deus, à vida. Sempre teve boas freguesas e seus filhos, todos eles, a ajudavam nas tarefas domésticas permitindo que assim ela se dedicasse às suas costuras. Mas sábado de tarde e domingo eram dias sagrados. Era quando deixava a máquina de costura e os panos de lado para se dedicar à família. E dedicar-se à família significava fazer as comidas, doces e salgados para alegria dos filhos. Ainda, a dedicação à família incluía também as cerimônias no templo nas manhãs de domingo. Era também a ocasião em que encontrava os irmãos com as respectivas famílias. Sempre fez questão que todos eles a acompanhassem nas manhãs de domingo.
Era também a ocasião em que encontrava os irmãos com as respectivas famílias. Sempre fez questão que todos eles a acompanhassem nas manhãs de domingo.
Os anos passaram. Kiko sempre trabalhando muito e as crianças fazendo a sua parte, estudando bastante e ajudando em casa na medida do possível, mas sempre, todos deviam ter em mente que, em primeiro lugar, deviam estar os estudos. Diz que tudo passou muito rápido. O filho mais velho se formou engenheiro e antes mesmo de se formar, já tinha o primeiro emprego garantido. Kiko continuou trabalhando até ver a caçula também terminar os estudos. Os mais velhos pediam para que ela parasse, afinal de contas, estavam bem empregados e não viam razão para a mãe continuar trabalhando daquela forma. Ela dizia que não, só iria diminuir seu ritmo quando estivessem todos bem encaminhados. E assim fez. Mas mesmo assim, por alguns anos ainda continuou costurando para algumas das clientes mais antigas. Dizia que tinham se tornado suas amigas.
Com o tempo, começou a ter mais tempo livre. Trabalhadeira que sempre foi passou a se ocupar em outra atividade que sempre gostou muito, a cozinha. Um dia, uma das amigas, de última hora, precisou providenciar um jantar para muitos convidados e adivinhem quem foi que a socorreu? Ela mesma, Kiko. A comida amorosa de Kiko fez sucesso, logo começaram a querer que ela cozinhasse em vários lugares. Diz que cozinhou muito, era bom ver as pessoas satisfeitas, mas a família não estava gostando de nada disso. Achavam que era uma atividade muito perigosa e a mãe deveria se poupar mais. Ela também, no fundo, achava que cozinhar daquela forma já não estava lhe dando prazer. Não demorou muito e foi convidada para dar aulas de culinária em uma instituição assistencial. Foi. Gostou. Fez sucesso. Outras instituições passaram a convidá-la.
Aos poucos, Kiko foi se adaptando a esta nova fase de sua vida. Os filhos foram todos se casando e saindo de casa. Quando a filha mais nova saiu de casa, Kiko resolveu que era hora de simplificar a vida. Ela também iria se mudar para algo menor e mais seguro. Iria morar em apartamento. O filho mais velho achava que não. A mãe deveria morar com ele. Kiko bateu o pé dizendo que não. Tinha saúde e muita disposição, e assim pretendia se manter ainda por muitos anos. Ele que tratasse de ajudá-la a arrumar um bom apartamento para ela. E assim foi feito. Kiko mudou-se para um apartamento num prédio bem perto do prédio onde mora a filha mais velha.
Quando conheci Kiko, ela já morava só já há muito tempo. No início, era apenas uma senhorinha a quem admirava muito. Com o tempo, fomos nos aproximando. E sempre que era possível, numa das ações de trabalho voluntário, eu a ajudava de perto. Nos últimos tempos, de vez em quando, íamos almoçar em algum dos restaurantes da Liberdade. Nestes almoços ela sempre tinha alguma novidade relacionada a comida para me dizer. Na verdade, me ensinar. Saudades daqueles dias.
Agora, nestes dias de quarentena, de vez em quando, nos falamos por telefone. Da última vez que nos falamos, Kiko dizia que no mês que vem, ou seja, agora em julho, já poderíamos nos encontrar. Falei, quem sabe? Se não for possível em julho então em agosto, com certeza, ela retrucou. No fundo, sem acreditar nesta real possibilidade, concordei. Sim agosto.
Na real? Talvez, só ano que vem e mesmo assim com muita cautela.
Cuidem-se bem.
Fique em casa.

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